Gabriel Martins filma o luto e volta a dramas coletivos em 'Vicentina Pede Desculpas'

No tempo da faculdade, o cineasta Gabriel Martins passava muitas horas andando de ônibus. Nascido em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, ele observava tudo e todos quando ia e voltava das aulas na capital mineira, estudando as expressões dos p

Por Admin ·

Gabriel Martins filma o luto e volta a dramas coletivos em 'Vicentina Pede Desculpas'

É justamente o que a atriz Rejane Faria faz numa das cenas de " Vicentina Pede Desculpas ", que chega aos cinemas nesta quinta-feira (5). No novo filme do diretor, a protagonista, inspirada pela avó que o realizador perdeu ainda jovem, compara seu olhar triste ao de outras pessoas, questionando se elas enfrentam o mesmo drama que o dela —o luto.

"Estamos esquecendo a humanidade. Todo dia, ao acordarmos, precisamos ser lembrados dela", afirma o cineasta, um dos sócios da Filmes de Plástico , reconhecida por projetos que jogam luz sobre os detalhes do cotidiano. Queridinha de mostras brasileiras, mais recentemente de festivais mundiais, nem sempre a produtora se contenta com a realidade, inscrevendo nela pequenas mudanças e sonhos de difícil alcance.

No longa mais conhecido de Martins, " Marte Um ", os dramas de uma família negra e periférica atravessam desejos pessoais e eventos absurdos. Enquanto o filho caçula estuda para ser astronauta, contrariando o pai que busca torná-lo uma estrela do futebol, a mãe testemunha uma pegadinha envolvendo um homem-bomba e começa a dissociar mentalmente.

"Precisamos ser lembrados de que as pessoas erram, de que nossos vizinhos encaram situações que não conhecemos. Penso que os filmes servem para nos chacoalhar dentro da realidade, impedir que sejamos levados pelo mar de negatividade em que vivemos", adiciona ele, mencionando cenários de tensão como as eleições no Brasil e a guerra entre Israel e Palestina .

Seguindo à risca as palavras do artista, seu longa mais recente começa com um chacoalhão, um acidente de ônibus que mata quase todos os passageiros. A tragédia é surreal —o veículo cai abruptamente de um viaduto, como num filme de ação, distante dos enquadramentos parados, dos diálogos longos e das cenas silenciosas que predominam a partir daí.

Movida pela culpa, a mãe do motorista, também entre as vítimas, decide ir atrás e se retratar com parentes dos envolvidos. Embora "Vicentina Pede Desculpas" não seja exatamente fantasioso, o longa reúne jeitos de se representar fantasmas. Fora a casa escura, que é iluminada pelas reportagens sensacionalistas que a TV exibe, exemplo disso é que os dois filhos de Vicentina são vividos pelo mesmo ator, Renato Novaes.

Assim, é como se o morto batesse à porta um dia após partir. "Como bom discípulo de Alfred Hitchcock e Brian de Palma [diretores muito elogiados por usar os visuais como uma extensão dos dramas narrados], existe um lugar dos duplos, da ideia de ausência e presença, que me atrai muito. Gosto de como o cinema é capaz de materializar presenças."

A relação entre o diretor e a plasticidade o segue desde os primeiros projetos. Em seu "Filme de Sábado", curta-metragem que inaugurou a Filmes de Plástico em 2009, um jovem decide montar uma praia em seu quintal. Ao fim, incomodado com o céu nublado, ele usa um refletor de luz para simular o sol.

Dois anos depois, Martins flertou com o faroeste no curta " Dona Sônia Pediu uma Arma Para Seu Vizinho Alcides ". Nele, uma senhora vinga a morte do filho e mata um bandido com um tiro na cabeça. Vídeos antigos, que repensam a infância do cineasta como memórias dos personagens, e a música de uma sanfona reforçam o misticismo em torno da assassina.

Já em seu longa de estreia, " No Coração do Mundo ", cuja direção dividiu com o sócio Maurílio Martins —na faculdade, eles viraram amigos ao descobrir que tinham o mesmo sobrenome—, o realizador retrata vários habitantes de Contagem. Entre o crime e a vida honesta, todos sonham em deixar a cidade. Em certa cena, a personagem de Grace Passô narra planos para o futuro em frente à paisagem falsa de um cartaz.