A tecnologia utiliza partículas microscópicas de óxido de ferro revestidas com polianilina, um material que favorece a interação com células do sistema imunológico. A proposta é estimular as defesas naturais do organismo para dificultar o desenvolvimento dos tumores.
Além da redução do volume tumoral, os pesquisadores observaram alterações nas células de defesa dos animais tratados. Essas mudanças ajudam a compreender como a tecnologia interfere no ambiente em que o câncer se desenvolve e pode favorecer sua progressão.
O estudo foi iniciado em maio de 2025, e publicado na revista científica Cancer Nanotechnology . Nesta semana, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) confirmou a fase pré-clínica da pesquisa.
Uma das principais descobertas foi o aumento das chamadas células natural killers (NK), responsáveis por identificar e destruir células alteradas, incluindo as cancerígenas. Nos animais que receberam as nanopartículas, os pesquisadores encontraram maior presença dessas células no interior dos tumores.
O experimento também identificou mudanças nos macrófagos, células imunológicas que podem apresentar comportamentos diferentes diante do câncer. Algumas favorecem a progressão tumoral, enquanto outras participam da resposta de defesa do organismo.
Com a aplicação das nanopartículas, houve aumento de macrófagos com características antitumorais e redução de determinados neutrófilos associados ao crescimento do câncer.
Os pesquisadores identificaram ainda uma diminuição da molécula MCP-1, relacionada ao recrutamento de células que podem favorecer o desenvolvimento tumoral. Essas alterações indicam que a tecnologia conseguiu modificar parte da resposta imunológica no ambiente do tumor.
Outro resultado relevante apareceu na análise da disseminação da doença. Os camundongos que receberam as nanopartículas apresentaram menos focos de células tumorais nos pulmões do que aqueles que não receberam a substância.
Esse processo, conhecido como metástase, acontece quando células cancerígenas deixam o tumor original e alcançam outras partes do organismo. Sua ocorrência é uma das principais dificuldades no tratamento de diversos tipos de câncer.
Os cientistas também examinaram o fígado dos animais, mas não encontraram incidência significativa de metástases nesse órgão em nenhum dos grupos. Assim, o resultado sobre a menor disseminação ficou concentrado na análise pulmonar.
Apesar dos resultados, ainda existe um caminho científico até que as nanopartículas possam ser utilizadas em pessoas. No experimento, elas foram administradas logo após a introdução das células tumorais nos camundongos, acompanhados durante 21 dias .
Isso significa que a pesquisa avaliou a interferência das partículas no desenvolvimento inicial dos tumores, e não a capacidade de eliminar um câncer já estabelecido em pacientes.
Segundo a Fiocruz, novas etapas precisam investigar possíveis efeitos adversos , dosagens adequadas e a forma como o organismo absorve e elimina as partículas. Somente depois dessas avaliações será possível considerar os testes clínicos em seres humanos.
Por enquanto, a pesquisa brasileira com nanopartículas contra câncer ainda não tem prazo confirmado para chegar aos pacientes. A tecnologia permanece experimental e não substitui os tratamentos atualmente utilizados contra o câncer de mama.