Enem 2026: veja 5 exemplos de redação nota mil para se preparar para a prova

27/10/2026 10h33 Atualizado 27/10/2026 10h35 A menos de duas semanas do Enem, cinco professores convidados por O GLOBO elaboraram redações nota mil a partir de possíveis temas para a prova. Além de servir de inspiração para os candidatos,

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Enem 2026: veja 5 exemplos de redação nota mil para se preparar para a prova

27/10/2026 10h33 Atualizado 27/10/2026 10h35

A menos de duas semanas do Enem, cinco professores convidados por O GLOBO elaboraram redações nota mil a partir de possíveis temas para a prova. Além de servir de inspiração para os candidatos, os textos trazem exemplos de argumentação e de como usar repertório que podem ajudar os estudantes a se preparar para o primeiro dia do exame, em 8 de novembro.

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Tema: Caminhos para o incentivo à leitura na sociedade brasileira

Autor: Nathan Sena, professor e coordenador de Linguagens do Elite Rede de Ensino, parceiro da Amplia Plataforma de Ensino

O educador Paulo Freire, em A Importância do Ato de Ler, afirma que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, destacando a leitura como processo indissociável da formação da consciência crítica do indivíduo. Apesar dessa centralidade, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (Instituto Pró-Livro, 2024) revela queda expressiva no número médio de livros lidos pelos brasileiros, sobretudo entre os mais jovens. Diante desse cenário, torna-se urgente identificar os entraves que afastam a população do hábito leitor e traçar caminhos capazes de revertê-los.

Sob esse aspecto, a desigualdade de acesso a acervos e espaços de leitura compromete a formação de leitores no país. Embora a Política Nacional de Leitura e Escrita (Lei nº 13.696/2018) estabeleça diretrizes para a democratização do livro, a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC/IBGE) aponta que uma parcela significativa dos municípios brasileiros ainda não conta com biblioteca pública em funcionamento. Esse vazio institucional atinge com mais força estudantes de escolas públicas periféricas, que dependem quase exclusivamente do ambiente escolar para o contato sistemático com a leitura — contato que, sem investimento, torna-se raro ou inexistente.

Ademais, a concorrência do livro com o consumo digital de conteúdos curtos aprofunda esse distanciamento entre os jovens e o hábito de ler. Segundo o escritor norte-americano Nicholas Carr, autor de A Geração Superficial, o uso constante de plataformas construídas para reter a atenção em poucos segundos reconfigura os padrões cognitivos do leitor, favorecendo um processo de dispersão pouco compatível com a leitura prolongada e reflexiva que a formação crítica exige. Contudo, seria reducionista tratar a tecnologia apenas como vilã: aplicativos de leitura, audiolivros e clubes virtuais de leitura mostram que o ambiente digital também pode se tornar aliado, desde que haja mediação pedagógica consciente e políticas públicas capazes de direcionar esse potencial.

Fica evidente, portanto, que os caminhos para o fortalecimento da leitura no Brasil exigem ação conjunta entre Estado e sociedade. Cabe ao Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Cultura, ampliar e equipar bibliotecas escolares e comunitárias em todo o território nacional, por meio de editais de fomento ao acervo e de parcerias com plataformas digitais de leitura, com a finalidade de reduzir a desigualdade de acesso ao livro e fortalecer a formação de leitores críticos e autônomos. Para isso, especificamente, é necessário capacitar mediadores de leitura nas escolas e estabelecer metas mínimas de acervo por unidade, fiscalizadas por conselhos municipais de educação — assegurando, assim, que o direito à leitura deixe de ser privilégio de poucos e se torne, de fato, patrimônio de todos os brasileiros.

Comentário do autor: "Um dos principais méritos dessa redação é a articulação dos repertórios socioculturais à argumentação, fundamental em um texto nota mil do Enem. Paulo Freire, por exemplo, introduz a discussão, indo além de uma citação de autoridade. A desigualdade de acesso aos livros e aos espaços de leitura evidencia que a formação de leitores depende de condições concretas, tornando o problema mais palpável. A abordagem do consumo de conteúdos curtos também concretiza o tema sem responsabilizar apenas a tecnologia pelo afastamento dos livros. A análise destaca como o consumo acelerado de informações dificulta uma relação reflexiva com a leitura, reconhecendo que os recursos digitais também contribuem para a formação de leitores quando integrados intencionalmente às práticas educativas".

Tema: Desafios para a inclusão de pessoas neurodivergentes na educação brasileira

Autor: Thiago Braga, gestor de Linguagens do Colégio pH

Em 2010, a cientista norte-americana Temple Grandin, diagnosticada com autismo ainda na primeira infância, afirmou em uma conferência que o mundo precisa de todos os tipos de mente. A frase, dita por quem fez da própria singularidade uma carreira científica, contrasta com a realidade brasileira: segundo o Censo Escolar de 2024, as matrículas de estudantes com transtorno do espectro autista cresceram 44% em um ano e passaram de 900 mil, mas a escola que os recebe ainda é concebida para um único perfil de aluno. Nesse cenário, a inclusão de pessoas neurodivergentes na educação esbarra no diagnóstico tardio, que adia os apoios devidos, e na padronização pedagógica, que converte a diferença em fracasso e prolonga a exclusão até o mercado de trabalho.

Em primeiro lugar, o reconhecimento tardio das condições neurodivergentes compromete o direito à aprendizagem. A Lei 14.254, de 2021, determina que estudantes com dislexia ou TDAH recebam acompanhamento específico da forma mais precoce possível e que os professores sejam formados para identificar os primeiros sinais. Na prática, contudo, muitos docentes não dispõem dessa formação, e o aluno que lê devagar, se dispersa ou evita o contato visual é lido como desinteressado, até que o atraso se acumule a ponto de exigir um laudo. O psicólogo soviético Lev Vigotski já advertia que a criança com desenvolvimento atípico não é menos desenvolvida que as demais, mas desenvolvida de outro modo, e que o obstáculo real nasce da resposta do meio a essa diferença. Assim, cada ano sem identificação é um ano em que a escola cobra no momento em que deveria apoiar, e a lacuna pedagógica se consolida.

Além disso, mesmo com o diagnóstico em mãos, a padronização do ensino transforma a singularidade em barreira. A Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, com força constitucional no Brasil desde 2009, e a Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, exigem adaptações razoáveis e desenho universal para a aprendizagem, isto é, um conjunto de práticas pensadas para todos os perfis de aluno. Entretanto, aulas expositivas de ritmo único, avaliações cronometradas e ambientes ruidosos permanecem como regra, e o estudante aprende a mascarar as próprias necessidades para caber no modelo estabelecido. O custo dessa invisibilidade aparece adiante: o Censo de 2022 do IBGE, o primeiro a contabilizar o autismo, registrou 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados e mostrou que poucos deles concluem o ensino médio ou chegam ao ensino superior em comparação com a população geral. Sem trajetória escolar completa, a inserção profissional se torna improvável, e a exclusão iniciada na sala de aula se repete na entrevista de emprego.

Portanto, incluir pessoas neurodivergentes exige que o sistema educacional, e não o aluno, holisticamente se adapte. Para isso, o Ministério da Educação, órgão responsável pela gestão do ensino no país, deve instituir um programa nacional de formação continuada em desenho universal para a aprendizagem e em identificação precoce de sinais de neurodivergência, por meio de parceria com o Ministério da Saúde e com as universidades públicas, a fim de que as escolas reconheçam as diferenças antes que elas se convertam em atraso formativo irrecuperável. Ademais, cabe ao Ministério do Trabalho e Emprego, em articulação com as redes de ensino médio e técnico, fomentar programas de transição entre escola e emprego para jovens neurodivergentes, de modo que a trajetória de inclusão não seja interrompida na porta das empresas. Somente assim, então, o país terá todos os tipos de mente sobre as quais Temple Grandin falou.

Comentário do autor: Repare que na conclusão a tese é retomada em uma frase de síntese ("que o sistema educacional, e não o aluno, holisticamente se adapte"). A proposta principal reúne os cinco elementos exigidos na Competência 5: agente (Ministério da Educação), detalhamento (responsável pelas diretrizes da educação básica), ação (programa nacional de formação continuada), meio (parceria com o Ministério da Saúde e as universidades públicas) e efeito (reconhecer a diferença antes que vire atraso). A segunda proposta responde ao desdobramento profissional discutido no segundo desenvolvimento. O fecho retoma Grandin e dá ao texto estrutura circular.

Tema: Desafios para a valorização da produção cultural brasileira diante da hegemonia do consumo cultural estrangeiro

Autor: Célio dos Santos Saraiva, professor do Elite Rede de Ensino, parceiro da Amplia

Em 1928, Oswald de Andrade publicou o “Manifesto Antropófago”, no qual defendia que o artista brasileiro devorasse as influências estrangeiras para convertê-las em criação própria. Quase um século depois, essa proposta segue distante da realidade, visto que a produção cultural do país disputa espaço, em condições desiguais, com obras importadas. Esse desequilíbrio decorre de uma mentalidade que enxerga o estrangeiro como superior e da lógica de mercado que orienta a circulação cultural.

Em primeiro lugar, o dramaturgo Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata” para designar a inferioridade que o brasileiro se atribui diante do resto do mundo. Esse sentimento, herdado da formação colonial, aparece no consumo cultural quando obras nacionais são associadas, de antemão, à baixa qualidade, sendo essa uma percepção contradita pelo reconhecimento ratificado e marco histórico da premiação do longa “Ainda Estou Aqui” como melhor filme internacional no Oscar 2025. Desse modo, enquanto esse olhar não for revisto, a cultura do país continuará limitada por um preconceito anterior à própria obra.

Além disso, a hegemonia estrangeira se sustenta em mecanismos econômicos. Segundo Theodor Adorno e Max Horkheimer, a indústria cultural converte a arte em mercadoria padronizada, voltada ao lucro. No ambiente digital, essa lógica se intensifica, pois os algoritmos das plataformas tendem a favorecer conteúdos de grandes conglomerados internacionais, capazes de investir maciçamente em divulgação. Consequentemente, artistas independentes raramente alcançam visibilidade, o que contraria o artigo 215 da Constituição Federal, o qual atribui ao Estado o dever de incentivar a difusão das manifestações culturais.

Portanto, cabe ao Ministério da Cultura, em parceria com o Ministério da Educação, criar um programa de formação de público, por meio da inclusão de sessões de cinema, leitura e música brasileiras no calendário das escolas públicas, a fim de aproximar os jovens da produção nacional. Paralelamente, o Congresso Nacional deve fortalecer a regulação do streaming, exigindo que as plataformas reservem parte de seus catálogos e áreas de destaque a obras brasileiras independentes, nos moldes da cota de tela dos cinemas. Com essas medidas, a antropofagia de Oswald poderá orientar, de fato, a relação do país com sua cultura.

Comentário do autor: "Repare na amarração do repertório legitimado e produtivo. Eu quis mostrar como o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, conversa perfeitamente com a crítica de Nelson Rodrigues e a análise contemporânea do filme "Ainda Estou Aqui". Na minha visão como autor e professor, o segredo da nota mil no Enem é um planejamento estratégico. Não se trata de escrever difícil, mas de apresentar um projeto de texto que seja transparente, que o leitor perceba o caminho argumentativo desde o projeto inicial até os cinco elementos da proposta de intervenção no final. A produção de um texto nota 1000 exige técnica, repertório vivo e constante treino de coesão".

Tema: A importância do brincar e do acesso a espaços públicos seguros para o desenvolvimento infantil

Autora: Gabriela Macedo, professora de redação do Colégio Pensi

Na consagrada obra em quadrinhos "Turma da Mônica", criada por Mauricio de Sousa, as crianças do Bairro do Limoeiro constroem sua identidade a partir da livre ocupação de ruas e praças com jogos coletivos e atividades lúdicas. Contudo, fora da ficção, a realidade brasileira caminha em sentido oposto, haja vista que a perda gradual dessas vivências compromete a integridade psicossocial dos mais novos, demonstrando a pouca importância dada ao brincar e a falta de acesso a espaços públicos seguros. Dessa forma, a escassez de brincadeiras ao ar livre resulta tanto da omissão estatal quanto da negligência familiar, fatores que sabotam o pleno desenvolvimento infantil no país.

Diante desse cenário, cabe destacar a inércia do Poder Público na garantia de infraestruturas acessíveis para a infância. Nesse viés, o clássico "Capitães da Areia", de Jorge Amado, retrata o abandono a que meninos marginalizados são submetidos nos centros urbanos, sendo compelidos a vagar por uma cidade hostil e desprovida de acolhimento. Nesse contexto, de maneira análoga, a urbanização excludente do Brasil atual perpetua esse descaso ao negligenciar a abertura e a manutenção de praças equipadas e vias seguras para brincadeiras nas periferias urbanas. Para agravar o quadro, a precariedade e as altas tarifas do transporte público tornam inviável o deslocamento de famílias até os poucos parques estruturados, confinando os menores a bairros desprovidos de lazer. Logo, a omissão governamental no planejamento das cidades converte o direito à recreação comunitária em um privilégio excludente, levando muitas crianças brasileiras a viver como o grupo de Pedro Bala.

Ademais, a negligência parental atua como catalisador direto da reclusão das crianças no ambiente privado. Na canção "Criança Não Trabalha", de Arnaldo Antunes e Paulo Tatit, o ato de brincar é exaltado como atividade vital e prioritária para a formação integral dos jovens indivíduos. Todavia, observa-se o confinamento infantil a telas de celulares e televisores, motivado pelo comodismo dos responsáveis em recorrer a dispositivos digitais como uma espécie de babá eletrônica, ignorando que, conforme cita a música infantil, criança precisa de banho de rio, bicicleta e pião. Esse comportamento, alimentado pela sobrecarga de jornadas laborais exaustivas da vida adulta, faz com que a convivência familiar substitua a estimulação motora e a socialização ao ar livre por um sedentarismo passivo em frente aos algoritmos. Assim, ao abdicarem do incentivo à ocupação de espaços coletivos e ao ato de brincar, os próprios núcleos familiares acabam tolhendo o amadurecimento emocional e a criatividade de seus filhos.

Portanto, é evidente a urgência de articular ações para resgatar a infância nos espaços públicos. Para tanto, cabe ao Ministério das Cidades – órgão federal encarregado do desenvolvimento e melhoria das áreas urbanas - implementar o programa "Cidades para a Infância", por meio do direcionamento de verbas orçamentárias à reforma de praças de bairro e ao fechamento periódico de vias públicas para o lazer, além da gratuidade dominical nos ônibus urbanos para famílias com crianças. Essa intervenção terá o propósito de democratizar o acesso comunitário seguro e estimular o convívio físico e motor. Paralelamente, os Centros de Referência de Assistência Social devem conduzir oficinas com as famílias, visando orientar os pais sobre o manejo do tempo de tela e os riscos do isolamento digital. Dessa forma, a vivência coletiva do Bairro do Limoeiro deixará de ser um privilégio dos quadrinhos para se consolidar como direito materializado no cotidiano brasileiro.

Comentário da autora: Considero que esta seja uma redação nota mil principalmente pela clareza do projeto de texto, que apresenta os argumentos centrais — omissão estatal e negligência familiar — na introdução e os desenvolve com exemplos concretos, retomados na proposta de intervenção. Outro destaque é o uso produtivo dos repertórios socioculturais, que devem ser pertinentes ao tema e aos argumentos, como ocorre com o livro Capitães da Areia, relacionado à privação do direito de brincar com segurança e à omissão do Estado. Além disso, a proposta de intervenção deve contemplar os cinco elementos necessários e apresentar soluções para problemas apontados ao longo do texto. Para alcançar esse resultado, é fundamental aliar o domínio da norma-padrão e dos mecanismos de coesão a um planejamento cuidadoso, que permita selecionar argumentos, repertórios e exemplos articulados entre si, garantindo clareza, autoria e fluidez à redação.

Tema: Desafios para a proteção dos direitos trabalhistas na uberização do mercado de trabalho brasileiro

Autora: Camila Leite, professora da Elite Rede de Ensino, parceiro da Amplia

No filme sul-coreano Parasita, dirigido por Bong Joon-ho, a desigualdade social condiciona as oportunidades e as escolhas dos indivíduos, evidenciando como a necessidade de sobrevivência pode submeter os mais vulneráveis a situações desfavoráveis. Fora da ficção, essa problemática também se manifesta no mercado de trabalho brasileiro, uma vez que a expansão dos aplicativos de transporte e entrega, embora amplie as possibilidades de geração de renda, nem sempre assegura condições dignas aos profissionais. Nesse contexto, a dificuldade de adequação da legislação trabalhista às novas relações laborais e a transferência dos riscos econômicos aos próprios trabalhadores constituem entraves à efetiva proteção de seus direitos.

De início, vale destacar que a dificuldade de adequação da legislação trabalhista às novas relações laborais compromete a proteção dos profissionais que atuam por aplicativos no Brasil. De acordo com o artigo 7º da Constituição Federal de 1988, os trabalhadores urbanos e rurais têm direitos fundamentais, como o décimo terceiro salário e as férias remuneradas, garantias associadas à proteção trabalhista. Entretanto, a expansão das plataformas digitais evidencia um desafio para a aplicação desse modelo de proteção, uma vez que esses profissionais são frequentemente classificados como autônomos, embora sua atividade possa estar submetida a mecanismos de controle das empresas. Dessa forma, a ausência de um enquadramento jurídico adequado às particularidades desse trabalho dificulta a garantia de direitos e amplia a vulnerabilidade dos trabalhadores diante das empresas contratantes.

Além disso, a desigualdade socioeconômica contribui para que a autonomia prometida pelas plataformas digitais seja, muitas vezes, mais formal do que efetiva. Essa contradição pode ser analisada à luz de “Vida Loka”, dos Racionais MC’s, obra que retrata as tensões entre a busca por melhores condições de vida e os obstáculos impostos pela desigualdade social. Sob essa perspectiva, quando o acesso a oportunidades profissionais está limitado e a obtenção de renda se torna uma necessidade imediata, a possibilidade de escolher livremente as condições de trabalho também se reduz. No contexto da uberização, essa vulnerabilidade é agravada pelo fato de que motoristas e entregadores precisam custear combustível, manutenção e equipamentos, além de enfrentar oscilações na demanda, sem controlar integralmente os fatores que determinam seus rendimentos. Assim, para compensar ganhos insuficientes, muitos podem prolongar a jornada de trabalho, assumindo individualmente os custos e as incertezas de uma atividade cuja organização é definida, em grande parte, pelas plataformas.

Em vista disso, é necessário enfrentar os entraves à proteção dos trabalhadores que atuam por meio de plataformas digitais no Brasil. Para tal, o Congresso Nacional, em articulação com o Ministério do Trabalho e Emprego, deve elaborar e aperfeiçoar normas específicas para essas novas modalidades de prestação de serviços, por meio de consultas a representantes dos trabalhadores, das empresas e de especialistas, a fim de estabelecer critérios claros de proteção jurídica e de responsabilização empresarial. Essa regulamentação deverá prever a fiscalização de seu cumprimento pelo referido ministério, bem como mecanismos de transparência sobre a remuneração e os descontos aplicados, de modo a reduzir a transferência desproporcional dos custos e dos riscos da atividade aos prestadores de serviço. Desse modo, será possível aproximar a realidade desses trabalhadores das garantias sociais asseguradas constitucionalmente, para que a inovação tecnológica não constitua um obstáculo ao reconhecimento de seus direitos.

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Este quiz foi produzido pelo projeto Irineu, a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.