Igor Cosso revive a memória da epidemia de Aids dos anos 1980 na peça 'Cruise'

Igor Cosso terminou a leitura do texto de pé, chorando na cozinha de casa, no instante em que se sentia desmotivado com a carreira. Recém-saído da televisão e sem propostas instigantes, o ator de 35 anos ouviu de um amigo sobre um monólogo

Por Admin ·

Igor Cosso revive a memória da epidemia de Aids dos anos 1980 na peça 'Cruise'

O impacto foi imediato. "A inquietação artística voltou, o coração pulsou, eu me lembrei do porquê eu escolhi ser artista e então começou a minha odisseia para conseguir os direitos da peça", diz o ator mineiro.

A odisseia foi real. Ele precisou submeter todo o seu histórico profissional ao agente de Jack Holden antes de obter autorização para encenar o texto no Brasil. Não era só uma questão de burocracia. Era a vida inteira dele sendo avaliada para que pudesse contar aquela história.

Após inaugurar sua trajetória em palcos cariocas, "Cruise – Minha Última Noite na Terra" prepara sua chegada à capital paulista no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, no próximo sábado. Sob a direção de Orlando Caldeira e com tradução de Rodrigo Nogueira, a peça reconstitui a madrugada em que Jack, voluntário de uma linha telefônica de acolhimento à comunidade LGBTQIA+, atende à chamada de Michael Spencer.

Diagnosticado nos anos 1980 com expectativa de apenas quatro anos de vida, Michael decide gastar suas economias na noite de 29 de fevereiro de 1988 —data bissexta que elegeu como ponto final— consumindo o que o bairro londrino do Soho oferecia. O mistério que o texto desata, contudo, é a manhã seguinte: o corpo resiste, o sol nasce e o homem se vê diante do dilema de continuar vivo após ter se despedido.

Cosso discorda, porém, da leitura de que esse homem tenha conseguido dar um adeus definitivo ao mundo. "A vida é implacável e inexorável. Estamos vulneráveis a ter nossas vidas transformadas o tempo inteiro, por glórias e tragédias e não há outra opção a não ser seguir em frente", afirma. "Acho que o Michael, no auge dos seus 60 e poucos anos, reconstruiu sua vida como conseguiu. Envelhecer é um privilégio de quem precisou se construir e se desconstruir muitas vezes."