Alerta levou à troca no comando da instituição, à prisão de executivos e a um movimento por impeachment de Peña
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Buenos Aires Nos últimos anos, sobretudo após receber o selo de bom pagador, o Paraguai virou sinônimo de baixos impostos, estabilidade econômica e ambiente favorável aos negócios.
Um escândalo financeiro nesta semana, no entanto, põe em dúvida a solidez de um dos principais bancos digitais do país, com 2,9 milhões de clientes.
O banco central do Paraguai determinou a intervenção no banco digital Ueno Bank e o início de um procedimento de resolução bancária, que bloqueia todos os ativos e passivos da instituição até que seja definido o destino desses recursos e em que medida serão cumpridas as obrigações do banco.
A decisão foi anunciada nesta terça-feira (3), por unanimidade pela diretoria do BC, e levou à suspensão imediata de todos os serviços do banco.
Clientes relataram que não conseguiam fazer operações em caixas eletrônicos nem acessar os serviços bancários pela internet.
O índice de solvência do Ueno, indicador que mede a capacidade de uma instituição financeira de absorver perdas, caiu para 5,56%, menos da metade do mínimo regulatório no país (12%).
Uma série de investigações encontrou problemas na avaliação de risco de crédito, inconsistências nas informações financeiras usadas para aprovar empréstimos e operações com empresas relacionadas aos acionistas do banco.
Segundo o então presidente do BC, Carlos Carvallo, após meses de investigação também foram identificados empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo proprietário do banco.
O Ueno Bank pertence ao Grupo Vázquez, liderado pelo empresário paraguaio Federico Miguel Vázquez, que é o principal acionista do grupo e figura como fundador e controlador da instituição.
Um dos principais bancos do Paraguai, ele administra mais de US$ 850 milhões (cerca de R$ 4,7 bilhões) em recursos públicos, incluindo do Instituto de Previdência Social, responsável pelo sistema estatal de aposentadorias.
Um problema no banco pode afetar os recursos relacionados a aproximadamente 32 mil aposentados.
O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai cobre depósitos de até 228,3 milhões de guaranis por pessoa (R$ 205 mil), o equivalente a 75 salários mínimos. Segundo a autoridade monetária local, o Fundo poderia cobrir 97% dos correntistas do banco.
Os clientes com depósitos acima desse limite terão de aguardar o balanço definitivo elaborado pela Superintendência de Bancos, que irá avaliar até que ponto será possível cobrir os valores superiores.
O banco central do país assume o controle da instituição e deve aplicar sanções aos responsáveis.
Em nota, o BC paraguaio afirmou que a situação do Ueno Bank é um caso pontual e isolado e que o sistema financeiro do país, de modo geral, é sólido e saudável.
Em um pronunciamento, o presidente Santiago Peña disse ter pedido a renúncia de Carvallo do comando do BC —o que ocorreu na terça-feira— e nomeou como substituto Raúl Vera Bogado, que já foi presidente do órgão.
Nesta quarta-feira (4), Peña sancionou uma lei, aprovada rapidamente pelo Congresso, que "permitirá aos poupadores receber, no menor prazo possível, uma parte dos recursos do fundo garantidor, para que o dinheiro volte às mãos de seus legítimos proprietários".
A norma estabelece que os pagamentos sejam realizados nos próximos cinco dias.
Nas redes sociais, ele disse entender as incertezas causadas por uma decisão como essa. "A prioridade do governo será proteger o fruto desse esforço, com medidas concretas e rápidas." E acrescentou: "A todos os setores políticos, peço que coloquem o interesse dos correntistas antes de todo o resto".
Peña, eleito em 2023, nomeou Carvallo, então presidente-executivo do Ueno Bank, para comandar o banco central do Paraguai. A decisão foi criticada na época por eventual conflito de interesses .
Peña também foi questionado sobre seus laços comerciais anteriores com o grupo dono da instituição. Em abril de 2025, o presidente declarou à imprensa paraguaia que havia deixado de ser acionista da Ueno Holding em março daquele ano.
O jornal ABC Color informou que a participação de Peña na holding era de 1,58% do capital do banco.
O BC, por sua vez, afirmou que Carvallo não participou das decisões do órgão regulador sobre o banco de cuja diretoria havia feito parte.
Oito executivos de bancos foram presos. Ricardo Estigarribia, pré-candidato à Presidência pelo PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico), principal força de oposição, anunciou que a legenda pretende apresentar ao Congresso um pedido de impeachment de Peña e do vice-presidente, Pedro Alliana.
"Mexeram no dinheiro de milhares de trabalhadores que ralaram a vida inteira, e com o dinheiro das pessoas não se brinca. Por isso, o presidente Peña e o vice-presidente Alliana precisam sair, e deve haver punição para todos os responsáveis", escreveu Estigarribia, no X.
Em nota, Alliana, que é cotado para substituir Peña pelo Partido Colorado (força hegemônica no país), disse que o Executivo deve manter uma posição firme para punir os responsáveis e proteger os correntistas do Ueno.