Entidades que representam servidores públicos começaram a reavaliar o cenário após o primeiro turno, diante da perspectiva de um Congresso que toma posse em fevereiro de 2027 com menos parlamentares ligados à defesa do funcionalismo.
Para dirigentes e líderes de associações, isso deve dificultar a aprovação de propostas e a rejeição daquelas que contrariam os interesses das entidades, como uma nova tentativa de reforma administrativa .
Não estarão no Congresso os senadores Paulo Paim ( PT -RS) e Zenaide Maia ( PSD -RN) e os deputados Erika Kokay (PT-DF) e André Figueiredo ( PDT -CE), este último relator do projeto de lei que cria regras para as negociações trabalhistas entre funcionários e Estado, uma das principais demandas das entidades.
Membros da atual Comissão de Administração e Serviço Público também ficaram de fora: Alexandre Lindenmeyer (PT-RS), Luiz Gastão (PSD-CE) e Paulo Lemos (PT-AP).
Alguns aliados históricos das categorias mantiveram as cadeiras. É o caso de Rogério Correia (PT-MG) e Alice Portugal (PCdoB-BA).
Para Fernanda de Melo, do República.org, não é possível dizer que esses parlamentares perderam por defenderem os servidores. Ela afirma ainda que é cedo para dizer que os servidores estarão sem interlocução. "Vai existir um trabalho de recomposição para trazer novos nomes", afirma.
Na avaliação dela, a principal perda é de experiência. Os parlamentares que saem conheciam as demandas das categorias, os autores dos projetos e os sindicatos. Ela também diz que algumas carreiras específicas podem ter saído fortalecidas, como as da segurança pública.
Sérgio Ronaldo da Silva, secretário-geral da Condsef, a principal confederação de servidores do Executivo federal, diz que a entidade aguarda o resultado da disputa presidencial para fechar sua avaliação.
Segundo ele, a confederação prepara um perfil de cada parlamentar eleito para atuar na próxima legislatura.
Ele lembra que durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), houve uma proposta de reforma administrativa que não avançou. "Ele [Bolsonaro] tinha todos os instrumentos para aprovar o que quisesse, e a estratégia foi mapear quem era contra e quem era a favor e combinar pressão no Congresso com atos públicos".
Alison Souza, presidente do Sindilegis (sindicato dos servidores do Legislativo federal e do TCU), diz que a próxima legislatura terá menos representantes de trabalhadores e mais empresários.
Segundo Souza, a força do PL não deve ser lida como bloqueio automático das pautas dos servidores, porque muitos de seus parlamentares vieram do centro e a política brasileira é pouco ideológica.
Paulo Paim, que está de saída do Senado , afirma que as categorias precisam aprender a se comunicar direto com a população nas redes sociais. O senador diz que, nas últimas eleições , a trajetória dos candidatos perdeu peso para a capacidade de mobilizar seguidores e algoritmos.
"Os sindicatos, da área privada e pública, não podem mais ir com megafone à porta de fábrica. Eu venho desse mundo, isso não resolve mais", diz.
Souza diz que o desafio é mostrar à sociedade o trabalho dos servidores sem que essa divulgação seja confundida com propaganda do governo da vez. Ele cita o Pix , criado por servidores do Banco Central , mas cuja divulgação fica a cargo dos governos.