A cena parece representar uma caça. Porém, há também a interpretação de que os humanos da figura exibem atributos de animais não humanos, o que sugere uma narrativa imaginativa.
Jean Senhorinho, doutor em filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz que a universalidade do envolvimento de humanos com histórias tem eixo horizontal e vertical, ou seja, está presente em todos os lugares e desde, pelo menos, 50 mil anos atrás.
Uma hipótese levantada pelo antropólogo britânico Robin Dunbar relaciona o gosto pelas histórias à ampliação da cooperação humana. A fofoca, por exemplo, ajuda a fortalecer uma relação de confiança entre as pessoas, enquanto o mito propaga histórias que dizem respeito a todas as pessoas do grupo, segundo o professor de teoria literária Pedro Dolabela Chagas, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Um estudo publicado na revista Nature em 2017 concluiu que a contação de histórias entre uma população caçadora-coletora chamada Agta, das Filipinas , estava relacionada a uma maior cooperação. As histórias contadas por eles transmitiram normas e princípios que regulavam cooperação e comportamento social.
Chagas destaca que as histórias permitem ainda que os humanos lidem com sua imaginação. "Somos seres ansiosos porque temos consciência da existência do futuro ou somos direcionados ao futuro, e o futuro a gente não controla. Então, essa capacidade de imaginar cenários alternativos, especialmente os piores cenários, é fundamental para nossa orientação do presente."
O professor ressalta que as hipóteses evolutivas, apesar de cada vez melhores e mais robustas, são deduções a partir de algumas evidências de passados distantes.
Senhorinho acrescenta outras hipóteses que visam explicar a naturalidade humana para as narrativas, como sua contribuição para a formação da identidade social e fazer com que os mesmos valores sejam mais disseminados em um grupo.
As histórias servem também como balanceadores psicológicos, em um mundo repleto de tensões, onde existe uma distância entre o que o indivíduo quer e a realidade. "As histórias poderiam ser um meio importante para a gente processar isso, para encontrar um equilíbrio emocional", pondera Senhorinho.
A presença das histórias já em um passado distante da humanidade é um enigma. Elas reuniam pessoas para dedicar atenção e tempo a situações que não aconteceram em um momento crítico da sobrevivência humana. Por isso, devem ter trazido alguma vantagem.
Isso não significa que surgiram como uma adaptação natural, ou seja, uma característica favorecida pela seleção natural que ofereceu à espécie uma vantagem específica de sobrevivência e permaneceu, diz Senhorinho.
Em vez disso, a habilidade pode ter vindo a partir do desenvolvimento da capacidade para linguagem, imaginação e representação. Mas histórias são adaptativas e, por isso, seus benefícios aos humanos são consequência de seu surgimento, e não causa.