Flávio tem o pai e Lula entre as palavras que mais usou no ano; petista foca no apelo social

23/10/2026 03h30 Atualizado 23/10/2026 03h30 No princípio, era o verbo — e nas eleições também. As palavras mais usadas por Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao longo do ano expõem diferenças marcantes na estratégia us

Por Admin ·

Flávio tem o pai e Lula entre as palavras que mais usou no ano; petista foca no apelo social

23/10/2026 03h30 Atualizado 23/10/2026 03h30

No princípio, era o verbo — e nas eleições também. As palavras mais usadas por Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao longo do ano expõem diferenças marcantes na estratégia usada pelos dois adversários na corrida pelo Planalto: enquanto o senador tem o nome do rival como um dos termos mais repetidos, o petista pouco se refere diretamente ao parlamentar. Na lista de vócabulos preferidos do bolsonarista, aparece ainda a sigla “PT”, além de “Deus” e “família”, bem como “pai” e “Bolsonaro”, em alusões ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Já no top 15 do postulante à reeleição surgem termos como “mulher”, “casa” e “dinheiro”, de apelo social. Há um ponto em comum entre eles, no entanto: em ambos os casos, a liderança fica com “Brasil”.

'Na cabeça dos candidatos': Da segurança à ameaça dos EUA, análise com IA em 850 mil palavras revela focos de Flávio e Lula 'Na cabeça dos candidatos': Da maioridade à 6x1, vocabulário de Lula e Flávio evidencia guinadas retóricas pelo voto

No capítulo final da série “Na cabeça dos candidatos”, que analisou com auxílio de inteligência artificial 850 mil palavras ditas ou escritas por Lula e Flávio em 2026, O GLOBO mostra como a prevalência de determinados termos no discurso delineia as táticas de cada um na busca por votos. No caso do bolsonarista, por exemplo, não é ao acaso a sucessão de referências ao petista, tampouco a presença constante do “PT” na retórica: as críticas contínuas à gestão que ele pretende substituir são um eixo central de sua campanha.

— Essa é uma forma de organizar a disputa em torno da avaliação do atual governo e de transformar uma insatisfação da população, esse sentimento de mudança, como um argumento no processo eleitoral — explica o estrategista Marcello Natale, especializado em marketing digital e sócio da agência BN3.

Desde janeiro, o senador citou o rival, proporcionalmente, 67 vezes mais do que o oposto: a cada cem mil palavras de Flávio, 474 são “Lula”, contra sete menções semelhantes pelo petista. O nome do adversário, assim, não aparece sequer entre os 300 mais utilizados pelo presidente no ano.

A distinção ficou clara durante a participação dos dois nas entrevistas do segundo turno na TV Globo, na semana passada. O senador lembrou nonimalmente Lula 16 vezes na sabatina, referindo-se ao rival de algum modo em todas as respostas — considerando a duração de 40 minutos, é como se o petista surgisse uma vez a cada 150 segundos, em média.

— Quem está depredando o Brasil é o Lula — retrucou, por exemplo, ao ser questionado sobre os ataques de bolsonaristas no 8 de Janeiro.

Lula, por sua vez, só mencionou Flávio uma única vez na entrevista, ao afirmar que a mãe do senador seria suplente de Márcio Canella (União), preso por suspeita de ligação com o crime organizado. Para o doutor em Semiótica Paolo Demuru, professor do programa de pós-graduação e comunicação da ESPM, a abordagem do petista pode ser bem vista pela população se vier acompanhada de um foco na apresentação de propostas, mas também apresenta riscos:

— Na verdade, faltou a palavra “Flávio” para o Lula na campanha. Identidade política se constrói também por oposição. Quando você deixa de construir bem o seu inimigo, você deixa de se diferenciar.

No sentido oposto, Natale avalia que, enquanto priorizava minar o rival, o bolsonarista tratou pouco de propostas concretas. Como mostrou o primeiro capítulo da série especial de reportagens, a Segurança Pública é o único tema programático em que Flávio supera Lula, que abordou mais assuntos como Educação, Saúde, Meio Ambiente, Emprego, Cultura e até Agronegócio.

— O discurso do Flávio é muito concentrado no pai, nos adversários e nos conflitos. Só que uma candidatura presidencial também precisa construir identidade própria, apresentar uma visão concreta de país. Falar o que fará se for eleito, por onde vai começar, quais são os projetos — diz Natale.

A retórica descrita pelo estrategista político é reforçada quando são considerados os dois termos em sequência mais frequentes nos discursos dos candidatos. A combinação recordista de Flávio é “presidente Bolsonaro”, repetida 133 vezes a cada cem mil palavras, enquanto a de Lula é “povo brasileiro”, que surge em 67 ocasiões no mesmo tipo de recorte.

Os chamados “bigramas” revelam ainda semelhanças: numa eleição que teve a soberania como tema presente, a sequência “Estados Unidos” aparece na segunda posição de ambos. O petista, no entanto, também adota um viés globalista, recorrendo regularmente a expressões como “América Latina” e “União Europeia”. A primeira é a quinta colocada na lista de Lula, e 66ª na de Flávio; a segunda surge no 15º e no 258º lugares, respectivamente.

“Segurança pública” também aparece com frequência similar no vocabulário de ambos — 29 vezes a cada cem mil palavras no caso do presidente, contra 32 vezes na mesma proporção do adversário. As divergências, mais uma vez, ficam ressaltadas em outros registros do mesmo universo: Lula aposta no termo “crime organizado”, e Flávio recorre a “Comando Vermelho” e “maioridade penal”.

A análise das duplas de palavras reforça a estratégia bolsonarista de buscar dilapidar a imagem do antagonista: o candidato do PL cita à exaustão expressões como “governo Lula”, “atual governo” e “resgatar Brasil”. Já o petista fala com frequência em “minerais críticos” (11º mais repetido) e “terras raras” (19º), termos que não figuram no léxico do rival. A tática empregada sobretudo no primeiro turno gerou críticas de aliados, que consideram o assunto de entendimento difícil para o eleitor.

Ao esmiuçar os “trigramas”, ou sequências de três palavras, a aposta de Flávio é em termos como “caminho da prosperidade”, “Brasil tem futuro” e “vem com fé”. O recorte, entretanto, também faz emergir um dos inimigos prediletos do bolsonarismo: “ Alexandre de Moraes ”, ministro do Supremo Tribunal Federal ( STF ) que condenou Jair pela trama golpista.

Lula, por outro lado, busca trazer à tona ações de seu governo, com menções ao programa Minha Casa Minha Vida e ao “fim da escala”, referência ao debate sobre a jornada 6x1, extinta pelo Senado entre o primeiro e o segundo turno da eleição.

— Acho que para o Lula falta muito a palavra futuro. Para quem está no governo, é natural falar do que se fez, das conquistas, mas uma eleição também é sobre o que o eleitor espera. Ele precisa enxergar uma perspectiva para continuar nesse barco — opina Marcello Natale.

Para a produção da série, foram reunidos todos os discursos oficiais dos dois políticos — como presidente, no caso de Lula, e no plenário do Senado, no caso de Flávio —, o conteúdo das principais entrevistas e as postagens da dupla nas redes sociais X e Instagram em 2026. São, ao todo, 2,5 mil registros entre 1º de janeiro e 16 de outubro, a sexta-feira da semana passada, que foram analisados com apoio da IA.

Só foram levados em conta vídeos em que o próprio candidato está falando. O trabalho de catalogação com uso de IA teve supervisão humana de repórteres e editores.

Para a transcrição das entrevistas, foi utilizado um sistema que distingue interlocutores de uma conversa pela voz treinada para identificar apenas o candidato. Foi empregada ainda uma taxa de semelhança conservadora para minimizar eventual erro do modelo, bem como atribuições incorretas.

(Colaboraram Beatriz Leão, Esther Gama, João Marcelo Barreto, Joziane Barbosa, Kaio Magalhães, Lívia Nani e Patrick Chaia; *estagiários sob supervisão de Luã Marinatto)

Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.