Helinho Garcia: da armação à prancheta, uma vida pelo basquete de Franca

De armador campeão por Franca, Vasco e Uberlândia ao comando do Mundial de 2023 e do pentacampeonato do NBB, Helinho Garcia construiu uma trajetória ligada à formação, ao estudo e ao trabalho coletivo.

Por Marcelo Fradim ·

Helinho Garcia: da armação à prancheta, uma vida pelo basquete de Franca

Faltavam 1,9 segundo. Em Singapura, o Telekom Baskets Bonn vencia por 69 a 68 a final da Copa Intercontinental de 2023. Helinho Garcia pediu tempo e escolheu seu capitão para a última tentativa. Lucas Dias recebeu a bola, arremessou de média distância e acertou a cesta que fez do Sesi Franca campeão mundial, por 70 a 69, em 24 de setembro.

A decisão reuniu responsabilidades diferentes: o treinador organizou a última posse; o jogador resolveu o arremesso. Para Helinho, aquele encontro entre orientação e execução tinha uma história longa. Antes de comandar o banco, ele havia passado duas décadas entre a condução do ataque, os passes e as decisões de um armador. E, antes de vestir a camisa do profissional, já acompanhava o pai pelas quadras de Franca.

A liberdade de escolher e o peso do sobrenome

Nascido em Franca em 12 de maio de 1975, Hélio Rubens Garcia Filho cresceu perto de uma das figuras centrais do basquete brasileiro. Em entrevista à Liga Nacional de Basquete, em 2020, contou que acompanhava Hélio Rubens nos jogos desde pequeno, de mãos dadas com ele. O convívio familiar também incluía longas conversas sobre as partidas entre o pai, os tios e o avô.

O basquete, porém, conviveu com outras escolhas. Helinho praticou natação, representou a cidade e jogou futebol. Na mesma entrevista, afirmou que o pai lhe deu liberdade para decidir e situou sua federação no basquete aos 15 anos.

A cobrança por carregar o nome de Hélio vinha de outro lugar. Segundo seu relato, os erros em quadra podiam despertar a suspeita de proteção paterna. O aprendizado que ele destacou foi a disciplina: havia derrotas acompanhadas de elogios e vitórias seguidas de cobranças quando os acordos do time não eram cumpridos. O resultado importava, mas a execução do trabalho também era avaliada.

Helinho, com o uniforme do Franca, comemora em quadra.
Helinho com a camisa 10 do Franca, em fotografia publicada pela LNB em 2015. Foto: Newton Nogueira/Divulgação.

O armador que venceu por três clubes

Helinho esteve no tricampeonato brasileiro do Franca em 1997, 1998 e 1999. Depois, venceu o Nacional pelo Vasco da Gama em 2000 e 2001 e pelo Uberlândia em 2004. Seu percurso atravessou três clubes e diferentes elencos, mantendo a ligação profissional com o pai, que também comandou essas equipes.

A Seleção Brasileira acrescentou outra dimensão à carreira. Ele disputou os Mundiais de 1998 e 2002 e integrou o grupo campeão dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em 1999, dirigido por Hélio Rubens. A relação entre pai e filho aparecia, assim, também numa conquista do país.

Sua identidade em quadra incluía a precisão no arremesso. Em 2012, ganhou o Torneio de Três Pontos do Jogo das Estrelas, realizado em Franca. Ao registrar sua aposentadoria, a LNB contabilizou 230 partidas e 824 assistências nas sete edições do NBB que disputou. Esses números pertencem à passagem pela competição, não ao conjunto de sua carreira.

Em julho de 2015, aos 40 anos, anunciou a aposentadoria. Ao GloboEsporte.com, ressaltou a importância de encerrar o ciclo na cidade onde nasceu e foi revelado. A continuidade veio inicialmente numa função administrativa, fazendo a ligação entre a gestão e o elenco e participando de questões que iam das negociações às condições de trabalho dos atletas.

Helinho com o uniforme do Vasco ao lado do pai, Hélio Rubens.
Helinho e Hélio Rubens durante a passagem pelo Vasco. Foto: CBB, reproduzida pelo GloboEsporte.com.

Para ensinar, foi preciso voltar a aprender

A mudança para o comando técnico foi anunciada em 13 de maio de 2016, numa coletiva na Associação do Comércio e Indústria de Franca. Helinho assumiu a equipe, enquanto Lula Ferreira passou à função de manager. A distribuição de tarefas preservava a experiência de Lula na estrutura do clube e abria espaço para o novo treinador.

A primeira temporada no NBB terminou com o terceiro lugar na fase de classificação, mas também com uma eliminação: o Paulistano venceu as quartas de final por 3 a 2. Na entrevista concedida à LNB em 2017, Helinho tratou a função de técnico como um aprendizado constante. Ter sido jogador não encerrava sua formação.

O estudo ganhou caminhos fora de Franca. Ele passou pelo ambiente do Golden State Warriors e, em 2017, acompanhou treinos do San Lorenzo, na Argentina, ao lado de Fernando Penna. No trabalho cotidiano, relatou sessões de vídeo e treinamentos específicos com os jovens armadores Coelho e Alexey. A experiência adquirida em quadra começava a se transformar em orientação para outros jogadores.

Lula Ferreira e Helinho apertam as mãos diante do painel de patrocinadores do Franca.
Lula Ferreira e Helinho no registro da mudança de funções no Franca, em 2016. Foto: Divulgação, via LNB.

Reconstruir antes de levantar a taça

As conquistas chegaram em etapas. Em 2018, o Franca venceu o Campeonato Paulista e a Liga Sul-Americana. A decisão continental foi resolvida na Argentina, com vitória por 94 a 90 sobre o Instituto de Córdoba e série fechada em 2 a 1.

Aquela final ajuda a compreender o alcance do trabalho coletivo. André Góes saiu do banco e marcou os últimos nove pontos francanos no jogo decisivo. David Jackson foi eleito o melhor jogador da série. A recuperação de um clube também se expressava na capacidade de encontrar respostas em diferentes integrantes do elenco.

A Seleção também voltou ao seu caminho, agora fora da quadra. Em setembro de 2021, havia sido anunciado como auxiliar de Gustavo De Conti, ao lado de Tiago Splitter. Era uma nova função para quem já conhecera a responsabilidade de defender o Brasil como jogador.

O título nacional exigiu mais tempo. Em 9 de junho de 2022, o Franca derrotou o Flamengo por 80 a 65 no Pedrocão e conquistou seu primeiro NBB. Eram 23 anos desde o Brasileiro de 1999, que Helinho havia vencido como atleta. Agora, participava da conquista como treinador.

O elenco de 2022 teve Lucas Dias como melhor jogador das finais e reuniu nomes como Georginho, Lucas Mariano, David Jackson, Santiago Scala e Márcio. A comissão técnica, a direção, os parceiros e a torcida também compunham a estrutura daquela conquista. Na manifestação publicada pelo clube após o título, Helinho destacou o prazer que o grupo havia encontrado em jogar um pelo outro.

Jogadores e integrantes do Franca comemoram juntos com o troféu sul-americano.
O grupo do Franca na comemoração da Liga Sul-Americana de 2018. Imagem divulgada pelo Sesi Franca Basquete; fotógrafo não identificado na página consultada.
Elenco, comissão e torcedores do Franca comemoram o título do NBB com troféu e confetes.
A comemoração do primeiro NBB do Franca, no Pedrocão, em 2022. Imagem divulgada pelo Sesi Franca Basquete; fotógrafo não identificado na página consultada.

Uma temporada completa e uma decisão mundial

Em 2022/23, o Franca venceu os quatro torneios que disputou: Paulista, Copa Super 8, Basketball Champions League Americas e NBB. A equipe também alcançou 46 vitórias consecutivas. A conquista continental abriu o caminho para a Copa Intercontinental de setembro de 2023.

Helinho recebeu o Troféu Ary Vidal de Técnico do Ano do NBB pela segunda temporada seguida. Na premiação, dividiu o reconhecimento com a comissão técnica e os jogadores. O desempenho daquele grupo exigia preparação e gestão de responsabilidades, além da definição dos sistemas de jogo.

O Mundial acrescentou uma exigência diferente: resolver um torneio curto longe de casa. Depois da final contra o Bonn, Helinho descreveu a partida, em declaração ao canal do clube reproduzida pelo ge, como uma das mais difíceis em que havia trabalhado, somando suas experiências de atleta e treinador. A vitória teve a cesta de Lucas Dias como instante decisivo e uma preparação coletiva por trás dela.

A responsabilidade de continuar vencendo

O primeiro NBB abriu uma sequência. Em 7 de junho de 2026, o Franca venceu o Pinheiros por 85 a 76 no Pedrocão, fechou a final em 3 a 1 e chegou ao quinto título consecutivo da competição. Helinho tornou-se o treinador com mais conquistas na história do NBB, superando as quatro de José Neto. O recorde é específico do torneio organizado pela LNB.

No balanço da conquista, o treinador chamou atenção para uma temporada atravessada por lesões e dificuldades para reunir o grupo nos treinos. Seu destaque foi a resposta dos jogadores. A explicação para a sequência de títulos passava, novamente, pela capacidade de manter uma equipe trabalhando em condições diferentes das ideais.

A comissão técnica foi mantida para 2026/27. Esse passo dá continuidade a um trabalho que já envolve uma década no comando do time, com novas formações e a necessidade de renovar o vínculo entre quem ensina e quem joga.

A história de Helinho oferece a Franca uma imagem concreta dessa transmissão. Um ensinamento recebido precisa ser estudado, testado e adaptado antes de alcançar a geração seguinte. O sobrenome acompanha o treinador; as decisões, a condução do grupo e a responsabilidade pelo trabalho são dele. No banco, sua contribuição continua sendo criar condições para que outra pessoa encontre a melhor resposta dentro da quadra.

Qual lembrança você guarda de Helinho como jogador ou treinador? Conte o jogo, o ano e o lugar. Se tiver uma fotografia, informe quem aparece e a origem do registro para ajudar a documentar essa história.

Fontes da reportagem

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