Enem tem recorde de inscritos concluintes do ensino médio com desafio de garantir participação

Mais de 2,3 milhões de alunos do último ano do ensino médio estão inscritos para fazer o Enem 2026, que começa neste domingo (8) . É a maior participação de concluintes desde 2009, quando o exame passou a ter seu formato atual. O desafio, no entanto, é garanti

Por Admin ·

Enem tem recorde de inscritos concluintes do ensino médio com desafio de garantir participação

O crescimento foi impulsionado após o Ministério da Educação adotar a inscrição automática dos estudantes concluintes do ensino médio da rede pública e fazer a ampliação de 10 mil novos locais de aplicação de prova.

Com as mudanças, quase metade (47%) dos mais de 5,05 milhões de inscritos estão no 3º ano dessa etapa. Até então, a participação mais alta desses estudantes havia ocorrido em 2025 e 2022, quando eles representaram 38% do total. Além disso, a grande maioria desses concluintes (87,3%) estuda em escolas públicas.

O objetivo do MEC com a inscrição automática é incluir o Enem no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) , como uma das formas de avaliar a qualidade da educação nas redes de ensino do país.

Assim, o Enem passa a ter uma segunda função para além da seleção ao ensino superior: avaliar o aprendizado dos alunos ao fim do ensino médio.

Como o Saeb é aplicado a cada dois anos, a ideia é que com o uso do Enem, realizado anualmente, o país possa ter diagnósticos mais frequentes da qualidade do ensino. Além disso, se espera maior engajamento dos alunos para fazer a avaliação —uma vez que não há nenhuma gratificação ou benefício direto para quem faz o Saeb.

Para especialistas, a possibilidade de que mais alunos façam o Enem é sempre positiva, uma vez que o exame é visto como uma espécie de termômetro da esperança dos jovens brasileiros . No entanto, avaliam que apenas a inscrição automática não garante o engajamento e comparecimento, sobretudo, dos que estudaram em escola pública.

Também dizem que uma baixa participação no Enem pode levar ao desperdício de recursos públicos.

O MEC não divulga informações sobre o custo da abstenção, mas no Enem 2020, realizado durante a pandemia, quando a taxa atingiu nível recorde (com 51,5% dos inscritos não comparecendo à prova) o governo Jair Bolsonaro (PL) estimou um desperdício de R$ 332,5 milhões, um custo de cerca de R$ 117 por candidato.

"O jovem prestar o Enem é sempre um bom sinal, significa que ele acredita em seu potencial e tem vontade de continuar estudando, de entrar em uma universidade. A inscrição automática pode ser um facilitador, mas não é um mecanismo que sozinho irá garantir mais engajamento", diz Maria Inês Fini, criadora da primeira versão do Enem.

Para ela, uma forma de garantir a participação do estudante no exame seria articular uma ação do MEC com as secretarias estaduais de Educação (responsáveis por mais de 82% das matrículas de ensino médio no país) para criar algum tipo de incentivo à realização da prova. "Poderia se pensar em, por exemplo, vincular a participação a algum bônus no boletim escolar dos alunos."

Para Andressa Pellanda, coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a estratégia de inscrição automática é um avanço importante. "Ao retirar a barreira 'burocrática' da inscrição, o Estado assumiu a responsabilidade de mobilizar o estudante, em vez de esperar que ele, sozinho, superasse obstáculos como falta de informação, dificuldades de acesso ou com o sistema."

Ela diz ainda que a ampliação dos locais de prova elimina barreiras logísticas históricas, com a inclusão de muitos novos municípios.

Pellanda afima que a média da taxa de abstenção do exame tem se mantido alta nos últimos anos, em torno de 25%. Por isso, uma possível elevação desse índice não representaria necessariamente um fracasso da inscrição automática.

"O ponto-chave é que a estratégia aumenta o universo de inscritos. Se a taxa percentual de abstenção se mantiver estável, o número absoluto de estudantes presentes tende a ser maior. Uma possível alta da abstenção não invalida a inscrição automática. Ela escancara que a inscrição é apenas o primeiro passo. A abstenção é um termômetro de desigualdades que permanecem em nosso sistema educacional", diz.

Como é a primeira vez que o Enem será incorporado ao Saeb, o exame deste ano servirá como um teste experimental para a avaliação, antes de se tornar obrigatório no próximo ano. Por isso, o ministro da Educação, Leonardo Barchini, afirmou ter confiança de que será possível alcançar uma taxa de participação de 70% dos concluintes inscritos.

No ano passado, a média de participação dos concluintes de escola pública foi de 55%. Para que o exame possa avaliar com precisão a qualidade das redes de ensino do país, é necessário que a participação atinja ao menos 80%.

"Nos últimos anos, o MEC conseguiu conscientizar as secretarias estaduais de Educação sobre a importância de ações para estimular os alunos a fazerem o Enem. São Paulo, Ceará, Goiás e vários outros estados estão adotando providências, por exemplo, para garantir o deslocamento gratuito dos estudantes até os locais de prova", diz Maria Helena Guimarães de Castro, especialista em avaliação de políticas públicas e que foi secretária-executiva do ministério no governo de Michel Temer ( MDB ).

Neste ano, pela primeira vez, os estudantes da rede estadual de São Paulo terão transporte gratuito nos dias do Enem para se deslocarem aos locais de prova. Segundo o governo Tarcísio de Freitas ( Republicanos ), a iniciativa deve atender cerca de 70 mil alunos em 500 municípios —onde as prefeituras não haviam previsto a gratuidade do transporte coletivo nos dias do exame.

Com essas ações, o governo Tarcísio pretende ampliar a presença dos estudantes no exame. Em 2023, a rede estadual de São Paulo teve a segunda menor participação de alunos da rede pública , com 34% comparecendo à prova —a menor taxa foi em Roraima, com 29%.