Em 9 de outubro de 2022, uma explosão cósmica excepcionalmente intensa atingiu a Terra com uma onda de radiação capaz de alterar a ionosfera, uma das camadas da atmosfera. Conhecido como BOAT (sigla em inglês para “o mais brilhante de todos os tempos”), o evento chamou a atenção dos astrônomos e continua provocando debates sobre seus efeitos reais no planeta.
Identificado como GRB 221009A, o fenômeno pertence à categoria das explosões de raios gama (GRBs), que estão entre as liberações de energia mais intensas do Universo. Elas podem ocorrer quando uma estrela muito massiva entra em colapso e dá origem a um buraco negro, lançando jatos de partículas a velocidades próximas à da luz.
Imagem de raios X da explosão de raios gama GRB 221009A – Crédito: NASA/Swift/A. Beardmore (Universidade de Leicester)
Evento mais brilhante em 10 mil anos
Estimativas indicam que o evento pode ter sido o mais brilhante observado na Terra em cerca de 10 mil anos. Segundo a NASA, a explosão foi tão poderosa que saturou temporariamente detectores de raios gama em diferentes espaçonaves.
Um dos casos foi o telescópio espacial Fermi, da própria NASA. Dois instrumentos do observatório – o Monitor de Explosões de Raios Gama (GBM) e o Telescópio de Grande Área (LAT) – tiveram limitações para registrar a emissão durante os momentos mais intensos do evento.
A missão INTEGRAL, sigla em inglês para Laboratório Internacional de Astrofísica de Raios Gama, da Agência Espacial Europeia (ESA), também foi afetada pelo BOAT. Segundo um estudo liderado pelo Instituto de Astrofísica de Andalucía, na Espanha, e publicado em 2024 na revista Astronomy & Astrophysics, embora a fonte estivesse fora do campo de visão habitual dos telescópios, a radiação recebida foi suficiente para saturar o Escudo de Anticoincidência (ACS) e parte dos detectores do Imageador de Raios Gama de Baixa Energia (ISGRI), prejudicando a coleta de dados durante a explosão.
Para contornar o problema, os pesquisadores utilizaram dados de outro detector da própria INTEGRAL, o Minicalorímetro (MCAL), que não foi impactado pela saturação, para estimar a intensidade da emissão.
Os pesquisadores também recorreram aos dados da sonda europeia BepiColombo, uma missão que tem como destino Mercúrio e que registrou a explosão com o Espectrômetro de Raios Gama e Nêutrons de Mercúrio (MGNS). O instrumento detectou a emissão na faixa de energia entre 280 e 460 quiloelétron-volts, identificando uma sequência de pulsos que durou cerca de 6,6 minutos.
Uma animação de lapso de tempo feita a partir de dados do Observatório Neil Gehrels Swift, da NASA, mostra a explosão de raios gama mais brilhante já registrada e sua evolução ao longo de 12 dias. – Créditos: NASA/Swift/A. Beardmore (Universidade de Leicester)
Os cientistas combinaram as medições das duas espaçonaves para estimar a intensidade da explosão nos momentos em que outros detectores da INTEGRAL estavam saturados. Essa comparação permitiu reconstruir parte do sinal que não pôde ser medido diretamente.
Apesar da intensidade excepcional da radiação, não há indicação de danos físicos permanentes às espaçonaves. O problema identificado foi a sobrecarga temporária dos detectores, que comprometeu algumas medições. A distinção é importante: a explosão interferiu na capacidade dos instrumentos de registrar os dados, mas isso não significa que tenha danificado os satélites que a observaram.
Como a explosão foi detectada?
O primeiro sinal foi registrado às 13h16min59s, no horário universal, pelo instrumento Fermi GBM. Outros equipamentos espaciais, incluindo o observatório Neil Gehrels Swift, também identificaram a emissão. A combinação das observações permitiu estudar o fenômeno em diferentes comprimentos de onda e acompanhar a radiação emitida após o clarão inicial.
Os dados indicaram que a explosão ocorreu em uma galáxia distante, a aproximadamente 2,4 bilhões de anos-luz da Terra, embora a distância possa variar conforme a medida cosmológica utilizada.
Mesmo depois de atravessar esse imenso percurso, a radiação chegou com intensidade suficiente para produzir efeitos detectáveis na atmosfera terrestre. Uma medição espectroscópica publicada em 2025 estimou a distância de luminosidade em cerca de 745 megaparsecs, equivalente a aproximadamente 2,43 bilhões de anos-luz.
Ilustração da explosão de raios gama mais brilhante de todos os tempos, GRB 221009A (BOAT). – Crédito: Equipe IHEP/HXMT&GECAM
O que aconteceu na atmosfera da Terra?
A ionosfera é uma região da atmosfera situada entre 50 e mil quilômetros de altitude. Nela, a radiação solar e outras fontes de energia retiram elétrons de átomos e moléculas, formando partículas eletricamente carregadas. Essas mudanças afetam a propagação de ondas de rádio e podem ser identificadas por instrumentos científicos.
Em novembro de 2025, um estudo publicado na revista Geophysical Research Letters apresentou evidências de que a explosão aumentou a densidade de elétrons na ionosfera inferior, entre 50 e 90 quilômetros de altitude. Os pesquisadores observaram mudanças na velocidade de propagação de ondas de rádio de frequência extremamente baixa produzidas por relâmpagos. A perturbação persistiu por cerca de 40 minutos.
A equipe também identificou diferenças entre os métodos de monitoramento. Enquanto algumas medições revelaram sinais associados à passagem da radiação, outras, como as observações das ressonâncias de Schumann, não mostraram alterações claras. Os resultados sugeriram que a explosão provocou uma resposta específica da ionosfera, diferente daquela normalmente observada durante tempestades solares.
Infográfico mostra como a explosão BOAT teria enviado raios gama até a Terra, possivelmente ionizando a ionosfera e alterando ondas de rádio. – Crédito: Imagem gerada por IA
“Se aquela explosão não afetou a atmosfera, nenhuma outra seria capaz”
Um estudo disponibilizado no repositório de pré-impressão de artigos científicos arXiv em maio deste ano, no entanto, reavaliou outras alterações anteriormente atribuídas ao BOAT. Os pesquisadores analisaram dados de diferentes altitudes e concluíram que certas anomalias em medições de satélites, no conteúdo de elétrons e na circulação elétrica equatorial poderiam ser explicadas por condições naturais e limitações instrumentais.
O trabalho não encontrou um aumento coerente do conteúdo total de elétrons que pudesse ser associado diretamente à explosão. Os autores também identificaram variações que ocorriam regularmente em determinadas condições de iluminação ou que haviam começado antes do evento. Como o texto ainda aguarda revisão de pares, suas conclusões ainda precisam ser consideradas no contexto da avaliação científica independente.
Segundo Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON) e colunista do Olhar Digital, é importante destacar que esse estudo não questiona a ocorrência do BOAT nem os dados detectados nos sensores de raios gama publicados pelo Instituto de Astrofísica de Andalucía.
“Ele contesta os efeitos daquela GRB, e consequentemente de outras explosões de raios gama na ionosfera terrestre do artigo de 2025”, explica o especialista. “A capacidade dessas explosões interferirem na atmosfera já é discutida no meio científico há anos. Dessa forma, esse estudo pode encerrar de vez essa controvérsia. Se for comprovado que a mais poderosa explosão de raios gama não produziu efeitos significativos em nossa ionosfera, poderíamos concluir que nenhuma outra seria capaz de produzir.”
O episódio continua sendo importante para a astronomia porque ajuda a investigar como explosões extragalácticas interagem com o ambiente terrestre. Os estudos também mostram por que diferentes instrumentos e análises independentes são necessários para separar os efeitos de fenômenos cósmicos das variações naturais da atmosfera.