Visibilizando muitas coisas de uma só vez, toda imagem é sintética. A cena carioca, em sua chocante sordidez, apreende o brutalismo do poder escravista remanescente na lembrança escrita, ainda quando condenatória. Depois, a atual hierarquização racial, subsistente na contratação de um negro para uma teatralização degradante. No todo, a concretização de um conceito: o fascismo da cor.
Já a cena paulista, talvez a maior manifestação urbana avaliada em termos numéricos (14 quarteirões), é também sinóptica por mostrar na enorme multidão diversidade etária, gestualidade expressiva e alegria nos rostos. Não era gente em busca de curtidas, mas uma imagem de povo politicamente ativo como subjetividade histórica. "Há política a partir do momento em que existe a esfera de aparecimento de um sujeito, o povo, cujo atributo particular é ser diferente de si mesmo, internamente dividido" (Jacques Rancière).
É verdade que Marx desmontou, com a luta de classes, a mitologia liberal do povo. Mas qualquer que seja o nome atribuído a essa pretensa unidade ("povo" é o preferido pelo Estado democrático moderno, vocacionado a persistir em sua substância parlamentar), crucial é perceber que a política não prescinde de um sujeito coletivo.
Esse sujeito é uma forma dinâmica. Mais do que ser, povo é tornar-se, um processo que produz seu próprio sujeito. Foi o que sintetizou a imagem da avenida Paulista: o rompimento da anterior paralisia popular, evidenciado em cenas de igual intensidade no Rio de Janeiro, em Salvador, nas capitais nordestinas e em numerosas outras cidades. O povo produziu-se nas ruas e nas redes.
Vale refletir sobre por que isso só ocorreu no segundo turno eleitoral. Houve, certo, clara mudança de protagonismo, com o avassalador "exército do Lula" , que inflamou em uníssono as redes e as ruas: os 10 milhões de "soldados" corresponderam ao número da diferença vitoriosa .
Mas um fato sensível despertou a massa de sua letargia. Antes, a consciência progressista estava tomada pelo cansaço de palavras gastas, que já não faziam mais efeito, inclusive a noção abstrata de luta contra a extrema direita ou o fascismo. De repente, porém, a presença concreta do perigo fascista, por lucidez plural, corporificou-se como imagem viva, mobilizando o medo. Jovens e idosos compreenderam. Então a massa, tornada povo por espontânea estratégia das ruas, pautou o Brasil, se não o mundo , contra a catástrofe de uma dinastia miliciana.