Fukushima mantém reatores sob resfriamento contínuo

Quinze anos após o acidente, a usina japonesa ainda recebe água diariamente para controlar o calor dos reatores e remover o combustível fundido.

Por Marcelo Fradim ·

Fukushima mantém reatores sob resfriamento contínuo

Quinze anos depois do acidente nuclear, a usina Fukushima Daiichi continua sendo tratada como um complexo industrial em operação permanente. As equipes monitoram os reatores danificados, injetam água para controlar a temperatura e tentam avançar na retirada do combustível fundido.

O desastre começou em 11 de março de 2011, quando um terremoto de magnitude 9,0 atingiu a costa leste do Japão. O tremor provocou um tsunami com ondas de mais de 10 metros, que inundou os equipamentos elétricos e os geradores a diesel de emergência da usina. Com a perda da energia necessária ao resfriamento, três reatores em operação sofreram fusão do núcleo.

Explosões de hidrogênio foram registradas nos três dias seguintes. O acidente provocou o vazamento de materiais radioativos e a contaminação da área próxima à usina. A ocorrência recebeu classificação 7, o nível máximo da Escala Internacional de Acidentes Nucleares e Radiológicos (INES), igual ao atribuído a Chernobyl, em 1986.

O terremoto também causou o desligamento automático de 11 reatores instalados em quatro usinas da região afetada. Oito conseguiram completar o desligamento em quatro dias, mas os três reatores de Fukushima Daiichi não tiveram o mesmo resultado porque a instalação foi inundada pelo tsunami. Apenas um gerador a diesel refrigerado a ar, na Unidade 6, permaneceu disponível.

Em Chernobyl, um sarcófago emergencial foi construído nos meses posteriores ao acidente para conter as emissões radioativas do Reator 4. Uma estrutura maior, chamada Arca, foi instalada em 2015 para reduzir a dispersão de materiais radioativos e permitir o desmantelamento do sarcófago antigo.

Fukushima não conta com uma estrutura equivalente para encapsular os três reatores danificados. A estratégia adotada é mantê-los resfriados, administrar a água contaminada e realizar, de forma gradual, a remoção do combustível fundido. Cerca de 150 metros cúbicos de água são injetados diariamente nas três unidades. O volume, superior ao de 60 banheiras transbordando, ajuda a impedir que o calor provoque aumento perigoso da temperatura e reações descontroladas.

A retirada integral do combustível fundido ainda não foi possível por causa da dificuldade de acesso aos reatores e da intensa radioatividade no entorno. Depois de usada no resfriamento, a água passa pelo sistema ALPS, que remove a maior parte dos radionuclídeos. O trítio é a principal exceção, pois não pode ser separado da água.

Desde agosto de 2023, o Japão libera no oceano a água tratada e diluída. Segundo a fonte, os níveis são considerados seguros conforme normas nacionais e internacionais. A decisão, porém, provocou oposição de organizações ambientais, de parte da comunidade pesqueira e de alguns governos da região.

Em 2021, especialistas independentes em direitos humanos da Organização das Nações Unidas expressaram preocupação com possíveis impactos da medida sobre a saúde e o meio ambiente.