As duas anteriores foram divulgadas por aliados, que atribuíam o texto a Flávio. Ambas o apresentavam como "verdadeiro presidente eleito do Brasil", apesar da derrota para Lula ( PT ) na eleição de domingo (25).
Esses dois primeiros arquivos tinham o mesmo texto, mas brasões diferentes. Um era antigo e trazia o símbolo com a palavra "Brazil", escrita com z. No seguinte, a imagem foi substituída pelo brasão com a inscrição "República Federativa do Brasil".
"Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil", afirmava a abertura das versões divulgadas pelos aliados.
Depois, Flávio publicou em sua própria conta uma versão em que se apresentava como "verdadeiro presidente". Em seguida, fez uma edição e republicou o conteúdo, adotando a expressão "líder do Brasil".
Na versão mais atualizada da carta, o senador anuncia que pretende liderar a oposição brasileira do exterior e volta a alegar, sem apresentar provas, que houve fraude na eleição. Também critica o STF (Supremo Tribunal Federal) e agradece ao presidente americano, Donald Trump , por acolher sua família nos Estados Unidos .
Trump afirmou a jornalistas nesta quarta que não pretende se envolver na crise política brasileira. "Não vou comentar sobre isso, mas sei que demos a ele autorização para entrar no país, então veremos", disse a jornalistas. "Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, com certeza", acrescentou.
Flávio desembarcou em Miami, na manhã desta quarta, após deixar o Brasil pela fronteira com a Argentina e embarcar em um avião privado que fez escala no Equador. A viagem ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes , do STF, determinar a entrega de seus passaportes no âmbito de uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro. O senador nega irregularidades.
A fuga e a declaração golpista representam uma reviravolta, já que o senador afirmou, na véspera, que desistiria de anular a eleição e que não iria fugir do país . Foi um recuo em relação ao seu discurso após a apuração, quando disse que não reconheceria o resultado .
Neste domingo, Lula venceu Flávio por uma diferença de 4,43 milhões de votos . Apesar de tanto a campanha do PT como a do PL terem pedido a prorrogação da votação por duas horas no dia da eleição, o candidato derrotado acabou questionando posteriormente a medida determinada pelo ministro do STF Cristiano Zanin , com aval posterior de Kassio Nunes Marques, presidente do TSE e indicado à Suprema Corte por Jair Bolsonaro (PL).
Apenas 34 mil votos —0,03% do total— foram registrados após as 17h neste domingo. Ainda assim, Flávio concentra sua carta nesse argumento, insistindo que a prorrogação representa uma "nulidade".
No pronunciamento divulgado nesta quarta, Flávio afirma que não pretendia deixar o país, mas que decidiu viajar para escapar do que descreveu como uma perseguição política.
O presidente americano disse na noite de terça-feira (27) que aprovaria a entrada do senador nos Estados Unidos, apesar de afirmar que não sabia seu paradeiro. Uma autoridade do Departamento de Estado confirmou à Folha que o governo americano concederia vistos a Flávio e seus familiares.
O candidato derrotado também agradeceu ao presidente argentino, Javier Milei, pela "coragem, senso de justiça e legalidade". O senador passou pela Argentina antes de seguir para os Estados Unidos.
Ao contestar novamente o resultado das urnas, Flávio concentrou suas críticas na decisão judicial que permitiu a ampliação do horário de votação no segundo turno. Ele acusou o STF de interferir nas competências do TSE e afirmou que a mudança teria beneficiado Lula, contrariando os dados que apontam para uma diferença mínima na quantidade de votos.
"A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno", declarou.
O crescimento do número de votos recebidos por um candidato entre dois turnos não configura, porém, nenhuma evidência de fraude eleitoral.
Flávio também acusou a campanha de Lula de abuso de poder político e econômico, além de utilização da máquina pública em favor da reeleição, e afirmou que essas supostas irregularidades justificariam a cassação da chapa Lula-Alckmin. Ele não apresentou provas das acusações no pronunciamento.
O senador dedicou parte da carta a atacar o Judiciário, que acusou de atuar para silenciar a oposição. Sem citar nominalmente Alexandre de Moraes, fez referências ao magistrado e afirmou que as medidas judiciais adotadas contra ele fazem parte de um suposto plano de perseguição política.
"Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada", afirmou.
Flávio disse acreditar que a apreensão de seus passaportes seria apenas o primeiro passo de uma sequência de medidas que poderia incluir tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar e condenação judicial.
A decisão de Moraes determinou a entrega dos documentos em uma investigação que envolve a relação do senador com o advogado Willer Tomaz. A medida não equivale a uma ordem de prisão.
Flávio se compara a políticos exilados, o que não é seu caso. Ele menciona Rui Barbosa, Charles de Gaulle e José Martí para afirmar que essas personalidades foram "tratados como criminosos", mas a "história os chamou de outra coisa".
Charles de Gaulle, por exemplo, liderou a resistência contra a ocupação nazista da França na Segunda Guerra Mundial.
Ele também cita opositores da ditadura chavista na Venezuela, como María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz, e Juan Guaidó, que proclamou-se presidente da Venezuela quando era líder da Assembleia Nacional, em 2019. Dezenas de países o reconheceram na época, e Trump apostou nele como uma alternativa à ditadura. Sem sucesso, porém, perdeu fôlego e influência.
O senador também afirmou que pretende assumir a liderança da oposição brasileira a partir dos Estados Unidos e fez um apelo direto a parlamentares e governadores aliados, com menção especial ao senador Rogério Marinho (PL-RN).
Flávio diz apoiar que Marinho, coordenador de sua campanha, seja o próximo presidente do Senado. A direita tem dois nomes para o posto –Rogério e Tereza Cristina (PP-MS). O PL vai ter a maior bancada da Casa no ano que vem, com 29 de 81 senadores.
"Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr", afirmou.
O discurso indica que Flávio pretende manter uma atuação política ativa mesmo fora do território brasileiro, com pronunciamentos regulares e articulação de aliados.
"Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos", disse.
O senador não detalhou quais seriam as medidas dessa estratégia nem esclareceu se pretende solicitar asilo político aos Estados Unidos. Também não estabeleceu uma previsão de retorno ao Brasil.
No encerramento, afirmou que sua saída do país não representa o fim de sua atuação política. "Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre."