Sem uma reversão crível desse padrão, o crescimento potencial do PIB continuará limitado, e o controle da inflação exigirá juros elevados por tempo indefinido, com custos exorbitantes para famílias e empresas.
Construir uma agenda efetiva de ajuste dependerá de vontade presidencial e de boa articulação com um Congresso mais à direita. A nomeação de um ministro da Fazenda com credibilidade é a primeira etapa, que deveria ser cumprida desde já.
As especulações brasilienses para o posto apontam, por ora, para nomes políticos — Rafael Fonteles (PT), governador reeleito do Piauí , e mesmo o vice-presidente, Geraldo Alckmin ( PSB ).
Importa menos se o comandante da pasta é técnico ou político, e a história mostra exemplos de sucesso em ambos os casos.
Mais relevante é que nenhum ministro será efetivo se não puder contar com a confiança e o apoio explícito do presidente para definir sua agenda e uma equipe qualificada. É o chefe do Executivo, afinal, quem delimita o espaço para as medidas necessárias, ainda que impopulares.
Ao mesmo tempo, o presidente da República precisa estar disposto a ouvir a pasta e a considerar recomendações que contrariem preferências imediatistas.
Entre os melhores exemplos, Lula escolheu Antonio Palocci em seu primeiro governo e deu ao auxiliar liberdade de ação e o aval necessário para prosseguir em ajustes orçamentários expressivos, acompanhado de um segundo escalão que misturava profissionais de diferentes matizes, até em contraposição ao PT.
Fernando Henrique Cardoso ( PSDB ) manteve Pedro Malan na Fazenda por oito anos com a combinação de apoio e diálogo aberto. No governo Michel Temer ( MDB ), Henrique Meirelles e Eduardo Guardia operaram em ambiente semelhante.
Já Fernando Haddad , no terceiro mandato de Lula, apesar da relação pessoal de confiança, não contou com a abertura necessária para avançar em medidas de ajuste mais profundas. O presidente foi, na prática, o condutor da política econômica.
O padrão das experiências bem-sucedidas é claro. Começa com equipe competente, com visões complementares e certa autonomia para a execução. Bons quadros só serão atraídos se houver perspectiva de respaldo do Planalto —sobretudo no caso de medidas que enfrentarão resistências à esquerda e à direita.
É preciso haver um plano claro. Quando o governo carece de visão estratégica de médio e longo prazo, torna-se refém das emergências do momento sem capacidade de obter transformações.