Por O Globo — Rio de Janeiro
23/10/2026 10h12 Atualizado 23/10/2026 10h13
Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) autorizaram a quebra dos sigilos de pessoas e empresas relacionadas a eles — até o momento, porém, os dados bancários seguem privados, e a abertura efetiva é incerta. Após pedido das campanhas, o ministro André Mendonça, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disse que não cabe à Corte divulgar as informações e ressaltou que os candidatos podem fazê-lo por meios próprios.
Mendonça é relator da petição em que Lula diz autorizar a divulgação de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico.
Por meio de suas equipes jurídicas, Flávio e Lula assinaram uma petição em que os dois candidatos autorizam o levantamento imediato dos seus dados e dos seus familiares. No caso de Flávio, as autorizações alcançam todas as contas bancárias, no Brasil e no exterior, além de uma offshore ligada ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador.
— O desafio foi aceito. Eu acho que o que o povo brasileiro quer saber é se os candidatos que se colocam nessa reta final da campanha, em algum momento, se enriqueceram com a máquina pública — afirmou a advogada da campanha de Flávio, Maria Cláudia Bucchianeri. — Nós fizemos o nosso pedido e a campanha do presidente (Lula) topou. E nós topamos o pedido deles. Então, absolutamente tudo aquilo que foi pedido na petição do presidente Lula, a campanha de Flávio vai oferecer sem nenhuma reserva.
Antes, ao chegar na reunião no TSE, Bucchianeri disse que só entregará os documentos referentes à abertura dos sigilos bancário e telefônico após analisar o material apresentado por Lula. Já a campanha petista defendia que houvesse entrega simultânea de documentos.
Segundo a advogada, os documentos de Flávio já estão reunidos, mas a entrega só ocorrerá após se certificarem que Lula apresentou tudo que foi estabelecido como condicionante.
A equipe de Flávio escalou o ex-procurador da República e senador eleito Deltan Dallagnol (Novo-PR), que esteve ao lado de Bucchianeri nesta manhã no TSE para acompanhar o protocolo de documentos da campanha adversária.
Deltan afirmou que a campanha de Flávio cumpriria até meia-noite os compromissos assumidos para a abertura dos sigilos bancário e telefônico dos presidenciáveis.
— Serão cumpridos integralmente pela campanha de Flávio Bolsonaro, até meia-noite, friso, os compromissos vão ser cumpridos, tudo até meia-noite. Agora, nós esperamos que o Lula não quebre mais uma vez sua promessa — afirmou.
Deltan também acusou Lula de não entregar os documentos que a equipe de Flávio esperava analisar ainda nesta quinta-feira. A campanha do petista, porém, não havia anunciado que disponibilizaria os registros, mas que formalizaria sua posição sobre a abertura dos sigilos.
O senador Camilo Santana (PT-CE), coordenador da campanha de Lula, também foi ao TSE para protocolar documento no qual a candidatura responde que aceita as exigências de Flávio.
— É preciso que todos os sigilos sejam levantados hoje. Todas as autorizações sejam feitas hoje para que o povo brasileiro saiba quem é ladrao e quem não é — afirma Camilo Santana.
A disputa em torno dos sigilos começou após Lula desafiar Flávio, durante o debate da Band, no último domingo, a divulgar dados bancários e telefônicos para esclarecer suspeitas de corrupção.
— Eu vou fazer uma proposta para você para amanhã abrirmos a nossa conta bancária e o nosso sigilo bancário para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão nesse país. Eu abro da minha família e você abre da sua. Nós entregamos para o presidente da Suprema Corte e do Tribunal Superior Eleitoral o seu documento e o meu para avaliarem antes das eleições, para que o povo saiba quem é corrupto e ladrão, porque, senão, eles vão ser enganados de novo — disse Lula na ocasião.
Pelo documento entregue pela campanha de Lula ao TSE, a proposta é que Flávio abra o seus sigilos e faça o mesmo em relação ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, sua mãe, Rogéria Bolsonaro, os irmãos Carlos, Eduardo e Jair Renan, além de sua esposa, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro.
A petição também inclui pessoas jurídicas das quais os candidatos sejam sócios ou administradores, além daquelas em cujas contas bancárias tenham poderes de gerenciamento. Uma anotação feita à mão no documento apresentado pelas campanhas sobre o acordo estabelece que a "autorização não significa reconhecimento de titularidade ou propriedade, direta ou indireta, de contas ou empresas de terceiros por nenhuma das parte".
Em relação a Flávio, os advogados mencionam quatro empresas brasileiras: Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, All In One Corretora de Seguros, Bravo Grafeno Tecnologia e Inovação e Bolsonaro Digital.
O documento cita ainda a Alcazar Holdings, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. Segundo a defesa de Lula, reportagens apontaram que Flávio teria figurado como "usuário máster" de uma conta bancária da companhia, associada ao advogado Willer Tomaz. A informação é atribuída pelos advogados a apurações divulgadas pela imprensa.
Na quarta-feira, o senador respondeu com uma lista de 19 exigências, protocolada no TSE, para aceitar a proposta. Entre os pedidos estão informações bancárias e fiscais de empresas ligadas aos filhos de Lula, registros de encontros do presidente com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, dados sobre a lobista Roberta Luchsinger e despesas do cartão corporativo da Presidência. Flávio também solicitou informações sobre voos da Força Aérea Brasileira (FAB), visitas aos palácios presidenciais e reuniões de pessoas próximas ao governo com autoridades.
Inicialmente, a campanha petista havia solicitado as informações referentes aos últimos 8 anos. Pela proposta da equipe jurídica de Flávio, entretanto, o período de abrangência deve ser maior, de 20 anos, o que inclui o segundo mandato de Lula na Presidência, entre 2006 e 2010. O documento assinado pelos dois lados não prevê o prazo.
Veja os 19 pedidos de informações apresentados por Flávio:
Empresas e pessoas ligadas à família de Lula
• Empresas nacionais e sociedades offshore de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha - o senador pede a quebra dos sigilos bancário, desde 2003, do filho do presidente, de sua mulher, Renata de Abreu Moreira, e de empresas nacionais ligadas a ele;
• Empresas de Sandro Luís e Marcos Cláudio Lula da Silva, também filhos de Lula
• Empresas de Fernando Bittar, sócio de Lulinha;
• Empresas dos demais filhos de Lula como Lurian Cordeiro Lula da Silva, Marcos Cláudio Lula da Silva, Sandro Luís Lula da Silva e Luís Cláudio Lula da Silva;
• Quebra de sigilo do Instituto Lula e de Paulo Okamotto que foi presidente do institudo por anos.
Relações do governo com Daniel Vorcaro
• Registros de visitas a Vorcaro durante sua custódia na Polícia Federal
• Planos de voo e passageiros de aeronave atribuída a Vorcaro na semana de sua prisão, em novembro de 2025;
• Relação de participantes e todos os registros do encontro entre o presidente e o banqueiro, realizado em 4 de dezembro de 2024;
• Entradas de Vorcaro e seu intermediários nos palácios do Planalto e Alvorada;
• Registros de entrada de Guido Mantega e Augusto Lima no Planalto;
• Sigilos de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT.
Roberta Luchsinger e o caso do INSS
• Visitas de Roberta Luchsinger ao Planalto e ao Alvorada;
• Voos da FAB com Roberta Luchsinger
• Reuniões da lobista em órgãos federais;
• Sigilos de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente Lula;
• Sigilos de Frei Chico, irmão de Lula, e do Sindnapi, sindicato supostamente envolvido no escândalo do INSS;
Despesas custeadas com dinheiro público
• Gastos do cartão corporativo da Presidência desde janeiro de 2023;
• Agenda de Janja, visitas dos filhos de Lula, helicópteros e gastos do Alvorada.
Veja os pedidos de informação apresentados pela campanha de Lula:
Abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dos últimos 8 anos das seguintes pessoas:
4. Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, esposa;
Abertura dos sigilos de todas as empresas das quais Flávio seja sócio, administrador ou responsável financeiro por contas bancárias, mesmo sem participação societária.
1. Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia — escritório de advocacia do senador.
2. All In One Corretora de Seguros Ltda. — empresa do setor de seguros.
3. Bravo Grafeno Tecnologia e Inovação Ltda. — empresa de tecnologia e inovação.
4. Bolsonaro Digital Ltda. — empresa ligada ao senador.
5. Alcazar Holdings — offshore registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, controlada pelo advogado Willer Tomaz. Segundo investigação da Polícia Federal, Flávio figurava como “usuário master” de uma conta bancária da empresa, com poderes de movimentação até maio de 2025.
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