Fim da escala 6x1 pode elevar informalidade no trabalho, mas sem hecatombe, dizem especialistas

O fim da escala 6x1 pode provocar um aumento marginal da informalidade , sobretudo nas relações de trabalho de pequenas empresas, mas não uma hecatombe no mercado de trabalho , avaliam especialistas ouvidos pela Folha .

Por Admin ·

Fim da escala 6x1 pode elevar informalidade no trabalho, mas sem hecatombe, dizem especialistas

Gabriel Ulyssea, da University College London, e Sergio Firpo, do Insper, preveem alguma alta; Marilane Teixeira, do Cesit/Unicamp, diz que essa hipótese precisa ser demonstrada.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de informalidade foi de 37,4% da população ocupada (38,6 milhões de trabalhadores) no segundo trimestre de 2026, o menor patamar para um segundo trimestre desde 2020.

Ela era maior em estados com mercado de trabalho mais fragilizado —as maiores taxas de informais ficaram com Maranhão (56,9%), Pará (55,9%) e Amazonas (51,7%) e as menores, com Santa Catarina (25,4%), Distrito Federal (28,7%) e Mato Grosso do Sul (29,2%).

Para tentar evitar uma alta da informalidade após a redução da jornada de trabalho , o governo do presidente Lula (PT) deve enviar ao Congresso um projeto para perdoar dívidas de empresas do setor de eventos enquadradas no Simples Nacional, nos moldes do que fez com os MEIs (microempreendedores individuais).

Empresas de pequeno porte também poderão acessar uma linha de crédito subsidiada do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), prevista para os próximos dias. Com o fim da 6x1, os empregados formais passam a ter duas folgas semanais remuneradas.

Os especialistas reforçam que a maior parte da força de trabalho já está na escala 5x2 e que a redução da jornada de 44 para 40 horas será escalonada, o que tende a amortecer o impacto.

O cenário mais provável é uma alta pontual da informalidade, com trabalhadores fazendo algumas horas "por fora", repasse de custos aos preços e redução de margens, mas não demissões em massa, já que o desemprego segue baixo. "O fim da 6x1, acredito, é um passo importante na direção certa. A redução vai afetar mais alguns setores do que outros, mas não vai ser uma hecatombe de jeito nenhum", afirma Ulyssea.

Para quem ganha perto do mínimo não há como reduzir salário, e esses trabalhadores ficam mais caros. "Uma possibilidade é contratar ‘por fora’." Demitir, diz, não deve ser o principal ajuste, com desemprego baixíssimo.

Ele lembra que a PEC das Domésticas, mudança mais drástica , também gerou previsões de "fim do mundo", e que "há muito terrorismo de alguns setores". Para amenizar o impacto, defende ampliar o banco de horas e facilitar o contrato por tempo parcial.

Firpo também vê alta da informalidade na margem do emprego sem carteira. Em pequenas empresas, onde a fiscalização é menos provável, o empregador pode substituir formal por informal, e o jovem da periferia, no Nordeste e no Norte, "vai ficar mais tempo no emprego sem carteira, até conseguir entrar no com carteira, se é que essa transição vai acontecer".

Teixeira afirma que a redução da jornada exige adaptações , mais difíceis para pequenos negócios. "Reconhecer essas dificuldades, contudo, não permite concluir que haverá, necessariamente, aumento da informalidade. Essa hipótese precisa ser demonstrada."

Segundo pesquisa do Sebrae, a parcela que esperava impacto negativo caiu de 32%, em 2024, para 27%, em 2026, e 51% não esperavam impacto. Entre as estratégias, 28,9% citam aumentar preços e 24%, reorganizar turnos.