O tema escolhido é "A Psiquiatria e as Transformações Sociais: Tecnologia, Cultura, Religião e Espiritualidade". Chama a atenção a presença de religião e espiritualidade no tema central do congresso. Se até recentemente essa área era vista com reservas no âmbito científico, a sua composição com transformações sociais, tecnologia e cultura mostra sua importância.
Até sábado (31), o tema será debatido em 11 atividades com a participação de 45 pesquisadores de instituições do Brasil e do exterior. Comparando com os congressos anteriores, este terá o maior número de atividades científicas sobre espiritualidade e religião.
Seu destaque no presente congresso mostra a importância desse tema para a psiquiatria e contribui muito para a qualificação da atividade profissional. As últimas décadas assistiram ao significativo incremento de estudos científicos de qualidade sobre religiosidade, espiritualidade e saúde mental , publicados nas principais revistas científicas internacionais.
Vale a pena contar a história da inserção da espiritualidade nesses congressos: em 1994, no evento realizado na Pousada do Rio Quente, os professores Uriel Heckert ( UFJF ) e Francisco Lotufo Neto ( USP ) propuseram a primeira atividade reunindo religião e psiquiatria. Na época, predominava a visão de que a religião seria promotora da insanidade. Ao psiquiatra caberia olhá-la com reservas, procurando sinais de doença mental.
O professor Uriel relata: "A repercussão foi expressiva. A sala reservada para a mesa redonda era pequena, acanhada. Ela estava superlotada, com pessoas ainda de fora esforçando-se por adentrá-la. Isso mostrou que o tema era recalcado e desconsiderado, e por isso aflorava com pujança."
Nesta quarta, Uriel e Louise Rocha coordenam a mesa redonda "Momentos Críticos da Clínica Psiquiátrica: em Busca de Sentido e Propósito" , com Alberto Gorayeb (Imip/PE); Guida da Ponte (Cespu/Portugal); Henrique Ribeiro (USP) e Paulo Chenaud (UFBA).
As atividades no Congresso apontam que a religião e espiritualidade já não são relacionadas apenas a doenças mentais, mas são consideradas promotoras do desenvolvimento humano. As pesquisas indicam que a prática da espiritualidade se constituiu num dos maiores preditores de saúde mental e também previne suicídios e adição a drogas, entre outras propriedades.
Em 2014 criou-se a Comissão de Estudos e Pesquisa em Espiritualidade e Saúde Mental na Associação Brasileira de Psiquiatria, então coordenada pelo professor Alexander Moreira-Almeida (UFJF). A partir dela a temática foi aprofundada, inclusive em intercâmbios internacionais.
"Estudos demonstram que existe um 'gap' entre o interesse demonstrado pelas pessoas de poder falar sobre suas crenças e necessidades espirituais com os profissionais de saúde, e o quanto esse tema é abordado nos atendimentos," comenta o psiquiatra Bruno Mosqueiro ( UFRGS ), atual coordenador desta comissão.
Os psiquiatras terão acesso ao livro "Espiritualidade e Saúde Mental: das Evidências Científicas para a Prática Clínica" (Editora Manole), cujo lançamento se dará nesta quinta-feirae (29). Trata-se do primeiro manual em português. Editado pelos professores Alexander Moreira-Almeida e Bruno Mosqueiro, seu objetivo é orientar a integração da espiritualidade na clínica em saúde mental, de modo ético e baseado em evidências.
Este manual preenche uma lacuna. Ainda nesta semana ouvi pacientes expressarem que nem sempre se sentem compreendidos por seus terapeutas quando tocam em espiritualidade. Nosso povo respira religiosidade e espiritualidade por todos os poros. A pesquisa mais abrangente já realizada no Brasil, publicada em setembro pelo Iser , constatou que 98% dos brasileiros têm fé.
Os psiquiatras brasileiros estão de parabéns por se debruçarem sobre esta preciosa dimensão no seu evento anual mais importante.