Estresse no câmbio tende a ser pontual, não estrutural

A disparada do dólar na segunda-feira , após a reeleição do presidente Lula , foi comparada à de episódios históricos de estresse no mercado financeiro. Desde a criação do Plano Real, em 1994, as maiores valorizações diárias do dólar ocorre

Por Admin ·

Estresse no câmbio tende a ser pontual, não estrutural

A disparada do dólar na segunda-feira , após a reeleição do presidente Lula , foi comparada à de episódios históricos de estresse no mercado financeiro. Desde a criação do Plano Real, em 1994, as maiores valorizações diárias do dólar ocorreram por causa da mudança da política cambial, em janeiro de 1999, e pelo terremoto financeiro global provocado pela chamada “crise do subprime” e a quebra do Lehman Brothers, em 2008.

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Porém, apesar da dimensão dos números de segunda-feira, analistas avaliam que o nível de estresse no mercado, apesar de muito intenso, não se compara com o dos casos anteriores.

Economistas avaliam que a disparada do dólar de segunda-feira não é estrutural, mas um ajuste de preços. Trata-se de uma correção do cenário até então traçado por agentes do mercado financeiro, que tinham alocado recursos prevendo a vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições, visto como um candidato mais disposto a fazer um ajuste nas contas públicas, o que poderia baixar os juros no Brasil.

— Foi um movimento de ajuste de posições para um cenário que tem menos probabilidade de ocorrência, que é o de um ajuste fiscal. Havia probabilidade grande de vitória da oposição e, nesse cenário de continuidade, a percepção é que o ajuste ainda ficará aquém do necessário para estabilizar a relação dívida/ PIB. Com dívida pressionada, há espaço menor para a queda da Taxa Selic — afirma Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset.

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Cathy Hepworth, que chefia a equipe de dívida de mercados emergentes da gestora de ativos PGIM, da gigante americana Prudential, com US$ 1,5 trilhão em ativos sob gestão, disse à Bloomberg que a tendência após o resultado do segundo turno é de uma reprecificação “muito significativa, talvez por um tempo”.

— Mas ainda é o Brasil, e Lula é um animal político. Então, as coisas acabarão se estabilizando — disse a economista, avaliando que o governo pode acalmar o mercado com medidas fiscais factíveis.

Na avaliação de Christian Keleti, CEO da gestora AlphaKey Capital, a forte variação dos indicadores ontem, que remete a momentos históricos de crise, reflete o tamanho pequeno do mercado brasileiro e a maior interconexão com o exterior.

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— Os fundos internacionais são gigantescos para o tamanho do nosso mercado, aumentando a amplitude das oscilações. E o mercado partiu de um nível alto de expectativa que se criou e que em momento algum, por nenhuma pesquisa, foi refutado. E quando não há perspectiva de como será o horizonte para juros, inflação, PIB, você desfaz a qualquer preço, só para não enfrentar a incerteza — diz.

Considerando a taxa média do dólar ontem, ou seja, que inclui as variações desde a abertura do mercado até o fechamento, o câmbio ficou em R$ 5,4998, uma valorização de 9,2% em relação à sexta-feira passada. Essa taxa média é chamada de Ptax e é calculada pelo Banco Central. A variação, neste caso, é a maior desde a crise global de 2008.

Análise da consultoria de dados financeiros Elos Ayta mostra que a maior alta do dólar na era do Real ocorreu em 15 de janeiro de 1999, quando a cotação média diária do dólar avançou 11,10% em um único dia. Naquele ano, o Brasil fez uma alteração estrutural em sua economia, abandonando o sistema de câmbio administrado e a política de bandas cambiais e passando a adotar o regime de dólar flutuante, em vigor até hoje.

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Na crise global de 2008, a maior valorização foi em 8 de outubro, quando o dólar Ptax subiu 9,33%. Naquele período, o capitalismo global foi impactado por uma enorme turbulência no sistema financeiro dos Estados Unidos, que provocou a maior crise desde a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, abalando a economia mundial por anos.