A campanha do presidente Donald Trump para reformular o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, e submeter a política de juros à sua vontade ganhou agora uma blindagem considerável depois que os democratas conquistaram o controle do Senado dos EUA nesta terça-feira.
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A mudança de comando no Senado, uma reviravolta política de grandes proporções que antes parecia improvável, na prática impede a Casa Branca de aprovar a nomeação de aliados para integrar a diretoria do Fed, composto por sete membros. Com isso, o governo perde seu instrumento mais direto para exercer maior controle sobre o banco central dos Estados Unidos .
Sob a maioria democrata, a senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, provavelmente assumirá a presidência da Comissão de Assuntos Bancários do Senado. Isso colocará o colegiado responsável pela supervisão do Fed sob o comando de uma parlamentar que deverá barrar as indicações de nomes considerados excessivamente suscetíveis às pressões da Casa Branca.
Embora há muito manifeste o apoio a uma fiscalização e uma responsabilização mais rigorosas das instituições financeiras, especialmente no que diz respeito à regulamentação de Wall Street, Warren tem defendido a autonomia do banco central para definir as taxas de juros sem interferência política.
— O que o Fed ganha com um Senado democrata é uma barreira de proteção mais forte — avalia Mark Spindel, gestor de investimentos da Potomac River Capital e coautor de um livro sobre a história da independência do Fed. — Isso proporciona ao Fed uma defesa muito mais enfática contra as pressões presidenciais.
Irritação com custo de vida ressalta importância do Fed
O resultado também poderá dar ao Fed e a seu presidente, Kevin Warsh, maior liberdade para combater a inflação por meio de taxas de juros mais elevadas.
— O resultado das eleições significa que o presidente (Trump) tem menos poder de influência — sobre o Congresso, sobre o país e sobre o Fed — afirmou Daleep Singh, economista-chefe global da PGIM e ex-alto funcionário do governo Biden, em entrevista à Bloomberg Television. — Os eleitores estão irritados com o aumento do custo de vida. Quando se juntam essas duas questões, o Fed está em uma posição singular para fazer algo a respeito.
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A conquista da maioria democrata representa uma mudança institucional decisiva, retirando de Trump o apoio de um Senado controlado pelos republicanos, após quase dois anos de pressão sem precedentes do Poder Executivo sobre o banco central.
Além das repetidas exigências públicas por cortes acentuados nas taxas de juros, o governo também testou os limites de sua autoridade. O presidente manifestou apoio a uma investigação do Departamento de Justiça contra o ex-presidente do Fed, Jerome Powell, que foi classificada como abuso de poder por um juiz federal e por parlamentares de diferentes partidos.
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Trump também continua sua campanha para afastar a diretora do Fed Lisa Cook , indicada pelo ex-presidente Joe Biden. O presidente determinou a realização de uma audiência na Casa Branca para examinar a alegação, ainda não comprovada, de que Cook teria cometido fraude em hipotecas imobiliárias. Um alto funcionário da Casa Branca afirmou na semana passada que a audiência provavelmente ocorrerá em dezembro.
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Trump deixou claro que espera, em algum momento, nomear a maioria dos sete integrantes da diretoria do Fed, colegiado que decide a taxa básica de juros do país. O governo também avaliou alternativas para ampliar seu controle sobre os bancos regionais do Federal Reserve. Críticos de Trump destacaram que uma maioria no colegiado, sediado em Washington, teria poderes para demitir os presidentes das unidades regionais.
Ainda assim, mesmo com os republicanos no comando, o governo enfrentou resistência de integrantes da Comissão de Assuntos Bancários do Senado, preocupados com os excessos do Poder Executivo. O caso mais significativo ocorreu quando o senador republicano Thom Tillis impediu o avanço da indicação de Warsh para a presidência do Fed até que o Departamento de Justiça desistisse da investigação contra Powell.
— O Senado sempre representa uma limitação para a Casa Branca — afirmou Vincent Reinhart, economista-chefe da BNY Investments e ex-alto funcionário do Fed. — O fato de ter havido resistência à maneira como lidaram com Powell mostra o quanto a situação era delicada. As eleições de meio de mandato tornarão isso ainda mais difícil.
Atualmente, não há vagas abertas na diretoria do Fed. Powell contrariou a tradição e impediu que Trump tivesse a oportunidade de indicar um substituto ao permanecer na diretoria mesmo após o término de seu mandato como presidente, em maio. Seu mandato como integrante do colegiado vai até janeiro de 2028.
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O mandato de Philip Jefferson como vice-presidente termina em setembro de 2027. No entanto, se ele permanecer no colegiado após essa data, Trump terá de escolher alguém que já faça parte da diretoria do Fed para ocupar o cargo de liderança.
Warren recusou-se a comentar a reportagem. Em uma declaração por escrito, divulgada antes das eleições de terça-feira, uma porta-voz da Casa Branca afirmou que Trump estava concentrado na campanha para manter as maiorias republicanas no Congresso, a fim de proteger sua agenda econômica.
Até o início da manhã de quarta-feira, os democratas haviam garantido pelo menos 54 cadeiras no Senado, restando apenas os resultados do Alasca e do Mississippi. Atualmente, os democratas ocupam 47 cadeiras no Senado, incluindo dois senadores independentes que integram a bancada do partido.
Essa mudança no cenário político restringiria drasticamente a capacidade de Trump de repetir as estratégias utilizadas no ano passado. Quando a diretora do Fed Adriana Kugler renunciou inesperadamente, em agosto de 2025, o governo agiu em ritmo acelerado, em conjunto com os senadores republicanos, para confirmar Stephen Miran, um dos principais assessores econômicos da Casa Branca.
Depois de assumir o cargo, Miran votou contra a posição majoritária nas seis reuniões de política monetária das quais participou, sempre defendendo cortes mais acentuados nas taxas de juros, até ser substituído por Warsh no colegiado, em maio.
Uma maioria democrata retiraria da Casa Branca qualquer vantagem caso algum dos atuais integrantes do congeliado renunciasse ou caso o governo conseguisse abrir uma vaga na diretoria.
Por lei, um presidente só pode destituir um integrante do colegiado do Fed por justa causa — critério que, há muito tempo, é interpretado por especialistas em direito como exigindo provas de conduta gravemente irregular ou negligência no cumprimento dos deveres, e não simples divergências em relação à política monetária. Trump é o primeiro presidente a tentar afastar um integrante em exercício do conselho.
Se surgirem vagas na diretoria do Fed — em decorrência de uma decisão judicial ou por outros motivos —, uma Comissão de Assuntos Bancários do Senado liderada pelos democratas poderia simplesmente se recusar a dar andamento à indicação de um substituto, mantendo a cadeira vaga em vez de permitir que Trump nomeasse um aliado.
Alguns especialistas que acompanham o Fed argumentam que a mudança de maioria no Senado oferece apenas uma proteção limitada contra um Poder Executivo disposto a exercer pressão agressiva. Os democratas não podem impedir que a Casa Branca utilize táticas de pressão — incluindo ameaças de destituição — para intimidar os responsáveis pela política monetária que já ocupam seus cargos.
Além disso, se o governo conseguir afastar dirigentes dos quais discorda e simplesmente deixar essas vagas sem preenchimento, ainda assim poderá alterar o equilíbrio de poder dentro do Fed.
Uma maioria democrata no Senado representa “uma redução marginal da ameaça à independência do Fed, mas não me parece uma mudança radical”, afirmou Michael Strain, diretor de estudos de política econômica do conservador American Enterprise Institute.
—A ameaça maior é transformar o sistema de justiça criminal em uma arma para influenciar as decisões de política monetária — acrescentou.
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