O reconhecimento aconteceu em 5 de janeiro de 2023, dias após a posse do presidente Lula (PT) e três dias antes dos atentados golpistas em Brasília. O prazo de cerca de dois meses contrasta com a espera nos consulados italianos do país, que costumava levar cerca de dez anos antes da mudança na Lei da Cidadania, no ano passado.
O governo italiano negou que a concessão tenha ocorrido fora das normas legais.
Para o deputado de oposição Angelo Bonelli, a confirmação do prazo de 58 dias mostra que Flávio e os irmãos podem ter tido tratamento privilegiado na tramitação do pedido de reconhecimento. Ele foi o autor de um pedido formal de esclarecimentos ao governo.
Em sua resposta, a subsecretária Matilde Siracusano, do Ministério das Relações com o Parlamento, afirmou que o primeiro a pedir para entrar na lista de espera para obter a cidadania na embaixada italiana foi o então deputado Eduardo Bolsonaro, em 2020. Carlos e Flávio fizeram o mesmo quase um ano depois, mas as solicitações foram analisadas juntas.
"Em 20 de outubro de 2021, depois de um ano do inserimento na lista de espera, Eduardo fez contato com o consulado da embaixada para pedir atualização sobre o estado do seu pedido", disse Siracusano, que é filiada ao partido Força Itália, do vice-premiê Antonio Tajani.
Depois de um ano, em 8 de novembro de 2022, dias após a derrota no segundo turno do então presidente Jair Bolsonaro, seus filhos puderam apresentar os documentos para o reconhecimento, dando início ao processo de avaliação do pedido. A família é descendente de um parente emigrado no século 19 da região do Vêneto para o Brasil.
"A cidadania italiana foi reconhecida aos três irmãos Bolsonaro em 5 de janeiro de 2023. A documentação apresentada resultava completa e conforme às disposições então aplicáveis", disse Siracusano.
Com o certificado em mãos, é possível pedir documentos de identificação. Flávio foi o primeiro a obter o passaporte, em 8 de novembro de 2023. Eduardo e Carlos conseguiram os seus entre abril e junho de 2024.
"O reconhecimento da cidadania italiana de Eduardo, Flávio e Carlos Bolsonaro ocorreu em respeito à normativa então vigente e aos procedimentos previstos", disse a subsecretária.
A ida de um representante do governo à Câmara foi um pedido do deputado Bonelli, da Aliança Verde e de Esquerda. Ele havia solicitado que o governo explicasse o modo com que Flávio obteve seu passaporte italiano, usado na fuga do Brasil para os Estados Unidos após a derrota no segundo turno das eleições.
Há anos existe entre parlamentares de oposição a suspeita de que os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro possam ter recebido tratamento privilegiado na tramitação do reconhecimento da cidadania. Em sua intervenção, a representante do governo não comentou as acusações.
"É claro que depois dessa resposta é evidente que houve um procedimento acelerado", disse Bonelli em sua réplica no plenário. "É necessário apurar se houve da parte de algum membro do governo italiano uma solicitação, uma recomendação política para que os irmãos Bolsonaro que fogem da Justiça, Eduardo e Flávio, obtivessem o passaporte, enquanto existem italianos que esperam dez anos", afirmou.
Após a sessão na Câmara, o deputado afirmou que irá apresentar uma denúncia na Justiça italiana para que seja verificado se houve "procedimento preferencial e pressões políticas, dada a proximidade entre o vice-primeiro-ministro [Matteo] Salvini e os irmãos Bolsonaro".
Entre os líderes da coalizão que governa a Itália, Salvini é o mais próximo da família Bolsonaro. Flávio participou de evento do seu partido, a Liga, na Itália em 2025 e, após o primeiro turno, Salvini comemorou o resultado obtido pelo senador, chamado por ele de "amigo". No dia seguinte à vitória do presidente Lula, a primeira-ministra Giorgia Meloni parabenizou em nota o petista pela reeleição.
O fato de Flávio Bolsonaro ter recorrido ao passaporte italiano para entrar na Argentina, após a derrota, foi destaque na imprensa italiana. Além de o documento também ter sido usado pela ex-deputada Carla Zambelli ao fugir da Justiça brasileira para a Itália, o país discute os efeitos da lei que, no ano passado, restringiu o acesso à cidadania para descendentes nascidos fora do país europeu.