Fuga de Flávio fará direita se afastar do bolsonarismo ou seguirá dependente dele?

30/10/2026 00h00 Atualizado 30/10/2026 00h00 Menos de três dias depois de ter perdido a eleição para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por uma margem superior a quatro milhões de votos , o senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o

Por Admin ·

Fuga de Flávio fará direita se afastar do bolsonarismo ou seguirá dependente dele?

30/10/2026 00h00 Atualizado 30/10/2026 00h00

Menos de três dias depois de ter perdido a eleição para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por uma margem superior a quatro milhões de votos , o senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o país rumo aos Estados Unidos. Horas antes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes havia determinado o cancelamento dos passaportes de Flávio a pedido da Polícia Federal (PF), que alegava justamente o risco de fuga em meio às investigações de lavagem de dinheiro e de irregularidades no financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro, o filme "Dark horse" , além de outro inquérito que mira as conexões com o advogado Willer Tomaz, citado no escândalo do INSS. O parlamentar, no entanto, não cumpriu a ordem no prazo determinado.

Já em território americano, Flávio foi além e divulgou uma carta com teor golpista questionando o resultado das urnas, afirmando ser perseguido pelo Judiciário e se apresentando como "verdadeiro presidente eleito” do país. Depois da repercussão, uma nova versão do documento trocou a referência para "líder do Brasil". Aliados do ex-candidato à Presidência da República e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no entanto, foram rápidos em contrapor Flávio e reforçar a lisura do pleito.

Cotado desde já para a disputa de 2030, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que o caminho é “respeitar o resultado das urnas e seguir em frente” , enquanto o ex-coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN), reafirmou não haver provas de fraude eleitoral. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado à Corte pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, também divulgou uma nota em defesa da legitimidade da votação e do respeito à vontade dos eleitores.

Não vejo chance de um afastamento imediato por parte da direita não bolsonarista. Mas a tendência é que, com o tempo, haja um desgarramento entre as partes. As primeiras reações de aliados como Tarcísio de Freitas, Rogério Marinho e Valdemar Costa Neto (presidente do PL) confirmam que esse será um processo lento, mas que, sim, tende a acontecer. O bolsonarismo é uma marca poderosa, ainda, mas sua influência dificilmente se manterá inalterada com o seu fundador preso por mais dois anos e dois dos seus filhos no autoexílio.

A fuga para os Estados Unidos e a carta de Flávio Bolsonaro com falsas alegações de fraude eleitoral fizeram com que ele ficasse isolado. Partidos da direita e do centro e políticos que estiveram com ele na campanha estão se manifestando contra a ideia de que houve qualquer irregularidade nas eleições. O próprio PL reconheceu o resultado. O governador Tarcísio de Freitas fez declarações mostrando que a eleição acabou, mas que o projeto (da direita) continua. Boa oportunidade para a direita se afastar do extremismo.

Os primeiros movimentos de lideranças políticas após a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA sinalizam a tendência de se afastar do bolsonarismo. Isso não será imediato para evitar associações a ingratidão ou traição, mas expoentes da direita como o governador Tarcísio de Freitas já defendem que é hora de aceitar a derrota e seguir em frente. O partido do próprio Flávio não embarcou no discurso dele, seguido por sua carta, ambos de teor golpistas. No Brasil restaram o deputado eleito Jair Renan, sem expressão política, e os senadores eleitos Carlos Bolsonaro e Michelle Bolsonaro. O primeiro já deu sinais claros que não pretende se capitalizar como liderança nacional e mostrou não ter apoio para isso. Já Michelle planeja começar a carreira política de maneira sutil, abraçando suas pautas sociais no Senado e bem longe da defesa dos enteados que fugiram do país e a mantém na linha de tiro.

Seguirá dependente, embora talvez agora haja mais coragem de determinados atores se posicionarem contra movimentos da família. Não foi só a direita moderada que torceu o nariz para a escolha de Flávio como o candidato a presidente em dezembro do ano passado. Muitos radicais como Silas Malafaia e Nikolas Ferreira também não queriam o filho do ex-presidente liderando a oposição, mas sim Tarcísio de Freitas. A questão é que o governador de São Paulo titubeou na hora de falar com clareza que queria concorrer ao Planalto, e os seus defensores pouco fizeram para tentar convencer Jair Bolsonaro em quatro anos. Só que a questão do quadriênio 2022/2026 seguirá até 2030: na minha opinião, Tarcísio ou qualquer outro nome seguirá sem ter como romper com o clã e toda a sua popularidade.

Mais uma vez, Alexandre de Moraes deu vazão à sua índole autoritária e se precipitou, a não ser que a PF tivesse informações de que o plano de fuga estivesse sendo armado.

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