Eleições de meio de mandato nos EUA: por que bilionários apostaram em Trump?

O Partido Democrata americano teve uma vitória histórica nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos nesta semana. Pela primeira vez em 20 anos, o partido conquistou o controle da Câmara e do Senado. Isso mexe no tabuleiro no qual bi

Por Admin ·

Eleições de meio de mandato nos EUA: por que bilionários apostaram em Trump?

O Partido Democrata americano teve uma vitória histórica nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos nesta semana. Pela primeira vez em 20 anos, o partido conquistou o controle da Câmara e do Senado. Isso mexe no tabuleiro no qual bilionários donos de big techs operam.

Nessas eleições (chamadas midterms em inglês), a tecnologia foi para o centro do debate. Principalmente a indústria de inteligência artificial (IA) e data centers.

A ansiedade dos eleitores em relação à IA e a aversão aos bilionários que a desenvolvem, somadas à reação negativa contra tecnologias invasivas, como câmeras de vigilância com IA, transformaram o setor num vilão onipresente neste ciclo eleitoral.

O Olhar Digital conversou sobre os resultados das eleições de meio de mandato (que ainda estão sendo contabilizados) e as possíveis consequências desta reconfiguração no Congresso americano com Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação.

Midterms: Partido Democrata ganhou cadeiras na Câmara e no Senado dos EUA

Até a publicação desta matéria, o saldo mais atualizado das eleições de meio de mandato dos EUA era:

Câmara dos Representantes

• Democratas: 229 cadeiras (ganhou 26 cadeiras);

• Republicanos: 139 cadeiras (perdeu 26 cadeiras).

Senado

• Democratas: 54 cadeiras (ganhou sete cadeiras);

• Republicanos: 44 cadeiras (perdeu sete cadeiras).

Nos EUA, eleições de meio de mandato renovam o Congresso e testam a popularidade presidencial – Crédito: Rob Crandall/Shutterstock

Nos Estados Unidos, o Congresso passa por uma renovação parcial a cada dois anos.

Quando ocorrem na metade do mandato presidencial, essas eleições são chamadas midterms (eleições de meio de mandato).

A contagem oficial demora por três motivos principais:

• Sistema descentralizado: Os EUA não possuem um órgão eleitoral nacional centralizado (como o TSE no Brasil). Cada um dos 50 estados segue leis, prazos e métodos próprios para processar as cédulas;

• Votos por correio: Milhões de eleitores utilizaram o voto antecipado ou por correio. Estados populosos, como a Califórnia, aceitam cédulas que cheguem dias após o pleito, desde que tenham o carimbo postal do dia da eleição, e exigem uma demorada conferência manual de assinaturas;

• Auditorias e recontagens: A maioria dos distritos faz auditorias pós-eleitorais comparando votos em papel com os registros das máquinas, além de recontagens obrigatórias em distritos onde a margem entre os candidatos foi muito apertada.

Os democratas não conseguiam ter maioria na Câmara e no Senado desde 2006, quando ocorreram as midterms no segundo mandato de George W. Bush.

Setor de tecnologia se enraizou no governo Trump

O cenário político no qual o setor de tecnologia opera está muito diferente agora em comparação às últimas eleições de meio de mandato, ocorridas em 2022.

A Anthropic, que agora pode abrir seu capital com uma avaliação superior a US$ 2 trilhões, tinha um ano de existência. A OpenAI ainda não havia lançado o ChatGPT ao público. Elon Musk ainda não havia se aliado à campanha de Donald Trump.

De lá para cá, o setor de tecnologia tornou-se cada vez mais enraizado nas esferas governamentais.

Elon Musk (SpaceX), Jensen Huang (Nvidia) e Donald Trump durante comitiva no Oriente Médio – Imagem: Rawpixel/Shutterstock

Paralelamente, líderes do setor desenvolveram estruturas robustas de financiamento de campanhas e de lobby, que ganharam força nas eleições de meio de mandato de 2026.

Para você ter ideia, Elon Musk injetou US$ 200 milhões (pouco mais de R$ 1 bilhão) em iniciativas para manter a cadeira de senador pelo Texas sob controle republicano. No fim, o democrata James Talarico foi eleito.

No total, Musk gastou mais de US$ 400 milhões (R$ 2,1 bilhões) para apoiar candidatos republicanos. Foi mais do que ele doou para a campanha de Trump em 2024.

O bilionário também usou uma de suas empresas – o X/Twitter – para promover campanhas republicanas. E atacar democratas.

Enquanto isso, diversas pesquisas mostram que os americanos veem de forma negativa o impacto que a IA terá em diferentes áreas – desde relações pessoais e economia até processos eleitorais.

Eleitores também manifestaram oposição generalizada à instalação de data centers onde moram.

A aversão do público em relação à indústria de IA estende-se aos seus líderes.

Pesquisas mostram que, de modo geral, nos Estados Unidos, executivos como Musk, o CEO da OpenAI, Sam Altman, e o CEO da Anthropic, Dario Amodei, são vistos como pessoas em quem não se pode confiar. E que não despertam simpatia.

Confira abaixo a entrevista do Olhar Digital com Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação:

Entre as últimas midterms e essas, o setor de tecnologia se enraizou no governo Trump. Por que bilionários deste setor apostaram tanto em Trump?

Na verdade, nesse aspecto, não há muita diferença em relação à última eleição. Trata-se de uma continuidade.

As big techs estiveram presentes na posse e sinalizaram apoio durante as eleições presidenciais.

Essa continuidade ocorre porque o governo Trump sinalizou, o tempo inteiro, uma postura mais favorável aos interesses dessas empresas. Basta lembrar que Elon Musk chegou a fazer parte efetivamente do governo.

Trump sinalizou um ambiente mais permissivo, mais orientado às tarifas e com menos regulação. Portanto, esse movimento é absolutamente natural.

As big techs apoiaram aquilo que enxergaram como uma visão mais alinhada aos seus interesses. Havia uma sinalização recíproca e essas empresas têm meios para exercer influência, em maior ou menor grau.

Isso não se limita aos recursos financeiros, mas inclui também o alcance e o poder de influência das próprias plataformas digitais.

Impactos e regulação da IA apareceram em campanhas e nas preocupações de eleitores. Mas os maiores “vilões” no discurso foram data centers. No geral, eleitores parecem ter uma visão negativa sobre IA e a infraestrutura por trás dela nos EUA. É como se, nessas midterms, a tecnologia tivesse virado uma vilã. Qual análise você faz sobre isso?

Acredito que seja muito mais uma carona num contexto maior do que qualquer outra coisa. Afinal, toda eleição tem um vilão.

Em eleições anteriores, esse papel foi atribuído aos imigrantes. Em outras situações, o vilão era outra nação, um grupo ou uma ameaça externa, do ponto de vista territorial.

Neste momento, porém, parece não haver uma figura tão clara. Do lado dos democratas, há uma fragmentação que, curiosamente, pode até favorecer o próprio partido num cenário como esse.

Nas últimas eleições presidenciais, havia uma personificação mais evidente desse antagonismo em Joe Biden e Kamala Harris. Agora, não existe uma figura central tão definida.

Mas por que digo que isso está conectado a um contexto maior? Porque estamos falando de um cenário de aumento do custo de vida e de inflação.

Em diversos casos, a chegada de data centers a determinadas localidades provocou aumento no custo da energia e, consequentemente, no custo de vida.

Além disso, a instalação de um data center tem características muito diferentes, por exemplo, das de um shopping center.

Embora também ocupe uma área territorial considerável, um shopping gera empregos. Um data center, por sua vez, praticamente não gera empregos na mesma proporção, ocupa grandes áreas, consome quantidades enormes de energia e também utiliza água.

Guardadas as devidas proporções, acaba se tornando uma espécie de tema semelhante ao de uma fábrica ou de uma usina de energia nuclear, como aquela do Sr. Burns, dos Simpsons.

(Fato curioso: mais americanos se opõem à construção de um data center na região onde moram do que à de uma usina nuclear, segundo uma pesquisa do Gallup feita no começo de 2026.)

É claro que não estamos diante de uma crise generalizada no mercado de trabalho, do ponto de vista do desemprego e do desempenho econômico.

No entanto, quando a inflação e o custo de vida pressionam os orçamentos familiares e a remuneração, as pessoas buscam explicações para essa situação.

Uma das correlações que podem ser estabelecidas, mesmo que necessariamente não se sustente, é a de que a inteligência artificial está por trás dessas dificuldades.

São esses elementos que ajudam a explicar como a inteligência artificial acaba entrando nesse debate político e econômico.

Democratas reconquistaram a maioria na Câmara e do Senado pela primeira vez em 20 anos. Na sua opinião, como fica a situação do Vale do Silício e dos bilionários do setor de tecnologia neste novo cenário? O que podemos esperar? Foi uma guinada significativa para o setor?

Tenho uma tendência a ser mais cético em relação a isso. É claro que pode haver mudanças, especialmente porque estamos tratando do Legislativo, das duas casas do Congresso.

Portanto, pode, sim, haver uma atuação mais focada no estabelecimento de leis, regulações e outras medidas.

Porém, quando afirmo que sou um pouco mais cético, é porque precisamos olhar para o que já vimos no passado.

As big techs, em outros momentos, eram vistas como apoiadoras dos democratas e simpatizantes daquilo que ficou conhecido como cultura woke. Tim Cook, Sam Altman e, de maneira até contraditória, o próprio Mark Zuckerberg são exemplos desse movimento.

Isso se refletia em determinadas políticas de gestão de pessoas e também em alguns discursos dessas empresas e de suas lideranças.

Quando olhamos para o passado e damos alguns passos atrás para ter uma visão mais ampla, percebemos que essas empresas já foram associadas tanto aos democratas quanto aos republicanos.

No fim das contas, elas são negócios. Vão navegar conforme o cenário, mudar de posição quando necessário e buscar apoio em outros grupos políticos, porque são empresas que atravessam diferentes governos.

Elas têm uma perspectiva de perpetuidade, diferentemente das oscilações e dos ciclos governamentais.

Na sua visão, como fica o desenvolvimento de IA e a expansão de data centers nos EUA com esta reconfiguração no Congresso? O que pode mudar?

Antes de emitir qualquer opinião sobre esse cenário, é preciso lembrar que a própria estrutura do Executivo nos Estados Unidos é muito diferente da que temos no Brasil.

As leis estaduais e até mesmo as leis dos condados têm um peso e uma capacidade de influência muito diferentes daquilo que conhecemos aqui.

Ou seja, pode haver uma mudança importante no âmbito federal, obviamente, em razão da composição das duas casas do Legislativo. Mas a presença e a autonomia dos estados continuam tendo um papel determinante.

Para exemplificar, uma mudança política no Texas tem um impacto muito mais representativo para o próprio Texas do que uma mudança no cenário nacional.

Da mesma forma, a manutenção de um determinado cenário político no estado de Nova York, por exemplo, faz com que, mesmo diante de uma eventual continuidade republicana no âmbito nacional, a realidade local não mude tanto.

Por isso, considero muito importante colocar essa questão em perspectiva.

A Flórida é outro exemplo. Durante muito tempo, foi um território tradicionalmente democrata, mas passou por uma guinada política nos últimos anos. Essa mudança vem se consolidando e se estruturando cada vez mais.

É curioso observar essa evolução ao longo do tempo. Há cerca de 20 anos, imaginar o Texas se tornando um estado de maioria democrata e a Flórida assumindo uma posição republicana seria algo praticamente impensável.

Por isso, qualquer análise sobre o cenário tecnológico precisa considerar essas diferenças regionais.

Em algumas localidades, as mudanças políticas podem ser bastante significativas. Volto ao exemplo do Texas: uma mudança no âmbito estadual, considerando o peso que o estado tem como unidade da federação, pode produzir efeitos muito expressivos.

Em outros lugares, essa transformação pode ser menor. O impacto, portanto, depende não apenas das mudanças no cenário nacional, mas também das particularidades políticas e institucionais de cada estado.