Eleições nos EUA: como apoio a Israel e guerra em Gaza afetam disputa ao Senado

Samraa Luqman sempre foi democrata. Mas ela votou com orgulho na reeleição de Donald Trump para a Presidência americana, em 2024.

Por Admin ·

Eleições nos EUA: como apoio a Israel e guerra em Gaza afetam disputa ao Senado

Uma única questão motivou seu voto naquela oportunidade. E este mesmo fator, agora, define sua escolha nas eleições de meio de mandato desta semana nos Estados Unidos (conhecidas como midterms, em inglês).

"É Gaza ou nada", afirmou a iemenita-americana ao programa de rádio The Global Story, do Serviço Mundial da BBC. "Se você não for bom sobre Gaza, Israel e Palestina, não precisamos de você no poder e não precisamos votar em você, não importa qual seja a sua filiação partidária."

Irritados com o apoio americano a Israel , eleitores tradicionais do Partido Democrata , como Luqman, ajudaram a construir a vitória do Partido Republicano no crucial estado-pêndulo de Michigan, em 2024.

Agora, preocupações semelhantes mobilizam eleitores dos dois lados do debate em uma das disputas mais acirradas das eleições deste ano.

A briga pela vaga em aberto de Michigan no Senado americano é fundamental para determinar qual partido irá controlar o Congresso do país no restante do mandato de Donald Trump.

Os democratas precisam manter esta vaga. Os republicanos precisam da virada. E, à medida que chega o dia da eleição, a decisão parece um cara ou coroa.

De um lado, está o médico democrata Abdul El-Sayed . Se for eleito nesta terça-feira (3), ele se tornará o primeiro senador muçulmano dos EUA.

Seu oponente é o republicano Mike Rogers, ex-agente do FBI , a polícia federal americana. Ele foi membro da Câmara dos Representantes dos EUA por 14 anos.

As midterms normalmente se concentram em questões domésticas, como a economia e o custo de vida. Mas a guerra em Gaza se tornou quase uma prova de fogo para os eleitores de Michigan.

Por diferentes motivos, os dois candidatos destacaram os gastos americanos no conflito. Segundo o projeto Custos da Guerra da Universidade Brown, em Rhode Island (EUA), estas despesas ultrapassaram US$ 31 bilhões (cerca de R$ 169 bilhões) nos primeiros dois anos.

Apoiado por Trump, Rogers afirma que a ajuda militar à operação de Israel após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 é uma questão de segurança nacional para os EUA.

Já El-Sayed, progressista declarado, denunciou repetidamente o uso de dinheiro dos impostos pagos pelos americanos para financiar o que ele descreve como genocídio —uma acusação que Israel rejeita veementemente.

Nas eleições primárias que levaram à sua indicação como candidato do Partido Democrata ao Senado pelo estado de Michigan, El-Sayed venceu, por estreita margem, sua adversária moderada Haley Stevens, fiel defensora de Israel.

Mas, dois dias antes da abertura das urnas nesta terça, Stevens surpreendeu seus colegas democratas ao apoiar Rogers publicamente. Ela chama a disputa entre os candidatos dos dois partidos pela "consciência do Senado" e de referendo sobre o "ódio".

O inesperado apoio de Stevens veio após uma intensa campanha, criticada pelos frequentes ataques islamofóbicos e antissemitas. E levou as tensões ideológicas latentes ao limite.

Michigan abriga o maior percentual de árabes-americanos de qualquer estado do país. E também uma população considerável de eleitores judeus, fortes apoiadores de Israel.

Historicamente, as duas comunidades formam um pilar fundamental dos democratas. Mas, em 2024, a situação mudou.

Decepcionados com a política externa democrata para o Oriente Médio , eleitores árabes e muçulmanos organizaram uma campanha para recusar seu apoio ao partido.

E, quando a candidatura à Presidência passou para a então vice-presidente Kamala Harris , com suas promessas de continuidade, eleitores como Luqman se sentiram traídos.

"Fiquei furiosa porque fui democrata por toda a vida", ela conta, "e não foi só porque eles não disseram a palavra 'cessar-fogo' nem tentaram suspender o genocídio."
"Foi especificamente porque eles se mantiveram firmes e disseram: 'Não fizemos nada de errado. Iremos continuar com nossas políticas.'"

Em resposta, Luqman se uniu à onda de eleitores muçulmanos em apoio a Trump. "Eu não só votei", segundo ela. "Fiz campanha para ele."

Agora, Luqman se considera republicana, mas apoia El-Sayed para o Senado.

Outro eleitor árabe-americano, Amer Zahar conta que foi preciso o alerta da eleição de 2024 para que o Partido Democrata adotasse um candidato pró-Palestina como El-Sayed. "O Partido Democrata nem sempre me ouve e acho que nem sempre ouve a nossa comunidade", disse ele.

"Precisávamos causar uma revolução no Partido Democrata e foi o que fizemos em 2024. Por isso, depois daquela revolução e da vitória de candidatos bons em relação à Palestina, o partido se tornou muito mais do que um lar para nós."

Em Michigan, o Partido Democrata pode ter atendido às preocupações de muitos eleitores árabes-americanos. Mas, agora, um outro grupo expressa seu receio de ficar abandonado.

Alguns eleitores questionam a capacidade de El-Sayed de proteger a comunidade judaica em um momento de crise.

Após um ataque violento à sinagoga Temple Israel em Michigan, no mês de março, o candidato disse que "pessoas feridas machucam as outras pessoas". O responsável pelo ataque havia perdido parentes em uma ofensiva aérea israelense no Líbano .

El-Sayed pediu desculpas posteriormente. Ele afirmou que não estava tentando justificar o ataque, mas seu pronunciamento não desfez totalmente as tensões.

"Aquilo realmente foi um soco no estômago", afirmou o presidente do Conselho de Rabinos de Michigan, Aaron Starr. Ele declarou publicamente que não irá votar em El-Sayed.