A mediana das estimativas (medida que desconsidera valores muito altos ou muito baixos), coletadas junto a gestores e tesouraria de bancos, vê o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 5,3% no ano que vem e 4,3% no final de 2028.
É uma piora expressiva em relação à última pesquisa semanal Focus, do Banco Central , realizada antes do segundo turno das eleições presidenciais, quando a expectativa era de uma alta de preços de 4,34% em 2027 e de 3,75% em 2028 . A meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual.
A pesquisa da BGC é feita com analistas que tradicionalmente revisam mais rápido suas expectativas, e costuma antecipar em duas semanas a pesquisa Focus, que ouve também especialistas que levam mais tempo para rever suas projeções. A próxima será divulgada pelo BC na terça-feira (3).
O economista de inflação e commodities da BGC, Carlos Thadeu, aponta que o salto nas estimativas está relacionado à ausência de uma âncora fiscal, com a avaliação de que haverá mais gastos pelo governo Lula , e à valorização do dólar , que subiu de R$ 4,99 no final da semana retrasada para R$ 5,44 no fechamento desta sexta (30) .
Ele ressalta que 11% dos ouvidos no levantamento feito nesta semana veem uma inflação ainda maior, acima de 6%, em dezembro do ano que vem.
"O mercado estava disposto a dar o benefício da dúvida para o Flávio Bolsonaro , com a expectativa de cortes de gastos e Selic [a taxa básica de juros ] mais baixa. Com a reeleição do Lula, essa precificação foi devolvida", diz.
A maior fonte de pressão sobre o IPCA projetado pelo mercado para o ano que vem, afirma ele, vem dos preços administrados, que por sua vez são influenciados principalmente por combustíveis, como gasolina e diesel, que subirão mais no mercado interno com o real mais fraco.
"O preço dos combustíveis é dado no mercado internacional, e o Brasil importa 30% do seu diesel. Sem os riscos fiscais, o câmbio de equilíbrio seria algo próximo de R$ 4,50, até abaixo disso", avalia o economista da BGC.
Thadeu ainda menciona a aprovação do fim da escala 6x1 como fonte de pressão sobre a inflação do ano que vem. "Você mudar a escala 5x2 significa precisar de pelo menos 10% a mais de mão de obra", estima.
A preocupação dos economistas é com o cenário fiscal, que requer um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos, como mostrou a Folha , em um momento em que a dívida bruta do Brasil já chega a quase 83% do PIB (Produto Interno Bruto), o maior nível em cinco anos.
O governo Lula prevê um déficit de R$ 67,3 bilhões neste ano, ou 0,5% do PIB, o que significa que a dívida bruta vai subir ainda mais.
Para economistas, o saldo das contas precisaria, idealmente, subir a 2% ou 2,5% do PIB até 2030, sem recorrer a subterfúgios ou descontos, mas eles ainda não veem uma sinalização clara de que a política fiscal se encaminhará nessa direção.
Nesse cenário, Thadeu afirma que o mercado avalia que não há espaço para o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) cortar a taxa básica de juros (Selic) na próxima reunião, na quarta-feira (4).
Hoje os juros estão em 13,75% ao ano, e a expectativa antes do segundo turno era de que o colegiado iria reduzir a taxa a 13,25% ao ano até o final de 2026.
Segundo o economista da BGC, a curva de juros futuros precifica agora a manutenção da taxa na reunião da semana que vem, com uma chance de apenas 20% de corte de 0,25 ponto percentual. Para o ano que vem, diz ele, a curva já embute uma alta de 1,5 ponto.