Todos os anos ela vai ao maior cemitério da América Latina —na Vila Formosa, zona leste de São Paulo— para distribuir palavras de conforto a quem perdeu entes queridos. Nos últimos, e neste em particular, ela tem notado um aumento na quantidade de voluntários que fazem o trabalho de divulgação da Bíblia e acolhimento de pessoas em luto.
"Eu venho aqui falar para as pessoas não desanimarem, para elas terem força para levantar da cama", diz Esmeraldina, vestindo uma camiseta da Legião de Maria , calça jeans e um gorro branco de lã. Sua irmã, seu cunhado e seu sobrinho estão enterrados ali.
À maior parte dos visitantes, ela apenas entrega o panfleto com um sorriso no rosto. Quando vê disposição para conversa, fala do que está escrito no papel: trecho do capítulo 21 do livro bíblico Apocalipse —que versa sobre o fim da morte, do luto e da dor— e uma oração pelos falecidos.
A missionária é uma das centenas de voluntários e trabalhadores que foram ao cemitério da Vila Formosa para oferecer acolhimento aos visitantes. Ao menos dez tendas armadas para o feriado de Finados do local dividiam-se entre serviços de divulgação religiosa e de planos funerários.
Os pedestres que usavam o portão principal passavam por cinco pontos de distribuição de panfletos até chegarem à entrada do velório. Eram quatro entregando mensagens de assistência religiosa e uma banca da concessionária Consolare, que administra o local.
Nas quadras de covas rasas, três voluntárias do grupo de evangelização da Igreja Universal caminhavam entre as lápides no solo e abordavam famílias que prestavam homenagens aos entes queridos. Elas pediam licença, perguntavam se poderiam orar com os enlutados desconhecidos e entregavam panfletos com o Salmo 23.
"O mais importante é que a gente não está vindo falar de religião ou de igreja, estamos vindo entregar a palavra de Deus", disse a voluntária Clécia.
Um coral com 25 integrantes da LBV (Legião da Boa Vontade) cantava músicas gospel em frente ao velório pela manhã. À tarde, a tenda foi substituída pela Van do Projeto Help, uma iniciativa de acolhimento laico com foco em pessoas com depressão.
A principal atividade oferecida pelo grupo é o "canto do desabafo", mesas sob uma tenda em que voluntários ficaram à disposição para ouvir as angústias dos visitantes que sentissem necessidade de compartilhar seus lutos.
No hall do prédio do velório, outros dois voluntários estavam vendados ao lado de uma placa com a frase: "Está difícil superar a dor da perda? Me abrace". Outros integrantes do projeto circulam pelas quadras e abordam visitantes para dar apoio emocional a quem demonstrar interesse.
O projeto começou após um grupo de quatro amigos que tiveram depressão passaram a distribuir cartas com mensagens motivacionais, compartilhando histórias de superação das suas angústias.
As cartas eram coladas em pontes com alto índice de suicídio. Eles passaram a receber dezenas de telefonemas aos fins de semana e passaram a ser convidados para dar palestras em escolas e hospitais.
"Não fazemos nenhum tipo de oração, nosso projeto é totalmente laico", explica o coordenador do Help, Felipe Santos, 40, que é pastor da Universal. "A gente vem para fazer uma escuta qualificada e ajudar a pessoa nesse momento."
O Help fez atividades de acolhimento em 35 cemitérios no estado de São Paulo nesta segunda-feira. O lema da iniciativa é "não te julgo, te ajudo".
Visitantes do Vila Formosa também encontravam anúncios de jazigos promocionais e planos funerários nos panfletos e balcões de serviço. Ficavam sabendo que, ao contratar os serviços da empresa do grupo ao qual a Consolare pertence, têm acesso a um clube de benefícios que dá direito a descontos em clínicas de diagnóstico, consultas médicas e farmácias, entre outros.
A Atac (Associação de Trabalhadores Autônomos nos Cemitérios da Prefeitura de São Paulo) também montou uma banca para atender potenciais clientes interessados na compra de lápides ou serviços de manutenção e jardinagem.