Mas até quando se pode fugir do tema? Marília Mendonça criou o feminejo , ramo que abraçou o feminismo como estética na música sertaneja. No auge da carreira de Marília, feministas de rede social diziam que ela banalizava o movimento, enquanto acadêmicos e jornalistas se dividiam sobre a transformação da pauta feminista em mainstream comercial. Após sua trágica morte , as vozes dissonantes se calaram.
A série aborda genericamente as questões femininas no canto de Marília, mas evita a polêmica. Marília viveu numa época em que o feminismo estava em alta, entre os mandatos de Dilma, Temer e Bolsonaro. Assim, é lamentável que a série não avance no principal paradoxo musical do nosso tempo: o gênero mais popular do Brasil, frequentemente associado ao bolsonarismo e ao agronegócio, gestou uma cantora que se afeiçoou a pautas historicamente ligadas à esquerda.
O documentário não mostra, mas Marília participou do movimento "#EleNão" em 2018. Recebeu uma saraivada de críticas dos sertanejos e retirou o posicionamento. Sua recuada foi tão sentida que Caetano Veloso gravou um vídeo dizendo compreender a desistência, mas pedindo que ela fosse forte.
O documentário registra que Marília doou oxigênio aos hospitais de Manaus durante um dos períodos mais críticos da pandemia, de forma anônima. A atitude revela uma figura maiúscula. Mas também apequena a produção, incapaz de mostrar que a ação de Marília foi fruto do descaso assassino do governo bolsonarista.
A fuga do tema na série do Prime Video sobre Marília não está sozinha. Todas as recentes produções audiovisuais sertanejas evitam a política. Como pesquisador e autor de livro sobre o tema, já fui convidado a pesquisar para documentários e exposições sertanejos. A orientação é sempre taxativa: "Política não!" Fugindo de um tema tão importante, Susanna Lira fez uma série anódina, capaz de agradar apenas os fãs, e talvez aqueles que esqueceram a dimensão de Marília.
Espanta que uma diretora de filmes tão politizados —como "Torre das Donzelas" (2019) e "Gonzaguinha: da Maior Liberdade" (2026)— tenha abandonado sua arguta visão ao abordar o sertanejo. O primeiro filme documentou as companheiras de cela de Dilma Rousseff durante a sua vida na prisão na ditadura. O segundo documentou a trajetória do politizado Gonzaguinha , um dos arautos da resistência musical à ditadura. Em entrevista à CNN Susanna disse que "depois de Marília, não existem mais limites para as mulheres na música brasileira". A julgar pelas produções recentes, há um limite bem claro: é proibido abordar a política. Uma pena.
Lançado entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial, o documentário provoca uma reflexão: qual seria o posicionamento de Marília agora? Ela votaria em Lula? Ou tiraria o time de campo, como João Gomes ? Rejeitaria ambos os candidatos? Ou apoiaria Flávio, como boa parte dos sertanejos?
Nesta semana, após um primeiro turno apático , os sertanejos caíram de cabeça na campanha. Terça passada mais de 30 cantores se reuniram com Flávio Bolsonar o na Fazenda Toca da Orca, em Nerópolis (GO), de propriedade do senador Wilder Morais (PL). Chamou a atenção que apenas um integrante de várias duplas compareceu: Zezé foi, Luciano, não; Marrone foi, Bruno, não; Rodolfo foi, Israel, não; Jorge foi, Mateus, não. Cauan foi, Cleber, não. Jader foi, Carlos, não. Marcelo foi, João Lucas não. Estariam as famílias sertanejas tão divididas quanto as famílias brasileiras? Murilo Huff, ex-namorado de Marília e pai de seu filho, esteve presente. Será que Marília iria?
Nenhuma artista do feminejo esteve lá: nem Maiara nem Maraísa, nem Simone, nem Simaria. Nem Lauana Prado. Nem Naiara Azevedo. A principal artista da atualidade, a cantora Ana Castela, também não deu as caras. Cantoras de gerações anteriores, como Roberta Miranda e Paula Fernandes, tampouco foram.
A ausência das mulheres no palanque e o silêncio do documentário mostram que a política continua sendo o maior tabu do sertanejo. Se jamais saberemos como Marília se posicionaria hoje, sua trajetória prova que tentar desvincular a arte da política do país é ignorar a própria força popular que a consagrou.