Mas pesquisadores decidiram investigar se a oferta desse protocolo de tratamento unificado seria suficiente para garantir o mesmo desfecho clínico aos pacientes. E descobriram que não.
Com base no Registro Hospitalar de Câncer do Estado de São Paulo (RHC-SP), um banco de dados mantido pela Fundação Oncocentro com informações de todos os hospitais públicos e privados credenciados para atendimento oncológico de alta complexidade no estado, os estudiosos levantaram informações sobre 2.396 pacientes que tiveram o diagnóstico da doença e iniciaram o tratamento entre 2015 e 2020. Deste total, 2.055, o equivalente a 85,8%, foram tratados no SUS, e 341 (14,2%), na rede privada.
Os dados analisados sobre cada um dos pacientes incluíram a fonte de financiamento da assistência à saúde, o nível de escolaridade, o tempo transcorrido até que tivesse início do tratamento e o tempo médio decorrido desde o início do tratamento até a morte do paciente por qualquer causa, chamado de sobrevida global.
Ao longo de um período de cinco anos, os pacientes com linfoma difuso de grandes células B tratados no SUS apresentaram uma sobrevida menor, quando comparados àqueles que receberam atendimento na rede privada. Os percentuais dos que continuavam vivos após meia década foram de 51,7% e 64,7%, respectivamente.
"O nosso estudo demonstrou que existem outros fatores que interferem e podem impactar na sobrevivência do paciente. A sobrevivência não depende única e exclusivamente do tratamento que é oferecido", afirma o médico hematologista Rafael Dezen Gaiolla, docente do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Botucatu e um dos coordenadores da pesquisa. O estudo foi publicado na revista Blood Global Hematology .
O nível de escolaridade revelou-se como um dos fatores prognósticos mais fortes do estudo. Segundo os registros analisados, os pacientes tratados no sistema privado de saúde apresentaram maior nível de escolaridade: 48,7% relataram possuir nove anos ou mais de educação formal. No sistema público, apenas 29,8% dos pacientes tinham esse mesmo tempo de dedicação ao ensino formal. E essa disparidade foi relacionada a consequências no desfecho dos pacientes com linfoma difuso de grandes células B.
Pacientes com até oito anos de escolaridade formal apresentaram um risco de morte 47% maior, independentemente de idade, sexo, intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento ou fonte de financiamento do tratamento. A sobrevida dospacientes com nove anos ou mais de escolaridade formal em cinco anos foi de 63,9% enquanto a dos pacientes com zero a oito anos ficou em 45,2%.
"A escolaridade tem um grande impacto na sobrevida desses pacientes. E, ao interpretar esses resultados, é fundamental considerarmos que questões relacionadas ao autocuidado, à valorização da saúde, ao entendimento sobre as orientações e à adesão ao tratamento passam pelo nível de escolaridade do paciente", explica Gaiolla.
As longas filas e o tempo de espera até o início do tratamento são alguns dos principais desafios enfrentados pelos pacientes do SUS, independentemente da doença que apresentam. E esse era um dos principais questionamentos dos pesquisadores: investigar o quanto essa espera pode impactar na sobrevida do paciente com linfoma difuso de grandes células B.
Para surpresa dos pesquisadores, um menor tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento, de até 60 dias, esteve relacionado a uma pior sobrevida se comparado ao de pacientes que iniciaram o tratamento após 61 dias.
"A nossa interpretação é que esse resultado tem relação com a biologia do tumor. A doença mais agressiva traz o paciente mais rápido ao serviço. E, por isso, esse tempo foi mais curto. A pior sobrevida, portanto, estaria mais relacionada à característica biológica da doença e não ao tempo de início do tratamento", completa o coordenador do estudo.