EUA destoam entre países ricos ao desacelerar medidas para conter aquecimento global, diz ONU

A decisão dos Estados Unidos de escantear um compromisso climático crucial aumentou a probabilidade de o planeta aquecer mais do que se estimava anteriormente. O cenário é apontado em um relatório científico das Nações Unidas divulgado no d

Por Admin ·

EUA destoam entre países ricos ao desacelerar medidas para conter aquecimento global, diz ONU

Em seu relatório anual sobre a lacuna de emissões, a ONU apontou os EUA como uma exceção entre as nações industrializadas responsáveis pela maior parte da poluição que aquece o planeta.

Entre as nações industrializadas do G20 , observou o relatório, o crescimento de emissões desacelerou de modo geral em 2025, "sendo os Estados Unidos da América a principal exceção".

Isso ocorreu após um ano de aumento da demanda por eletricidade, impulsionado pela rápida construção de data centers destinados a atender à inteligência artificial, além de um inverno rigoroso na América do Norte, que levou a um maior uso de combustíveis fósseis para aquecimento.

Porém, a medida mais relevante dos americanos, em termos de seu impacto global sobre as mudanças climáticas, foi abandonar o compromisso de reduzir emissões, algo que havia sido assumido em 2024 durante o governo do democrata Joe Biden .

O Acordo de Paris , que estabelece como meta limitar o aumento da temperatura a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, determinou que os países atualizassem e reforçassem esses compromissos a cada cinco anos. Eles são considerados os pilares para alcançar as metas globais de contenção do aquecimento.

No entanto, no dia de sua posse, Donald Trump anunciou que retiraria os EUA do Acordo de Paris, abandonando a luta contra as mudanças climáticas. A gestão do republicano tem incentivado o aumento da produção e do uso de combustíveis fósseis, cuja queima libera os gases de efeito estufa que estão aquecendo perigosamente o planeta.

Se os demais países cumprirem seus compromissos, a Terra aquecerá 2,6°C neste século em relação à era pré-industrial. Essa estimativa é 0,3°C superior a uma estimativa comparável feita no ano passado. Em torno de metade desse aumento decorre da retirada do compromisso climático dos Estados Unidos, afirmou o relatório da ONU.

Os cientistas ressaltam que cada fração de grau de aquecimento adicional aumenta a probabilidade de ondas de calor mais letais, tempestades mais intensas e outros eventos extremos.

Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, afirmou que as Nações Unidas estavam "promovendo a farsa woke da energia verde e pressionando países do mundo inteiro a pôr em risco sua segurança econômica e nacional para cumprir metas climáticas arbitrárias".

As projeções de aquecimento até o fim do século apresentadas no relatório da ONU se baseiam em muitas premissas e refletem um cenário nos EUA em que políticas climáticas ao estilo de Trump continuam em vigor muito depois do fim de seu mandato.

Sem citar nenhum país, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apontou uma "lacuna de liderança" e afirmou que "os governos precisam ir muito mais longe e agir com muito mais rapidez" na expansão das energias renováveis e na eliminação gradual dos combustíveis fósseis.

Inger Andersen, diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, afirmou que "estamos vendo, e continuaremos a ver, impactos em todos os países, incluindo os Estados Unidos".

Mesmo antes de Trump desmantelar as políticas climáticas, o mundo já caminhava para ultrapassar em muito as metas do Acordo de Paris.

Desde que voltou ao poder, em janeiro de 2025, Trump promoveu o que o Climate Action Tracker, um grupo de pesquisa independente, descreve como o "retrocesso mais agressivo, abrangente e de maior impacto" que já analisou.

Sob a gestão do republicano, os Estados Unidos retiraram o apoio governamental às energias eólica e solar, eliminaram os limites para as emissões de gases de efeito estufa por usinas que queimam combustíveis fósseis e revogaram a conclusão científica que confere ao governo autoridade para combater as mudanças climáticas.

"O governo Trump está tentando reverter por completo o rumo que os Estados Unidos vinham seguindo, e isso está sendo percebido e sentido em escala global", afirmou Finn Hossfeld, analista de políticas públicas do NewClimate Institute.

Em linhas gerais, nos últimos 25 anos, as emissões de gases de efeito estufa dos EUA apresentaram tendência de queda, enquanto as da China dispararam. As emissões anuais de carbono da nação asiática são agora 2,5 vezes maiores do que as dos americanos, embora tenham se estabilizado em 2025, à medida que o país ampliou rapidamente a geração de energia eólica e solar.

As emissões dos EUA ainda devem diminuir, mas não tão rapidamente quanto diminuiria se Trump não tivesse eliminado as políticas climáticas. O relatório afirmou que "mudanças recentes nas políticas" dos EUA resultarão em 0,9 gigatonelada de emissões adicionais até 2030, o equivalente ao total anual do Japão .

O relatório foi divulgado um mês depois de a ONU reconhecer formalmente o fracasso da meta global de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C. Desde o período pré-industrial, as temperaturas médias globais já subiram 1,4°C.

A avaliação divulgada no mês passado analisa o que seria necessário para que a "ultrapassagem" da meta de 1,5°C fosse a menor possível, preservando ao mesmo tempo a possibilidade de, até o fim do século, reduzir novamente as temperaturas para perto desse patamar.

Isso exigiria mudanças enormes já a partir da próxima década, e as emissões globais teriam de cair 45% até 2035. Para efeito de comparação, as emissões caíram aproximadamente nessa proporção em 2020, quando a pandemia de coronavírus paralisou grande parte da atividade humana e levou muitas economias a uma recessão profunda.