Novo chefe, equipe reformulada, cargo diferente, sistema que muda daqui a uns dias. Mesmo quando a gente pediu por aquela mudança, bate um frio na barriga —e, às vezes, a vontade de que tudo continue como estava.
Na edição de hoje, converso com duas psicólogas para entender de onde vem essa resistência e o que dá para fazer com ela.
Querer e não querer. Resistir à mudança costuma ser lido como inércia. Para Maraci Alves, professora do departamento de psicologia da PUC-Rio e coordenadora do Laboratório de Saúde Mental e do Trabalho, a leitura é outra: quase todo mundo deseja mudar algo na vida ou na situação em que está, mas mecanismos psicológicos atrapalham esse desejo.
Um deles é o hábito . Rotinas que nascem para atender a uma necessidade passam a ser repetidas de forma mecânica, mesmo quando essa necessidade já não existe.
Outro é a "ilusão de impotência" , a crença inconsciente e rígida de que não se tem controle ou recursos para mudar a própria vida. Segundo Alves, funciona como defesa: ao se convencer de que não há o que fazer, a pessoa se protege do medo do fracasso e da responsabilidade pelas próprias escolhas.
Há ainda a autodesconfiança , aquela voz interna que diz "você não vai conseguir, isso não é pra você" e faz a pessoa desistir antes de tentar.
Sem mapa. Desirée Cassado, psicóloga e professora na The School of Life Brasil, põe a necessidade de segurança na origem do medo.
"Gostamos de saber onde estamos, o que vai acontecer e como devemos agir. Quando alguma coisa muda, perdemos temporariamente essas referências", diz.
Toda mudança envolve alguma perda, mesmo a desejada. Um novo emprego pode trazer crescimento, mas também deixar para trás rotina, relações e uma forma de trabalhar já dominada.
Por isso, afirma Cassado, é comum sentir medo e animação ao mesmo tempo. E a resistência nem sempre indica rigidez: pode mostrar que falta informação ou que há algo importante que a pessoa não quer perder.
Balanço das horas. Há também um descompasso de tempo. Uma mudança pode ser anunciada em um dia, mas a adaptação emocional pode levar muito mais.
"Existe um período em que o antigo já não funciona como antes, mas o novo ainda parece estranho", diz Cassado. Um sentimento que, certamente, o leitor já reconheceu, não?
Nessa fase, segundo ela, são necessários informação, apoio, espaço para perguntas e permissão para experimentar e errar.
Não é só com você. Alves lembra que o contexto pesa. O medo de sanção ou da pressão dos colegas pode levar a pessoa a se manter no que conhece. E, quando a mudança envolve valores claros para a pessoa, oferecer compensação financeira pode aumentar a resistência: ela se sente "subornada" em sua própria moralidade. Ou seja, a reação de cada um depende também de como avalia o contexto em que a mudança acontece.