22/10/2026 03h30 Atualizado 22/10/2026 10h04
Um levantamento do Instituto Sou da Paz divulgado na última semana analisou 31.699 cartuchos de fuzil vinculados ao Comando Vermelho (CV), em 29 casos judiciais entre 2018 e 2025. Do total de munições originais de fábrica analisadas, 40,9% eram de fabricação brasileira. Entre as brasileiras, 51,9% apresentavam códigos de rastreabilidade institucional, que indicavam aquisição original pelas Forças Armadas ou por instituições de segurança pública. Os dados reforçam a importância da identificação das munições para investigar desvios e rastrear as fontes de abastecimento da facção.
A marcação de munições — códigos, números ou símbolos gravados, que apontam o fabricante, o calibre, o lote de produção e o comprador original — voltou ao debate após o senador e concorrente à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) ser questionado, durante sabatina na TV Globo, sobre um projeto de lei (PL 3.723/2019) que visa revogar a obrigatoriedade da exigência das marcações. Especialistas destacam que a proposta apresenta riscos à elucidação de crimes.
Veja o que se sabe sobre câmera encontrada por alunas em banheiro de colégio cívico-militar do Paraná Justiça torna réus donos da Voepass e mais 11 ex-funcionários por acidente que matou 62 pessoas
Apesar da possibilidade de rastreamento, o levantamento do Sou da Paz identificou limitações para reconstruir a origem das munições. Dos 119 códigos de rastreabilidade encontrados nos laudos analisados, apenas 34 puderam ser associados à instituição compradora. Nos demais casos, não foi possível identificar o comprador legal de origem, o que evidencia as dificuldades para acompanhar o percurso desse material até o crime organizado.
Segundo a professora de Direito Penal da Universidade Mackenzie Jenifer Moraes, a retirada da obrigatoriedade da marcação das munições pode dificultar ainda mais as investigações criminais. A identificação e o registro de vestígios como uma bala integram a cadeia de custódia — conjunto de procedimentos que documentam o percurso de uma prova, da coleta ao armazenamento e à análise pericial, para preservar sua integridade. No caso das munições, as marcações gravadas nos estojos permitem identificar o lote de fabricação e, a partir dos registros correspondentes, rastrear a origem do material e a instituição que o adquiriu originalmente. Essas informações podem ajudar os investigadores a apurar se munições encontradas em uma cena de crime foram desviadas de estoques das forças de segurança ou das Forças Armadas.
— No que diz respeito à questão balística, o rastreio a partir da identificação é fundamental. É possível saber se a bala derivou de um determinado lote que foi desviado, por exemplo, da Polícia Civil. A falta de obrigatoriedade dessas marcações representa um perigo para as investigações, inclusive contra organizações criminosas. Um inquérito sobre o traslado das munições com as organizações criminosas pode demorar anos, e sem essa identificação, não é possível saber como estão sendo abastecidas e quem está realizando o desvio — explica Moraes.
'Não existe, até o momento, uma justificativa plausível'
A pesquisa também mostrou que 40,9% das munições apreendidas pela polícia durante os anos analisados eram de fabricação brasileira. A diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, destaca que o Brasil exige a marcação no estojo das munições. Segundo ela, o estudo identificou que parte das munições apreendidas com o Comando Vermelho (CV) havia sido originalmente destinada às forças de segurança.
— Isso é importante para desvendar casos, por exemplo, como o da juíza Patrícia Acioli, assassinada com 21 tiros em 2011. O crime foi desvendado porque as munições usadas pelos assassinos foram rastreadas, identificando que tinham sido de um lote vendido para a Polícia Militar do Rio e desviado. Já no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, identificou-se, a partir do número de lote das munições, que foram vendidas para a Polícia Federal. A marcação é essencial para as forças de segurança militares, para saber quem comprou a munição e fortalecer as nossas polícias — destaca Ricardo.
A proposta de retirar a obrigatoriedade vai contra uma recomendação de 2023 da Organização das Nações Unidas (ONU), que orientava que países adotassem a marcação e a rastreabilidade das armas para prevenir o desvio por facções criminosas.
— Não existe, até o momento, uma justificativa plausível para acabar com esse rastreio do ponto de vista político-criminal. Não existe nenhum empecilho para que esse rastreio exista, muito pelo contrário, ele é extremamente necessário para resolução de crimes — pontua Moraes.
*Estagiária sob supervisão de Alfredo Mergulhão
Presidente americano usa recursos arrecadados por seu principal super PAC para impulsionar candidatos republicanos e preservar o controle do Congresso
Iniciativa já havia sido adotada no primeiro turno das eleições
Conhecido por ostentar nas redes sociais, Gustavo Gonçalves Porto Melo estava, segundo os investigadores, com pistola de policial federal aposentado
Índice de qualidade do ar chegou a 226 nesta quinta-feira, nível considerado ruim; monumentos e bairros ficaram encobertos por uma mistura de fumaça e partículas poluentes
Mais de 500 personalidades foram selecionadas para votar nas 10 melhores séries lançadas a partir de 2000. Entre os votantes, estão nomes como Lena Dunham, Elisabeth Moss, Adam Scott e Bryan Cranston
Desempenho está relacionado ao crescimento da economia brasileira, aumentos de imposto
Saiba quando será o segundo turno das Eleições 2026, com data e horário oficial do TSE
De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a condição se trata de uma infecção grave na área do rosto provocada por uma bactéria
O simples fato de mudar a cadeira de lugar fez com que os médicos do hospital se sentassem oito vezes mais frequentemente
Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.