A partir dos anos 80, com a evolução científica, houve, progressivamente, uma grande valorização da estratégia, do planejamento, da disciplina tática e do jogo coletivo. O futebol se tornou mais previsível e mais defensivo. Um time esperava o outro para contra-atacar, e poucas grandes jogadas aconteciam. Com isso, diminuiu o número de gols. O futebol ficou mais amarrado e feio.
Nos últimos anos, houve uma conciliação entre o prazer e o dever, entre a improvisação e o planejamento. Os grandes times e seleções europeias jogam um futebol mais intenso, de mais riscos e com muito mais gols.
Em vez de marcar mais atrás para contra-atacar, as equipes pressionam para tentar recuperar a bola mais perto do outro gol. Por outro lado, correm mais riscos de deixar muitos espaços na defesa, ainda mais que os defensores também avançam na marcação.
As partidas desta semana entre as grandes equipes na Liga dos Campeões foram espetaculares e com grande número de gols. A média na última rodada foi acima de quatro gols.
O número poderia ter sido muito maior na vitória do PSG sobre o Barcelona por 4 a 2 , pois os dois times tiveram muitas outras claras chances de marcar. Dois dos quatro gols do PSG foram marcados por meio-campistas (Vitinha e Fabián Ruiz). Os dois e João Neves formam um trio de meio-campistas que se alternam na marcação, na construção e na chegada ao ataque.
Bayern de Munique e Arsenal fizeram partida parecida no empate por 2 a 2. Um dos gols do Arsenal foi marcado pelo meio-campista Rice, que iniciou a jogada no próprio campo, tocou, recebeu, penetrou e fez um belíssimo gol. O centroavante Kane foi, como sempre, destaque no Bayern, jogando de uma área à outra.
Enquanto isso, acontece outro futebol nas decisões da Copa Libertadores .
O Palmeiras repetiu a estratégia do primeiro jogo. Marcou com nove jogadores recuados, perto da área, e nos pênaltis eliminou o Fluminense . Na outra semifinal, o Flamengo, no Maracanã, repetiu a má atuação da primeira partida e foi eliminado nos pênaltis pelo Estudiantes . Os dois jogos entre Palmeiras e Fluminense e os dois entre Flamengo e Estudiantes foram fracos.
O Fluminense, nos confrontos com Flamengo e Palmeiras, tem tido boas atuações, no mesmo nível ou até melhor do que o dos rivais, mesmo sem ter jogadores tão badalados.
Na parada técnica do segundo tempo do segundo duelo com o Palmeiras, quando o jogo estava 0 a 0, o modesto e interino técnico Marcão disse aos jogadores para esquecer a estratégia e tentar com intensidade o gol. Ele não quis desprezar a tática. Apenas enfatizou que era o momento de transbordamento da alma para vencer o jogo. O Flu ganhou por 1 a 0 e só caiu nos pênaltis.
O futebol e o mundo incendiário em que vivemos atualmente passam por transformações que podem ser passageiras ou duradouras, permanentes, mesmo que não sejam eternas. É preciso separar as duas situações. Não é fácil. Elas se misturam. O mundo está confuso.