A montagem não tenta apenas homenagear um autor consagrado, mas investigar as origens de sua escrita. Olha para o cotidiano de Cordisburgo para mostrar como a miopia, o isolamento e os hábitos de um menino comum serviram de base para a obra de Guimarães Rosa .
O recorte de tempo é direto: vai do nascimento de Joãozito até sua mudança para Belo Horizonte, aos nove anos. O centro da ação é a venda de secos e molhados de Seo Fulô, em frente aos trilhos do trem. No cenário feito de caixotes móveis, criado por Bruno Anselmo, circulam vaqueiros, tropeiros, bichos e viajantes.
Longe do futebol e das brincadeiras de rua, o garoto aprendeu a ler sozinho aos quatro anos e decidiu registrar o que via. A timidez do menino não vira tristeza, mas exercício de escuta. Ele presta atenção aos sons dos animais e às conversas dos adultos, descobrindo o peso das palavras antes de pensar em virar escritor.
A principal escolha da direção foi evitar o destaque individual: o papel de Joãozito não fica com um só ator. Os nove integrantes do elenco se revezam como o protagonista. O símbolo dessa troca é uma gravata-borboleta —marca do Rosa adulto que aqui vira brinquedo, passando de mão em mão como laço, presilha de cabelo ou fita solta.
Essa divisão do papel também ganha sentido prático e social ao afastar a figura do autor de um único padrão. Quando o menino ganha o corpo de uma atriz trans ou a voz de uma atriz negra, o teatro mostra ao público jovem que a imaginação não depende de privilégio de origem.
O texto dialoga com as obras futuras sem dar aulas. O amigo imaginário do pequeno João é Miguilim. Ao aproximar o autor de seu personagem, a peça trata da miopia de ambos, mostrando que colocar óculos pela primeira vez mudou a forma como viam o mundo. Aparecem ali referências a personagens conhecidos, como Hermógenes e Diadorim. A linguagem de Rosa surge como uma mistura natural entre a conversa da roça e o interesse por dicionários.
A encenação aposta no trabalho artesanal. Em vez de recorrer a efeitos de grandes musicais, apoia-se no próprio palco. Os atores tocam, cantam e contam a história. Os dezenove bonecos criados por Jésus Sêda representam os bichos do cerrado, enquanto a iluminação de Guilherme Bonfanti e os figurinos de Clau Carmo compõem o clima do interior de Minas. A trilha sonora, com viola caipira e sanfona, ajuda a situar a história.
Em cartaz no Teatro do Sesi-SP com entrada gratuita, audiodescrição e Libras, o espetáculo aproxima Guimarães Rosa do público infantil sem simplificar ideias e sem subestimar o público. Mostra que o sertão na obra do autor nunca foi apenas um lugar no mapa, mas uma forma atenta e curiosa de olhar para a vida.