Ao todo, de janeiro até o último dia 14, o acumulado é de 15.674 focos de calor na região. Isso significa que o número visto a partir do primeiro turno equivale a 36% do saldo de 2026.
Os mais de 15 mil casos também representam uma alta em relação à mediana histórica para o período de 4 a 14 de outubro, desde 2015. O número é inferior apenas ao observado em 2023, quando a Amazônia atravessou uma seca extrema.
O levantamento foi feito pelo Ipam (Instituto de Pesquisas da Amazônia), com base em dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Ele abrange a capital e as cidades de Autazes, Barreirinha, Boa Vista do Ramos, Careiro, Careiro da Várzea, Iranduba, Itacoatiara, Itapiranga, Maués, Nhamundá, Nova Olinda do Norte, Parintins, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, São Sebastião do Uatumã, Silves, Urucará e Urucurituba.
As informações são captadas pelo sensor VIIRS, a bordo do satélite Suomi NPP, de estudo de mudanças climáticas e condições meteorológicas. O equipamento identifica a distribuição dos focos de calor em áreas de vegetação natural, propriedades rurais e terras públicas.
A diretora de ciência do Ipam, Ane Alencar, diz que não ser possível identificar a motivação por trás da velocidade de acúmulo de casos. "Não investiguei no local para saber se teve motivação política, mas os dados mostram uma coincidência", diz.
"Pode ser porque as pessoas viram uma oportunidade de ocupar uma área pública sem gastar muito dinheiro, ou pode ser uma retaliação, ou as duas coisas", acrescenta.
A pesquisadora compara o cenário com eleições presidenciais anteriores. Em 2022, o pico de incêndios no estado se deu em setembro, no auge da seca. Em 2018, foi em julho.
Nesta eleição, a Presidência é disputada por Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) e Flávio Bolsonaro ( PL ). O petista está em seu terceiro mandato com os índices mais baixos de desmate na amazônia e no cerrado desde 1988 e 2013, respectivamente. Na última semana, o peelista disse que pretende acabar com o que chamou de "entraves ambientais" e que produtores rurais poderão fazer o que quiserem em suas terras.
O Ipam também verificou que as FPNDs (Florestas Públicas Não Destinadas), alvos frequentes de grileiros, concentraram 39% dos focos de calor registrados de janeiro a 14 de outubro na região. Essas florestas pertencem ao poder público, porém ainda não receberam uma destinação formal voltada à conservação e ao uso sustentável. Outros 22,6% dos focos atingiram terras públicas.
Além disso, 77% dos casos ocorreram em áreas de vegetação nativa, enquanto o restante atingiu locais já alterados pela ação humana, como áreas de pastagem.
Para Ane, esse dado sugere que o fogo tem origem criminosa. "O que a gente imagina é que as pessoas usaram fogo em áreas públicas para ocupar esses locais. É mais fácil degradar a área com fogo sem ser pego, do que contratar pessoas para desmatar, usando trator e motosserra."
Segundo o Ipam, quase 80% das áreas desmatadas em FPNDs são posteriormente convertidas em pastagens. No restante, a vegetação se regenera, contudo permanece sujeitas a novos processos de degradação e incêndios.
Os impactos do El Niño , como agravamento da seca e redução do padrão de chuva, já estão sentidos na amazônia. Normalmente, a região começa a secar a partir de junho, sendo o pico em setembro. Mas neste ano o fenômeno já estende a duração da estiagem, facilitando o espalhamento das chamas.
"Percebemos alguns bolsões de seca mais extrema nessas regiões, tanto em Manaus, subindo para Roraima , quanto na região de Santarém (PA) . São áreas que já estão tendo uma seca acima da média", diz a cientista. "Mas é justamente nesse período que as pessoas queimam nessa região, porque já esperam que a chuva venha em novembro."