Eleições em Israel revolvem incertezas de israelenses e palestinos

Enquanto os israelenses se preparam para eleger um novo Parlamento na terça-feira (27), o que pode levar ao fim da era do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu , os palestinos lidam com mais um adiamento das eleições legislativas e presidenc

Por Admin ·

Eleições em Israel revolvem incertezas de israelenses e palestinos

Nos dois casos, os processos eleitorais estão profundamente impactados por traumas e consequências políticas, econômicas e sociais tanto dos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023, que resultaram na morte de 1.200 pessoas e o sequestro de outras 251, quanto da subsequente guerra na Faixa de Gaza , com um saldo de 75 mil mortos .

"Netanyahu se beneficia das múltiplas frentes de guerra . Ao mesmo tempo que é apontado até certo ponto como responsável pelo 7 de Outubro, os conflitos não acabaram", afirma o jornalista Yaakov Katz, membro do Jewish People Policy Institute e ex-editor-chefe do The Jerusalem Post. "Quando os israelenses forem votar, eles farão uma pergunta simples: ‘Quem vai me manter seguro?’."

Katz é coautor do livro "While Israel Slept"(enquanto Israel dormia, em tradução livre), que aborda erros da inteligência e do governo israelense que podem ter facilitado os ataques do 7 de Outubro . "Muita gente olha para Netanyahu e acha que ele nos manterá seguros e pensa: 'deixe-o terminar o que ele tem que fazer'. Para outros, é uma aposta muito grande jogar com a nossa segurança."

Em entrevista ao The Jerusalem Post, o ministro da Educação, Yoav Kisch, reforçou o argumento de que a continuidade do governo Netanyahu é necessária para garantir a segurança de Israel. Para ele, um eventual parceiro de coalizão precisaria concordar com o controle das fronteiras, a prevenção de ameaças e o recurso à força militar quando necessário.

Kisch também defendeu a manutenção das restrições à criação de um Estado palestino. "Este governo vai continuar conduzindo a agenda de Israel com força e firmeza, e garantir que ninguém nos ameace", afirmou. "O boicote a Netanyahu e ao Likud [partido do premiê] causou enormes danos ao Estado de Israel. Acredito que isso precisa acabar agora."

Neste cenário, o incumbente tenta desviar sua parcela de responsabilidade frente às incertezas da oposição e se beneficia habilmente da indefinição dos conflitos contra o Hamas e contra Hezbollah , no Líbano, além do patrono das duas facções, o regime do Irã.

"Mesmo três anos após a eclosão da guerra, quando o Estado de Israel está mais forte do que nunca, as horas terríveis do ataque de Simchat Torá permanecem gravadas em nós", disse Netanyahu, no terceiro aniversário dos ataques, fazendo referência ao feriado judaico celebrado na data.

Membro do Knesset, o Parlamento israelense, Muhammad Abu Elhega representa a ala árabe do partido de oposição Yesh Atid (Há Um Futuro) e faz críticas a figuras da extrema direita na coalizão governista comandada pelo Likud.

"Estamos trabalhando duro para vencer a eleição porque devemos substituir esse governo fascista e racista", afirma o parlamentar muçulmano, que se diz orgulhoso de fazer parte do Estado de Israel.

Políticas divisionistas e discursos inflamados, aponta ele, buscam deslegitimar a cidadania árabe e minar pontes de coexistência. "Vivemos juntos aqui árabes, judeus, cristãos e muçulmanos, mas temos um problema: nossos políticos. Eles se esforçam para nos dividir."

Abu Elhega não poupa as correntes radicais dentro do próprio espectro que rejeitam a participação institucional no Knesset e a aproximação árabe- palestina com Israel. "No partido árabe também temos radicais, que dizem que quem vota para o Knesset é sionista, espião."

O oposicionista defende a construção de frentes amplas e moderadas capazes de derrotar o populismo e o extremismo nas urnas. Primeiro árabe a realizar o serviço civil voluntário em Israel, Abu Elhega entende o engajamento cívico como ferramenta para afastar os jovens da radicalização.

Do outro lado da fronteira, o medo e a instabilidade política também são importantes termômetros entre os palestinos. O anúncio do adiamento das eleições gerou revolta na Cisjordânia e críticas por parte de facções políticas, segundo Khalil Shikaki, diretor do Centro Palestino de Pesquisa Política e de Opinião Pública.

"Com o mandato presidencial expirado há anos e o Parlamento dissolvido por meio de manobras institucionais, a esmagadora maioria da população palestina vê o adiamento com ceticismo", diz.

Baseado em Ramallah, na Cisjordânia, ele relata um cenário explosivo na região ocupada militarmente por Israel desde 1967. "Hoje, com o terrorismo de colonos, os postos de controle e bloqueios, há uma enorme quantidade de ódio entre palestinos e judeus israelenses. E isso não tem nada a ver com religião. A animosidade é avassaladora, independentemente de ser secular ou religioso."

Shikaki avalia que o pleito palestino esbarra em graves obstáculos práticos e políticos, incluindo a recusa de cooperação pelo atual governo israelense, a proibição de trânsito logístico para Gaza e impasses em Jerusalém Oriental.

"Os palestinos não conversam com o atual governo israelense, nem um pouco disposto a cooperar na organização das nossas eleições", diz. "Esperamos uma nova coalizão mais interessada em fortalecer a Autoridade Palestina."

Um dos dados mais dramáticos apontados pelas pesquisas é a volatilidade no apoio ao Hamas. Imediatamente após o 7 de Outubro, o respaldo ao grupo terrorista na Cisjordânia saltou de 12% para 40%, e agora está em torno de 18%, cita Shikaki.

Diante da rejeição às lideranças tradicionais —incluindo a impopularidade de figuras associadas à Autoridade Palestina, como Mohammed Dahlan—, cerca de 55% do eleitorado palestino declarou-se indeciso. É nesse vácuo que surge a maior surpresa nas intenções de voto: o empresário e construtor Bashar al-Masri, responsável pelo projeto da cidade planejada de Rawabi.

Contrariando a tradição histórica palestina de ceticismo em relação a líderes econômicos, Masri emergiu como número um na preferência popular, remodelando o tabuleiro interno. Marwan Barghouti, por sua vez, mantém-se como a figura política individual mais popular, com amplo favoritismo em uma eventual disputa presidencial.