Estatinas salvam vidas. Por que ainda há tanto medo delas?

Medicina, ciência e prevenção para enfrentar desafios da saúde 30/10/2026 04h30 Atualizado 30/10/2026 04h30 Poucos medicamentos mudaram tanto a prevenção de infartos e AVCs quanto as estatinas. Elas ajudam a salvar vidas e estão entre os

Por Admin ·

Estatinas salvam vidas. Por que ainda há tanto medo delas?

Medicina, ciência e prevenção para enfrentar desafios da saúde

30/10/2026 04h30 Atualizado 30/10/2026 04h30

Poucos medicamentos mudaram tanto a prevenção de infartos e AVCs quanto as estatinas. Elas ajudam a salvar vidas e estão entre os tratamentos mais estudados da medicina. Ainda assim, vídeos alarmistas nas redes sociais fazem muitas pessoas duvidarem de uma proteção comprovada. Como chegamos a isso?

Usadas há décadas para reduzir o colesterol, elas fazem mais do que melhorar exames: diminuem o risco de infarto, de acidente vascular cerebral (AVC) e, em determinados grupos, de morte. Uma grande revisão de estudos clínicos mostrou redução relativa de 33% nos infartos e de 22% nos AVCs entre pessoas que ainda não haviam sofrido esses eventos. O benefício absoluto depende do risco individual e costuma ser maior em quem já tem doença cardiovascular.

O motivo é simples. O LDL, conhecido como colesterol ruim, participa da formação de placas nas artérias. Ao reduzi-lo, as estatinas ajudam a evitar a progressão da aterosclerose e a estabilizar placas já existentes. Isso importa porque um infarto nem sempre acontece quando uma artéria se fecha lentamente. Pode surgir quando uma placa se rompe, forma um coágulo e bloqueia o sangue.

Análises de estudos clínicos mostram que, para cada redução de cerca de 39 mg/dL no LDL, o risco de eventos cardiovasculares importantes cai cerca de 20%. Não se trata, portanto, de uma disputa por números ideais. Trata-se de prevenir doenças que podem deixar sequelas permanentes ou matar.

Para quem já sofreu um infarto, colocou stent ou teve um AVC de origem aterosclerótica, esse tratamento frequentemente é parte essencial da prevenção de novos eventos. E também pode ser decisivo antes do primeiro problema, em pessoas com diabetes, colesterol muito elevado ou risco cardiovascular aumentado. A indicação considera a história clínica e fatores de risco.

“Mas eu como bem, faço exercícios e não sinto nada.” Ótimo. Esses hábitos continuam indispensáveis, mas não anulam a genética nem apagam placas já existentes. A aterosclerose pode avançar silenciosamente durante anos, inclusive em quem nunca sentiu dor no peito. Esperar sentir alguma coisa pode ser esperar demais.

Apesar de tudo isso, as estatinas se tornaram personagens de vídeos alarmistas. Há quem diga que prejudicam a memória, destroem os músculos ou fazem mais mal do que bem. O problema não é questionar medicamentos. O problema é transformar hipóteses e experiências individuais em verdades universais, ignorando estudos.

Em fevereiro de 2026, uma análise publicada na revista The Lancet avaliou quase 124 mil participantes de estudos que compararam estatinas com placebo. A maior parte dos efeitos adversos adicionais atribuídos aos medicamentos não apresentou associação significativa. Entre eles estavam problemas de memória, depressão e distúrbios do sono.

Isso não quer dizer que o tratamento seja livre de riscos. Dores musculares podem ocorrer, embora grande parte das queixas durante o uso tenha outras causas. Alterações em exames do fígado também podem acontecer, mas complicações graves são raras.

Ninguém está defendendo estatinas para todo mundo. Mas, quando existe indicação, a decisão de interromper o tratamento não deveria nascer de um vídeo. Se houver sintomas, é possível avaliar outras causas, ajustar a dose ou trocar o medicamento.

A ciência não promete risco zero. Ela permite comparar riscos e benefícios. Para milhões de pessoas, o perigo maior não está em tomar a estatina prescrita, mas em abandonar uma proteção comprovada.

Nas redes, o medo rende visualizações. Na vida real, o que está em jogo são infartos e AVCs que poderiam ser evitados. Nenhum influenciador conhece sua história clínica, seus exames ou seu risco cardiovascular. A decisão sobre um tratamento deve vir da ciência e do que diz seu médico, não do algoritmo.

Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.