Em 31 de outubro de 1996, 99 pessoas morreram na queda de um Fokker 100 da TAM, segundos após decolar do aeroporto de Congonhas. O voo 402 seguiria para o Rio de Janeiro .
Um dos trens de pouso arrebentou a parede e entrou no quarto dos pais de Silva, Arnaldo e Conceição. Foi parar na cama do casal, que havia acordado minutos antes e se preparava para o café da manhã.
"Eles ainda não haviam chegado à escada [que leva à cozinha] quando ouviram o barulho. Meu pai pensou que era um transformador estourado e demorou para saber o que havia acontecido", conta.
Silva morava no número 65 da rua Luís Orsini de Castro . Sua casa era geminada com a dos pais, onde ele vive hoje. Professor na época, estava em sala de aula quando o irmão telefonou ao colégio para avisar que um avião havia caído lá.
Com a frente do sobrado em chamas, o casal escapou por uma passagem entre os imóveis. Arnaldo sofreu queimadura em um braço, e ambos foram levados ao hospital. O filho passou o dia do outro lado da rua e só reencontrou os pais no fim da tarde. "Minha mãe nunca mais conseguiu ficar no escuro."
As edificações atingidas pelo avião e pelas chamas foram recuperadas. As casas da família Silva acabaram reformadas após cerca de 15 anos de disputa judicial por indenização.
Não mais do que meia dúzia dos moradores daquela época ainda moram na rua. Muitos mudaram pelo trauma ou pela desvalorização dos imóveis, diz o jornalista.
As árvores arrancadas pelo impacto foram substituídas por outras no décimo aniversário do acidente. Elas fazem sombra na rua onde, no dia da tragédia, quase uma centena de corpos ficou enfileirada.
"Foi feito um improviso com sacos plásticos para preservar os corpos e para que as pessoas não ficassem chocadas com aquelas imagens", diz Jefferson Mello, 63, coronel da reserva do Corpo de Bombeiros.
Tenente na época, ele passou 24 horas no local à procura de sobreviventes e no resgate de corpos nos escombros. Voltou pela primeira vez em 30 anos no último dia 23, com a Folha . "Era um cenário de guerra", define.
"Ele sobrevoou a escola e foi destruindo as residências. Havia pedaços do avião por todos os lados e, infelizmente, os corpos foram se espalhando ao longo da rua", afirma, durante caminhada com a reportagem para apontar o que lembrava.
A Escola Estadual Dr. Ângelo Mendes de Almeida fica a menos de 100 metros da queda. "Vira e mexe a gente ia até lá naquele dia para saber se estava tudo bem, porque ficávamos imaginando aquelas crianças pequenas. Não sei qual foi a dinâmica [dos pilotos] para que ele [o avião] não tivesse caído na escola."
O então promotor Mário Luiz Sarrubbo, 63, que anos depois comandaria o Ministério Público de São Paulo, soube do acidente pelo rádio do carro, após levar os pais ao aeroporto de Guarulhos, de onde embarcariam para a Argentina. Viu a fumaça ao chegar ao fórum do Jabaquara, onde trabalhava.
No mesmo dia, o então procurador-geral de Justiça Luiz Antônio Marrey avisou que Sarrubbo acompanharia o inquérito da Polícia Civil. À tarde, ele estava no local.
Entre as imagens que guarda está a de um celular que tocava em meio aos destroços.
"Eu vi e falei: 'Meu Deus do céu, era o celular de uma pessoa que, diante de toda essa tragédia, ainda estava funcionando'", conta.
Naquela manhã, Sandra Assali deu um beijo no marido, o cardiologista José Rahal Abu Assali, disse até já na porta do aeroporto, e foi embora. Afinal, ele voltaria no final daquele dia, pois era apenas mais uma viagem de trabalho, como tantas outras. Mas o médico de 45 anos não voltou.
O relato está em uma sequência de textos que ela tem publicado nos últimos dias em rede social por causa dos 30 anos da queda do avião. "Esse é um assunto sem fim. A gente sempre vai precisar falar sobre essa questão", diz.
Sandra é presidente da Abrapavaa (Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos), organização criada a partir do acidente que matou seu marido. A organização tornou-se referência mundial no acolhimento de pessoas que perderam familiares em situações parecidas.