Hotéis, bares e restaurantes estão entre as atividades que mais usam a escala que termina em dezembro
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Rio de Janeiro O fim da escala 6x1 (seis dias de trabalho e um de folga por semana) faz o turismo redesenhar operações às vésperas da temporada de verão , que costuma movimentar o setor. A nova legislação entra em vigor em meados de dezembro —mês inicial da estação de calor.
Parte dos hotéis, bares e restaurantes cogita contratar funcionários para compensar os impactos da medida. Isso tende a aumentar os custos para as empresas e pode gerar repasses para o consumidor, segundo representantes do setor.
Os empresários, contudo, avaliam que o impacto pode ser atenuado por mudanças em processos internos de gestão dos negócios.
"Nosso setor não é robotizado. Depende de mão de obra intensiva", afirma Alfredo Lopes, presidente do HotéisRIO (Sindicato de Hotéis e Meios de Hospedagem do Município do Rio de Janeiro ).
"A gente está refazendo as escalas, montando banco de horas, para poder fazer frente à nova legislação."
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego analisados pelo economista Bruno Imaizumi , da consultoria 4intelligence, sinalizam que a 6x1 é mais comum em atividades ligadas ao turismo do que em outros setores da economia brasileira.
Ao final de 2025, a escala alcançava cerca de 50% dos empregos formais em transporte aéreo (53,2%), alojamento (52%) e alimentação (47,1%).
Consultada sobre o fim da 6x1, a Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) disse que não iria se manifestar.
No caso dos hotéis, a mudança pode gerar uma simplificação de operações, avalia Lopes.
Segundo ele, a substituição de refeições à la carte por bufês é uma das medidas estudadas para diminuir a demanda por garçons.
Outra eventual ação é suspender a arrumação de quartos aos domingos, exceto em caso de entrada de hóspedes.
A simplificação dos processos, contudo, tende a ser mais difícil ou até inviável para hotéis de luxo. "Isso tem que ser estudado de acordo com a região, de acordo com o valor da diária. Não é simples", diz Lopes.
Além do fim da escala de seis dias de trabalho, as mudanças aprovadas pelo Congresso determinam a redução da jornada máxima de trabalho, sem corte salarial.
Primeiro, o limite diminuirá de 44 para 42 horas semanais. Em dezembro de 2027, o número cairá para 40 horas por semana. Há possibilidade de que algumas atividades continuem com regimes diferenciados a partir de negociações coletivas.
O resort Le Canton, em Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro (a 120 km da capital), implementou testes antes da aprovação do texto no Congresso, segundo a CEO Mônica Paixão.
O planejamento incluiu a retirada de equipes da escala 6x1 e uso de modelos como 5x2 (cinco dias de trabalho e dois de folga por semana) e 12x36 (12 horas de trabalho seguidas por 36 horas de descanso).
Conforme a CEO, o resort aposta na tecnologia para automatizar processos considerados mais burocráticos, como check-in e check-out, e liberar a mão de obra para outras tarefas.
Inicialmente, Paixão projetava custo adicional de 20% para a folha de pagamento a partir do fim da 6x1, mas afirma que o impacto deve chegar a no máximo 8%.
"Não estou muito preocupada como já estive no passado. É uma readaptação que faz parte", diz.
"Fico mais preocupada com as pousadas menores, porque aí o impacto pode ser mais forte. Nós temos uma operação grande, temos quase 500 funcionários, e conseguimos absorver isso de forma menos dispendiosa."
Bares e restaurantes também fazem cálculos. O fim da 6x1 tem efeito relevante, mas varia de negócio para negócio, aponta Fernando Blower, presidente executivo da ANR (Associação Nacional de Restaurantes) e presidente do SindRio (Sindicato de Bares e Restaurantes do Município do Rio de Janeiro).
Na visão dele, a alta dos custos associada a possíveis contratações tende a gerar repasses para o consumidor.
"Nosso setor tem operações muito distintas, e cada uma terá as suas soluções. Vão passar, eventualmente, por redução de horários ou dias de funcionamento ou contratação de pessoas e remanejamento de escalas", diz.
"Em vez de ter todo mundo no mesmo horário, no mesmo turno, como se fosse uma fábrica, você vai montando as escalas conforme as demandas", acrescenta.
O empresário Antonio Rodrigues, dono da rede de bares Belmonte, uma das mais conhecidas do Rio, prevê "alguns entraves por aqui e por ali", mas afirma que se adequar ao fim da 6x1 será fácil para quem tem boa gestão dos negócios.
"Isso não tem volta. A gente tem que se adaptar. Se tiver que contratar, vou contratar. E vou tentar equacionar as escalas, fazer banco de hora, para tentar ter o mínimo de impacto possível. Vida que segue."
Conforme Rodrigues, o Belmonte tem 30 operações no Rio e em São Paulo e emprega em torno de 1.100 trabalhadores. "Não existe funcionário ruim, existe gestor ruim. Quando o cara não dá em um lugar, você tenta em outro."
O empresário é conhecido no Rio por comprar e reestruturar bares em dificuldades. Ele desembarcou na capital fluminense aos 16 anos, após deixar o Ceará .
"Vendi uma ovelha que um tio me deu, comprei uma passagem e vim para o Rio de Janeiro fazer faxina e lavar prato."
Calculadora compara jornadas de trabalho e mostra efeito do fim da escala 6x1; simule
Tudo o que você precisa saber sobre o fim da escala 6x1
Pequenos comércios planejam contratar, recorrer a parentes e mudar escala de folgas com o fim da 6x1
Fim da 6x1 eleva produtividade, e regime por hora pode ser complemento, diz CEO de rede de supermercados