À frente do prédio residencial mais alto do mundo, executiva relata dificuldade de importar tecnologia e adaptar soluções à realidade brasileira
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São Paulo No mês passado, a construtora FG Empreendimentos comemorou um ano do início das obras do Senna Tower , edifício na orla de Balneário Camboriú (SC) que será o residencial mais alto do mundo quando concluído. Engenheira responsável pelo projeto e diretora executiva da consultoria Talls Solutions, que integra o Grupo FG, Stéphane Domeneghini brinca que a evolução dos prédios grandes é injusta: eles demoram para começar a subir, dando a sensação de que nada avançou.
Foi nesse primeiro ano que a equipe encarou um dos maiores entraves da obra, que era importar para o Brasil a tecnologia usada em outros supertalls pelo mundo. Faltava maquinário, mão de obra qualificada e viabilidade para lidar com a rocha do litoral catarinense, o que exigiu o redesenho da fase inicial.
Natural de Cerejeiras (RO), Domeneghini administra a agenda entre os projetos da consultoria, simpósios internacionais em que apresenta o Senna Tower, a maternidade e a presidência do capítulo Brasil do CVU (Council on Vertical Urbanism), em que tenta atrair os olhos de grandes mercados para o que acontece no país.
"O Brasil é um pouco recluso dessa participação internacional nos congressos sobre prédios altos. A gente pode mostrar o potencial do que o Brasil tem feito e, quem sabe, atrair também bons profissionais, investidores. Temos legislações super contemporâneas e modernas, o Brasil está no meio de uma grande transformação", afirma Domeneghini.
Como está a construção do Senna Tower? Terminamos a fundação há três meses, acabamos fazendo bem mais rápido do que o planejado. Foram três anos de teste, apostamos bem alto e reduzimos muito tempo, as 800 estacas da torre estão prontas. No caso de prédios grandes é um pouco cruel, porque nos primeiros anos a gente passa na frente e é só tapume, parece que o prédio não está acontecendo.
Hoje estamos fazendo a parede diafragma do prédio, que protege toda a extensão do terreno para que a gente possa escavar e fazer o bloco da torre, os principais elementos que vão segurar esse prédio de pé. São dois elementos que, se a gente erra, não tem volta.
Quais foram as dificuldades? Previmos cem estacas de grande diâmetro e mudamos para 800, por uma questão de segurança. Tivemos dificuldade de executar sete estacas que não chegaram a 40 metros de profundidade, bateram em 30 e pouco. Voltamos ao modelo, reavaliamos e, ainda assim, elas passavam com esses 30 metros. Economia de dinheiro não teve, mas tivemos um aumento de segurança muito grande.
Se você for lá no terreno, vai ver lama, muita água, é o lençol freático vindo. Recebo clientes do Brasil inteiro. Fortaleza , por exemplo, é uma cidade litorânea muito parecida com Balneário Camboriú, mas eles não têm essa água fluindo como a gente, e isso dificulta o serviço, porque é uma água que faz aquilo tudo virar barro. Se você bombeia essa água, acaba impactando muitos vizinhos, as casas começam a fissurar. Essa parede diafragma serve justamente para você ter condição de escavar e tirar essa água sem ela interferir na vizinhança.
A necessidade de colocar mais estacas se deu em função de o solo na região ser um problema? Viabilidade técnica, não do solo, mas da realidade Brasil. É por isso que eu converso muito tentando educar o brasileiro no sentido de que, às vezes, a gente tem a mentalidade que é só importar o conhecimento de quem já fez lá fora e transportar para cá que ele vai funcionar.
No início, quisemos trazer a solução que o mundo dos supertalls faz, grandes estacas escavadas. Topamos com uma grande dificuldade técnica no Brasil, de maquinário, da nossa rocha, que é um gnaisse super-resistente [rocha metamórfica de altíssima dureza] para quebrar. Quanto maior e mais larga a estaca, mais ela tem que se aprofundar na rocha para ficar firme.
As brocas diamantadas para furar a nossa rocha só existiam em equipamentos americanos e chineses que teríamos que importar. Não tínhamos mão de obra qualificada, ia ser um experimento, com nível de segurança muito baixo e um investimento extraordinário. Estamos falando de um equipamento que custaria US$ 70 milhões. Então, para você ver que essa lógica de "Ah, eu pego a consultoria de fora do Brasil e trago para cá e simplesmente coloco aqui" não é tão simples. Foi esse o processo pelo qual passamos no Senna. No início achamos que era simples, projetamos como todo mundo projeta, mas na hora de fechar as contas e executar, não deu certo. Tivemos que regredir tudo e voltamos a estudar. Estamos há quatro anos testando em campo, o que não é normal num projeto convencional.
Você comentou sobre as dificuldades da mão de obra, do maquinário. Como tem sido para contornar esse tipo de situação? Só tem uma solução: você tem que pegar para si o treinamento, a lógica de o teu fornecedor ser parte da equipe. Tem que abandonar aquele pensamento antigo de "eu contrato alguém, eu espero que ele venha treinado e atenda do meu jeito". Ele tem que ser uma extensão da equipe, você tem que investir em treinamento, levar eles para fora do Brasil, ver como executam, quais são os processos e análises, para ele se preparar junto conosco.
Esse processo de adaptação da indústria tem sido muito lento? A indústria está se esforçando muito, especialmente a de edifícios. A escassez de mão de obra, principalmente de pedreiros, de coisas mais artesanais que a gente está acostumado na construção, você não tem mais tanto. Com a verticalização das cidades, você não consegue levar o tempo que as pessoas podem esperar por um prédio com sistemas arcaicos, você tem que ter uma pegada industrializada, investir em formas e sistemas de vedação mais rápidos.
Temos recebido muita gente com essa ânsia de entender, especialmente sistemas que agilizem a execução, que sejam mais industrializados. O grande desafio é o custo. A nossa esperança é que as pessoas enxerguem que estão gastando muito em má qualidade de solução. Existe um desperdício oculto em estruturas, em sistemas que existem porque não se investe bem em projeto. Gastam fortunas em volume de concreto, em aço, em coisas desnecessárias. O Minha Casa, Minha Vida hoje se sustenta com esses sistemas industrializados. Na verdade, são muito mais avançados do que o luxo , têm muito mais industrialização que o médio padrão para cima.
Como o mercado lá fora tem visto o Senna Tower e os problemas que vocês têm enfrentado? Eles não sabem da missa a metade. Não têm uma percepção da dificuldade que vivemos no Brasil, da flutuação financeira, flutuação política, e como isso afeta. A gente tem que pagar a conta, não tem dinheiro que vem de governo, não tem desconto de imposto. Na Europa , nos Estados Unidos , na China mesmo, eles vivem com muito mais suporte, subsídio, tem muito mais como alavancar design, trazer algo fenomenal, simbólico.
Nas questões de segurança, por exemplo, vendemos com preço de América do Sul, mas a exigência de normas é de mercado europeu. Estamos no topo da exigência, mas o mercado paga a base da base. Essa é a conta que a gente equilibra. Nos canteiros dos Estados Unidos há mais liberdade de horário, de ruas, do trabalho. A segurança é muito menos exigente, mais discussão com sindicatos. A gente vive quase numa cadeia de regulações que dificultam muito.
O Senna vai levar oito anos para ser construído porque a gente tem que trabalhar das 7h da manhã às 18h. Em Dubai , eles trabalham a estrutura 24 horas por dia. Em Nova York, estendem até as 21h. A China trabalha com turnos noturnos. Estamos numa situação bem mais restritiva, mas com uma alta expectativa de produtividade e proficiência da Europa, dos Estados Unidos, de Dubai.
Você tem percebido uma mudança de cenário dentro da engenharia de uma forma geral, das construtoras, de abrir um pouco mais espaço para as mulheres? Ou ainda é muito restritivo? Não vejo muita abertura. Tenho muitos clientes pelo Brasil inteiro e são raríssimas as situações em que discuto um serviço ou fechamento com mulheres. É ainda uma minoria, especialmente em posições de grande liderança, infelizmente.
O estresse, a maternidade, são questões que afetam muito nesse desenvolvimento de uma jornada de alta liderança para mulheres. E vou ser bem honesta, para eu ter me mantido foi muito custoso, pensei em desistir em vários momentos. Ainda é um ambiente bastante machista, dominado por muitos homens, de altíssima pressão, muito exigente intelectualmente. Você tem que ter muito firme dentro de você esse propósito para superar as barreiras que o mercado impõe à mulher. Não é um caminho fácil.
Você tem que abdicar de muita coisa que contempla o universo feminino e entender que você está fazendo uma escolha. Eu infelizmente ainda não encontrei uma mulher que seja tão resiliente quanto eu fui, porque gostaria muito de que eu tivesse uma sucessora mulher, mas ainda não encontrei alguém que conseguisse se manter e passar por esses desafios. Em algum momento elas acabam optando pela maternidade, como eu optei, ou por uma vida mais equilibrada. Eu gostaria que houvesse uma transformação, mas eu entendo elas também.
Formação : Engenharia civil pela Univali (Balneário Camboriú) Carreira : Começou na Embraed, construtora de Balneário, no início da corrida da cidade por edifícios acima de 150 metros. Migrou para a FG Empreendimentos, onde ajudou a desenvolver os projetos de grandes edifícios e liderou a concepção técnica do Senna Tower. Hoje é diretora-executiva da Talls Solutions, consultoria de engenharia para prédios altos e superaltos do Grupo FG e, em 2026, assumiu a presidência do capítulo Brasil do CVU (Council on Vertical Urbanism).