Flávio explorou o antipetismo, mas subestimou o antibolsonarismo

A surpreendente vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno pode ter sido o acontecimento que tornou possível sua derrota no segundo. O resultado produziu um choque que parte do eleitorado teve três semanas para assimilar. A hipótese pode

Por Admin ·

Flávio explorou o antipetismo, mas subestimou o antibolsonarismo

Em psicologia política, chama-se "priming" o processo pelo qual acontecimentos reativam lembranças e avaliações, aumentando seu peso nos julgamentos. Não é necessário que alguém mude de opinião para mudar de voto. Basta que razões anteriormente secundárias passem a ser consideradas decisivas. O eleitor pode continuar insatisfeito com Lula , preocupado com o custo de vida, mas, diante da possibilidade concreta de outro Bolsonaro na Presidência, passar a dar importância muito maior àquilo que recorda do governo anterior.

E havia muito a recordar. As mortes da pandemia, os ataques às instituições, a tentativa de golpe de Estado, a brutalidade da pauta ambiental, a agressividade, as afrontas, o desprezo por adversários e críticos. Tudo aquilo que, para muitos, havia transformado os anos Bolsonaro numa experiência política exaustiva e angustiante. A eleição deixou de ser apenas um julgamento sobre o governo Lula e passou a envolver também a pergunta que não se imaginava precisar fazer novamente: vamos viver tudo aquilo outra vez? Essas pessoas que mudaram de foco talvez representem numericamente uma parte da diferença de votos.

A reação pode ter ocorrido de duas maneiras. Entre lulistas até então desanimados ou convencidos da própria impotência, a perspectiva da derrota teria produzido uma mobilização defensiva extraordinária. Entre eleitores independentes, sem especial apreço pelo lulismo, pode ter reativado a rejeição ao bolsonarismo. Os primeiros encontraram razões urgentes para agir. Os segundos, razões suficientemente fortes para vetar Flávio.

A campanha bolsonarista, embalada pelo primeiro turno, talvez tenha ajudado involuntariamente nesse processo. O clima de vitória antecipada tornou-se predominante. Flávio anunciou que receberia a faixa presidencial das mãos do próprio pai, como se a sucessão fosse um assunto de família e o eleitorado já tivesse cumprido sua parte. Nos bastidores, aliados já disputavam ministérios, enquanto integrantes da futura equipe se apresentavam publicamente como se já estivessem no poder. Para os apoiadores, tudo isso podia parecer confiança na vitória. Para outros eleitores, porém, podia despertar lembranças da arrogância, da insensibilidade e da voracidade associadas aos bolsonaristas no poder.

Os debates forneceram outros estímulos. No primeiro, Flávio era um combo. Marçal nas provocações, ataques pessoais e tentativas de substituir a discussão política pelo espetáculo da hostilidade. Trump na projeção corporal intimidatória e humilhante do adversário. No intervalo, Nikolas e Pavanato davam o toque "zoeiro e moleque" no tratamento dos adversários. No segundo debate, Flávio chamou Lula de "nove dedos". Pediu desculpas, mas o episódio já havia exposto o estilo malcriado associado ao bolsonarismo.

Para parte dos espectadores, aqueles comportamentos poderiam ser reconhecidos como sinais familiares de uma maneira de fazer política que julgavam superada. Quanto mais seu comportamento evocava o repertório do pai, mais podia despertar as lembranças que sua campanha precisava neutralizar. O passado reaparecia como antecipação do que poderia voltar a acontecer.