O desafiante declarara na noite da apuração que não poderia considerar legítima a sua derrota por causa da extensão em duas horas do horário de votação, determinada monocraticamente pelo ministro Cristiano Zanin , do Supremo Tribunal Federal, em atendimento a petição do PT .
Zanin, pela imprudência de interferir na undécima hora num ritual sagrado da democracia, e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques , pela omissão diante de solicitações mais tempestivas de estender a votação, foram corresponsáveis por essa lambança.
Vale lembrar que a chapa de Flávio também pediu ao TSE a prorrogação da votação em redutos da direita, sob alegação de transtornos com o mau tempo. Ao estender a decisão para todo o país, embora sem se preocupar com operacionalidade e impacto, Zanin satisfez desejos de PT e PL.
O choro de perdedor poderia até fazer algum sentido se a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tivesse ficado por um fio. Não faz nenhum sentido quando 4,4 milhões de sufrágios, ou 3,6% dos votantes, distanciaram o vencedor do perdedor.
Antes de propagar teorias conspiratórias para deslegitimar o processo eleitoral, Flávio Bolsonaro poderia ter verificado quantas pessoas no país registraram o voto após as 17h, final do horário regulamentar, até as 19h, limite ordenado pela decisão judicial estapafúrdia. Teria constatado um resíduo inferior a 35 mil , incapaz de alterar o resultado diante do total de 124 milhões de votos.
A democracia e a paz social se beneficiam da rápida revisão da disposição do senador fluminense para a rebeldia. O passo seguinte deveria ser o reconhecimento público do resultado. Não é fácil admitir a derrota e cumprimentar o adversário, mas essa atitude civiliza a política e reforça no lado derrotado a condição para competir de novo no pleito seguinte.
A regra tácita da boa convivência também recomenda ao grupo vitorioso que não se ponha a perseguir a oposição. É descabida, a propósito, a notícia de que o ministro Alexandre de Moraes mandou recolher o passaporte de Flávio por declarações sugerindo que ele deixe o Brasil feitas pelo irmão exilado Eduardo.
As agendas da depreciação do processo eleitoral e da vingança deveriam ser abandonadas.