Sem falar inglês e sem documentação migratória, Felipe Sousa-Lazaballet deixou Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e chegou sozinho a Miami, nos Estados Unidos, aos 14 anos. Quase 25 anos depois, o brasileiro fez história ao se tornar o primeiro brasileiro eleito para a Assembleia Legislativa da Flórida. Ele derrotou a republicana Bonnie Jackson nas eleições de meio de mandato americanas, conhecidas como midterms, cuja votação terminou na última terça-feira.
Filho de uma empregada doméstica cearense e mãe solo, cresceu em uma casa inacabada, com plástico no lugar das janelas para impedir a entrada da chuva em Santa Cruz da Serra, bairro de Duque de Caxias, para onde se mudou com a mãe por volta dos oito anos. Nas redes sociais, ele contou que família vivia sem iluminação elétrica, buscava água em um poço e convivia com uma vala de esgoto na rua, que não tinha asfalto.
A mãe trabalhava em três empregos, das cinco da manhã até a noite, para sustentar a família. A mudança para os Estados Unidos aconteceu em 2001, depois que a irmã mais velha, que havia emigrado seis anos antes, cumpriu a promessa de levá-lo para o país antes que completasse 15 anos. Como a mãe não conseguiu visto, Felipe viajou sozinho e passou a viver com a irmã, que já morava em Miami.
A relação com a política americana, no entanto, começou antes da conquista da cidadania. Aos 26 anos, o brasileiro foi contemplado pelo DACA, sigla em inglês para Ação Diferida para Chegadas na Infância. Criado em 2012, durante o governo do ex-presidente Barack Obama, o programa oferece proteção temporária contra a deportação e autorização de trabalho a determinados imigrantes que chegaram aos Estados Unidos ainda crianças
Em 2020, quando se casou com Luis Sousa-Lazaballet, Felipe já havia obtido o green card, por meio de uma petição familiar. No ano seguinte, conquistou a cidadania americana. Antes de chegar ao Legislativo estadual, trabalhou em organizações voltadas à defesa dos direitos dos imigrantes e da comunidade LGBTQ+. Também integrou, durante cinco anos, a administração do prefeito de Orlando, Buddy Dyer.
Com a eleição, torna-se também o primeiro ex-beneficiário do DACA a integrar o Legislativo estadual dos Estados Unidos. Após a vitória, Felipe, de 40 anos, recorreu às redes sociais para agradecer aos eleitores e associar sua trajetória ao chamado sonho americano.
"Não há palavras para expressar a honra e a gratidão que sinto nesta noite. Minha história é o sonho americano: cheguei aqui sem documentos, sem nada em meu nome, e agora terei o privilégio extraordinário de lutar pelos meus amigos e vizinhos como representante eleito", escreveu o democrata.
Entre as principais bandeiras apresentadas pelo brasileiro estão medidas para enfrentar o aumento do custo de vida, ampliar a oferta de moradias acessíveis, fortalecer o financiamento das escolas públicas e melhorar o acesso aos serviços de saúde.
O bom desempenho, porém, não foi suficiente para garantir o acesso à universidade que desejava. Nos últimos anos do ensino médio, ao procurar orientação para ingressar na Florida State University, descobriu que não poderia seguir o mesmo caminho dos colegas: não tinha número de Social Security, documento equivalente ao CPF brasileiro, e não podia obter carteira de motorista nem concorrer às mesmas bolsas de estudo.
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