A parlamentar mais bem votada para a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, autodeclarada "conservadora, cristã e antifeminista", inseriu na imagem as tarjas "ideologia de gênero", "aborto", "legalização das drogas" e "repressão à nossa fé". Abaixo, a frase "cristão não vota em candidato indicado por gente que sempre defendeu isso!".
Na legenda, ela diz que a cada quatro anos reaparecem os mesmos personagens com "a máscara da candura", todos "muito ‘simpáticos’ e ‘empáticos’, como se não tivessem passado a maior parte de suas vidas públicas [...] tratando nossos valores como sinônimo de atraso".
A peça convocava pautas morais para defender que cristãos rejeitem candidatos associados à esquerda, numa estratégia clara: apresentar o voto como uma escolha de fidelidade religiosa.
É o tipo de conteúdo que saiu da berlinda nesta eleição presidencial para ser explorado lateralmente por aliados de Flávio Bolsonaro (PL), a exemplo do deputado eleito Lucas Pavanato (PL-SP), com sua oposição estridente a pautas LGBTQIA+, e a futura deputada estadual Eduarda Campopiano (PL-SP), que vai espessar o caldo antifeminista nos parlamentos estaduais.
O elemento moral existiu e não foi pequeno na campanha principal, como a promessa de Flávio de punir abusadores sexuais com castração química. Mas a pauta moral clássica, como os temas levantados por Ana Campagnolo, ficou em segundo plano.
O que ficou mais saliente foi o discurso da guerra espiritual, que transfere a disputa política para um confronto entre o bem e o mal, pintando o triunfo do adversário como ameaça existencial.
Levantamento de perfis digitais religiosos, feito em parceria pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque, deixa esse cenário mais claro. Nos dias que antecederam o segundo turno, houve forte mobilização para campanhas de "jejum e oração pelo Brasil", incentivadas por influenciadores como Bella Falconi como arma para liberar o país "de uma ideologia demoníaca".
A religiosidade pegou vias transversais a essa avenida eleitoral, com o candidato do PL fazendo o tour de praxe em igrejas e testando os limites da Justiça Eleitoral, que proíbe pedido de voto nos templos. Em agosto, em novo aceno a evangélicos, Flávio prometeu decretar "que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo" como um dos atos inaugurais de sua Presidência.
A bancada evangélica se expandirá , puxada por influenciadores como Pavanato e Nikolas Ferreira (PL-MG), campeões de voto no placar geral. Cresceram também ataques a religiões de matriz africana , retratadas como linha auxiliar da força das trevas nessa batalha espiritual evocada pelo bolsonarismo.
"A gente não ora o Pai-Nosso à toa", Nikolas escreveu num post em que reproduz o vídeo de um ato pró-Lula, Tambores pela Democracia, promovido por umbandistas e candomblecistas na quinta (22). Na gravação, manifestantes cantam sobre "manter Bolsonaro amarrado num cipó".
Ao contrário do que sugerem bolsonaristas, essa expressão vem da tradição da Jurema, religião afro-indígena com origem nordestina, e tem a ver com "invocar proteção espiritual e o afastamento de forças que considera ameaçadoras", e não "desejar literalmente a morte de uma pessoa", diz Carolina Rocha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião) e autora de "A Culpa é do Diabo: O que Li, Vivi e Senti nas Encruzilhadas do Racismo Religioso".
A reta final da campanha foi marcada também por apoios de última hora de líderes evangélicos de quilate nacional que ainda não haviam respaldado a candidatura de Flávio. Os dois maiores ministérios da Assembleia de Deus, Belém e Madureira, explicitaram a preferência pelo senador .
O missionário R.R. Soares nunca escondeu sua simpatia por Jair Bolsonaro (PL), mas também não havia falado nada publicamente a favor do primogênito dele nesta eleição. Quebrou o silêncio na sexta, num post calibrado para não espinafrar Lula.
"Não que eu tenha algo contra o outro, mas ele já governou tanto tempo, tem que deixar a mocidade começar agora. Nós já estamos de partida para a eternidade", disse o líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, pioneira no uso massivo do televangelismo.