Guerra do delivery: iFood aciona Keeta na Justiça por aliciamento de parceiros e concorrência desleal

O embate pelo domínio do ecossistema brasileiro de entregas de refeições acaba de ganhar um novo desdobramento nos tribunais. O iFood ingressou com uma ação na 1ª Vara Empresarial e de Conflitos de Arbitragem de São Paulo contra a Keeta, su

Por Admin ·

Guerra do delivery: iFood aciona Keeta na Justiça por aliciamento de parceiros e concorrência desleal

O embate pelo domínio do ecossistema brasileiro de entregas de refeições acaba de ganhar um novo desdobramento nos tribunais. O iFood ingressou com uma ação na 1ª Vara Empresarial e de Conflitos de Arbitragem de São Paulo contra a Keeta, subsidiária da gigante chinesa Meituan, alegando condutas anticompetitivas que visam sufocar a concorrência. A líder do setor acusa a rival asiática de praticar preços predatórios e de estruturar um esquema ilícito para cooptar restaurantes parceiros por meio do vazamento de dados confidenciais.

Na petição inicial, a companhia brasileira solicita uma perícia econômico-financeira para dimensionar o volume de recursos injetados pela matriz estrangeira, tática conhecida no mercado como deep pockets , para bancar o que chamou de “descontos irracionais”. O iFood se baseou em laudos de três consultorias e aponta que a concorrente opera com receitas líquidas negativas por pedido no Brasil, subsidiando reduções médias superiores a 40%.

— A participação de mercado que a Keeta alcança hoje é fictícia, financiada por meio de subsídios que desaparecem quando os descontos são racionalizados. É uma competição sobre quem tem o “bolso mais fundo” para subsidiar por mais tempo descontos irracionais, até que os competidores menos capitalizados encerrem suas atividades, os descontos desapareçam e o setor sofra as consequências desse ajuste — afirma Lucas Pittioni, vice-presidente Jurídico do iFood.

Segundo a brasileira, essa estratégia criaria uma "bolha de cupons", obrigando os próprios estabelecimentos a cofinanciar parte das ofertas para reter clientes, o que acaba espremendo suas margens de lucro operacionais. Para ilustrar o problema, o iFood faz no processo um paralelo com um fenômeno agressivo de subsídios que provocou o fechamento de 1,61 milhão de pequenos negócios na China em 2025 e alerta para os riscos de involução do setor.

A denúncia ganha contornos ainda mais sensíveis com a acusação de um esquema estruturado de aliciamento comercial. Foram anexadas ao processo transcrições de áudios nos quais um gerente da marca asiática relata a busca por informações mercadológicas da rival e admite a criação de uma equipe dedicada a abordar os estabelecimentos sujeitos à exclusividade com o aplicativo brasileiro.

Esse time de cooptação, segundo a denúncia, seria formado por ex-funcionários do próprio iFood munidos de dados confidenciais privilegiados. Nas gravações, o executivo declara que a plataforma estaria disposta a auxiliar no pagamento financeiro das multas decorrentes dessas quebras rescisórias.

A escalada judicial caminha em paralelo a uma intensa guerra de narrativas já instaurada na esfera administrativa. No fim de agosto, a líder do segmento no país formalizou uma representação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), requerendo a adoção de medidas preventivas imediatas para frear a estratégia de precificação da concorrente.

A acusação sustenta que o braço da Meituan estaria operando com prejuízos propositais e receitas líquidas negativas por pedido, configurando uma tentativa de eliminar concorrentes com base apenas em sua capacidade de financiamento estrangeiro.

O pano de fundo que inflama os ânimos, no entanto, continua sendo o modelo de negócios pautado pelos arranjos de fidelidade. Em um posicionamento enviado ao GLOBO, a Keeta classifica a nova investida jurídica do iFood como uma manobra clara de uma "plataforma monopolista" que busca asfixiar a consolidação de entrantes.

“A plataforma dominante — que consolidou sua posição no país por meio de uma estratégia agressiva de cláusulas de exclusividade impostas aos restaurantes, e que sufocou os concorrentes — agora tenta minar a capacidade de uma empresa entrante de competir minimamente (...). E, dessa forma, tenta também desviar a atenção das autoridades da investigação do CADE que enfrenta atualmente por descumprimento do acordo assinado com a autarquia referente a cláusulas de exclusividade e outras práticas indevidas que prejudicam gravemente o setor”, diz a nota.

A novata asiática, que atua em 32 municípios brasileiros até o momento, argumenta que os descontos são uma tática comum em todo o varejo digital para incentivar a experimentação do consumidor. Segundo a Keeta, o iFood sufoca toda a cadeia logística com bloqueios comerciais restritivos, descumprindo o acordo firmado anteriormente com a autarquia federal.

"O Brasil é o único mercado do mundo dominado por um monopólio dessa proporção no segmento de entrega de refeições", declarou a companhia chinesa. A empresa sustenta, ainda, que seu desembarque em território nacional fomenta oportunidades de renda e de diversificação de canais para lojistas e motociclistas.