O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) decidiu pela manutenção da taxa de juros nos Estados Unidos na faixa entre 3,75% e 4%, apesar de números mais desafiadores da inflação. A decisão não foi unânime: foram dez votos a favor da estabilidade e dois dissidentes.
A decisão corrobora as expectativas do mercado financeiro . Pouco antes da decisão, a plataforma FedWatch estimava em 90% as chances pelo BC americano seguir com o atual nível.
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O movimento acontece mesmo após o salto no custo de vida americano. Em setembro, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 0,6% no mês, acumulando alta em doze meses de 3,7% . O número é bem acima da meta estabelecida pelo Fed de 2%, não alcançada desde 2021.
Os preços dos financiamentos imobiliários, por exemplo, saltaram à níveis expressivos diante da volatilidade dos juros longos do país. Foi diante desse cenário que o Fed aumentou o juro do país em setembro , pela primeira vez em três anos.
No comunicado, o Fed voltou a afirmar que a economia americana se expande em ritmo forte e que a inflação permanece elevada, e que a incerteza segue elevada diante "dos acontecimentos geopolíticos". "O acúmulo de mais informações ajudará o Comitê a determinar a postura de política monetária adequada para assegurar que a inflação retorne, em tempo hábil, à meta de 2%", diz trecho do comunicado.
Após a pandemia, os Estados Unidos passam por dificuldades em ver a inflação na meta sem causar desequilíbrio no mercado de trabalho. Os gastos com inteligência artificial e o avanço do preço do petróleo por conta da Guerra dos EUA com o Irã voltaram a pressionar o custo de vida americano. Ontem, o barril do óleo encerrou aos US$ 114, no maior valor desde maio. Nos EUA, o galão (3,8 litros) do óleo diesel chegou a custar US$ 6,50, nível recorde para o combustível.
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Ainda que estável, o banco central americano parece ter iniciado um ciclo de alta gradual. A avaliação é da consultoria inglesa Capital Economics.
De acordo com relatório, pelo menos dois diretores do comitê votante afirmaram nas últimas semanas que o Fed deve realizar ajustes graduais na taxa para devolver a inflação à meta. A manutenção da taxa hoje, dizem os analistas, pode ser explicada por um relatório de empregos mais fraco do que o esperado no mês passado, mas “uma alta em dezembro já está totalmente precificada”, afirmam.
O Fed possui um duplo mandato: estabelecer o menor nível de desemprego possível mirando uma meta de 2% de inflação anual.
A avaliação é semelhante a do banco americano Citi, que vê uma nova alta na taxa em dezembro, mas manutenção nesta quarta-feira. Para o banco, “a avaliação de (Kevin) Warsh (presidente do Fed) sobre a inflação deve continuar hawkish”, combativa à alta da inflação.
“Warsh provavelmente repetirá que o comitê agirá para apertar a política monetária até que a inflação esteja caindo a um ritmo suficiente. Ele também poderá repetir que o comitê retirou apenas uma “dose” da acomodação monetária, o que parece sugerir que novas altas da taxa básica ainda estão por vir”, preveem os analistas do Citi.
Kevin Warsh foi escolhido como novo mandatário do Fed em maio pelo presidente americano Donald Trump. Na última reunião, Trump criticou o aumento do juro e afirmou que a taxa dos EUA deveria estar em 1%.
A decisão sobre o juro americano tem impacto global. Isso porque a taxa calibra o valor do dólar e, consequentemente, impacta moedas e investimentos em todo mundo.
Quando a taxa americana está alta, parte volumosa do capital global caminha aos Estados Unidos, já que o país é considerado um dos mais seguros do mundo para aplicações. Os títulos do Tesouro americano tendem a ficar mais atraentes, drenando os investimentos espalhados em todo o mundo. Com menos dólares nos países, o preço da moeda aumenta.
A perspectiva de juros americanos mais altos também aumenta a pressão sobre o Brasil, já que a decisão tende a elevar o custo do capital global. Nesse cenário, a disciplina fiscal ganha importância para manter o país atraente aos investidores.
A avaliação é do ex-diretor do Banco Central e sócio da Panamby Capital, Reinaldo Le Grazie. Em entrevista sobre o choque no mercado financeiro local na última segunda-feira, Le Grazie afirmou que a escassez de capital global diante da alta no juro das principais economias e da concorrência pelas empresas de inteligência artificial forçam o país a realizar um ajuste na condução dos gastos do governo:
— Nós estamos num cenário de juro para cima e inflação para cima em todo o mundo. Diferentemente de cinco anos atrás, quando havia muito capital disponível, e agora não tem. O capital está mais caro para o mundo inteiro. Há mais procura por capital do que oferta, e as taxas estão subindo, inclusive nos EUA e na Europa. As empresas de inteligência artificial estão emitindo fortunas, captando dinheiro, ajudando a tomar esse capital mais escasso e pagando um juro mais alto. Isso encarece para todos. O investidor procura uma relação de risco-retorno melhor e, para o Brasil, fica ainda mais caro. Por isso é preciso se posicionar frente a esse cenário e fazer uma gestão fiscal mais eficiente — ele disse.