Guto Barra estreia na ficção com distopia sobre a perseguição a gays nos EUA

Nos Estados Unidos de "Next Year", ser homossexual é crime. Câmeras de segurança ajudam o governo a vigiar a intimidade dos cidadãos, e um pai em luto pela perda do companheiro tenta proteger a família num país que já não a reconhece.

Por Admin ·

Guto Barra estreia na ficção com distopia sobre a perseguição a gays nos EUA

Foi a eleição de Donald Trump , em novembro de 2024, que levou o cineasta brasileiro Guto Barra, radicado em Nova York desde 1997, a imaginar esse futuro. Arrasado com o resultado nas urnas, ele se juntou ao amigo americano Peter DiMario para escrever a história.

O resultado é o curta-metragem "Next Year", sua estreia na ficção, realizado com US$ 25 mil. "Hoje em dia a gente vê que aquele futuro distópico que a gente criou está parecendo cada vez mais próximo, infelizmente", diz Guto.

O protagonista é Jelani Alladin, de "Companheiros de Viagem". Também estão no elenco Zach Martens, de "Sleep No More", e Sherz Aletaha, de " . Os figurinos são de Joseph La Corte, quatro vezes indicado ao Emmy e responsável por "Murdaugh: Death in the Family".

Guto e DiMario não planejavam filmar o roteiro. A ideia era encontrar uma saída criativa para a angústia que sentiam. "Terminamos de escrever, eu falei: ‘Agora vou engavetar aqui porque, né, curta-metragem, quem que vai querer fazer isso?’"

Mas um amigo leu a história e se ofereceu para financiá-la. "Aí, com o dinheiro disponível, não tinha como não fazer. Então outro amigo conhecia o agente do Jelani Alladin, minha primeira opção para o papel, e mandamos o texto para ele, que, assim que leu, me ligou dizendo que queria participar", conta.

Foi como se o projeto tivesse decidido virar filme por conta própria. "Fizemos ensaios com os atores, o que foi ótimo para ajustarmos o diálogo escrito por nós dois na embocadura deles."

"Next Year" estreou no Out on Film, festival LGBTQIA+ de Atlanta, onde recebeu menção do júri; Alladin ganhou o prêmio Rising Star. O curta está previsto para estrear no Brasil no Festival MixBrasil, em São Paulo, em novembro. Seus realizadores buscam qualificação para disputar o Oscar de curta-metragem de ficção.

É um passo importante na carreira de um profissional que começou na imprensa escrita e se consagrou no documentário. Nascido em Curitiba, Guto estudou jornalismo em São Paulo e entrou na Ilustrada, da Folha , em 1993. Na época, o caderno começava a ser referência na cobertura de moda, comportamento e cultura jovem, temas com os quais ele se identificava. Guto era editor-assistente da colunista Erika Palomino.

Saiu da Folha em 1995, passou pelo Jornal da Tarde e, em 1997, mudou-se definitivamente para Nova York, cidade que já conhecia e onde queria morar." Eu tinha muito claro na minha cabeça que queria voltar para Nova York. Era ideia fixa", conta ele nesta entrevista por Zoom em que aparece diante de seus três prêmios Emmy.

Em 11 de setembro de 2001, morava no SoHo, perto das Torres Gêmeas, e havia acabado de comprar uma câmera de vídeo. Registrou imagens dos atentados e produziu material jornalístico. Nascia ali um documentarista, embora ainda precisasse dominar a linguagem das imagens em movimento. Foi estudar edição e começou a trabalhar como editor de vídeo.

Seu primeiro trabalho autoral, "Beyond Ipanema" (2009), é um documentário sobre a história da música brasileira nos Estados Unidos, feito sem financiamento, em estilo de guerrilha. Estreou no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. "Foi uma coisa que explodiu assim do nada, eu nunca poderia imaginar, era um documentário independente, sem grandes pretensões."

A recepção o estimulou a investir no audiovisual. Associou-se à cineasta paulistana Tatiana Issa, diretora de "Dzi Croquettes", lançado no mesmo ano, e passou a desenvolver programas de viagem, entretenimento e documentários para televisão e plataformas de streaming . Entre os projetos estão "Pedro pelo Mundo" e produções com Ingrid Guimarães para o GNT.

Hoje, Guto soma 13 indicações e três prêmios Emmy. Sua produtora mantém seis funcionários fixos e contrata equipes maiores conforme o projeto.

A virada para o true crime, que ampliou sua projeção, veio com "Pacto Brutal" (2022), sobre o assassinato da atriz Daniella Perez, em 1992, por Guilherme de Pádua e Paula Thomaz. "Essa era uma história com a qual eu tinha uma relação muito próxima porque tenho uma amiga de infância, a atriz Letícia Sabatella, que era próxima da Daniella", lembra.

Quando decidiu contar o caso, sabia que precisava conversar primeiro com Glória Perez, mãe da atriz. Temia uma recusa e ensaiava argumentos para convencê-la. Mas, ao procurá-la, ouviu: "Agora é a hora". Glória deu depoimentos e abriu seu arquivo de documentos, reportagens e registros judiciais. Até Roberto Carlos, que raramente dá entrevistas, aceitou participar.

Para Guto, não bastava reconstituir o assassinato: era preciso mostrar como a vítima foi julgada publicamente. "A Daniella passou a ser meio culpabilizada. O que estava fazendo naquele matagal, com aquele cara? Tinha toda essa coisa por trás que hoje a gente entende como misoginia.

"Poucos meses após o lançamento da série, Guilherme de Pádua morreu de infarto, aos 53 anos. Estava em liberdade e havia se tornado pastor evangélico. Guto conta que chegou a desconfiar da notícia. "Na hora eu me perguntei: será que é verdade? Será que pode ser uma coisa falsa, será que ele tá fingindo a própria morte?"

Não gostaria, porém, que a morte fosse associada à série. "Eu não acredito em pena de morte, não acho que devemos punir as pessoas dessa maneira e prefiro que não ligassem esse fato ao documentário.