São laços diferentes, mas a esquiva é a mesma. Diante de conflitos, muitos homens fogem, e em diversos âmbitos: do atrito em si, da necessidade de se responsabilizar pelos próprios atos, das consequências de promessas não cumpridas e do papel de vilão na história de alguém —esta última talvez seja a fuga que conduz todas as outras. Com o afastamento, tentam manter intacto o ideal de filho, marido, pai, como se a distância do conflito evitasse o ataque ao personagem. E muitas vezes nem há ataque, apenas um pedido de presença, reparação, responsabilização.
Admitir erros é difícil para todos, mas, histórica e culturalmente, construímos um ideal masculino pautado na certeza, na força, na liderança e na competência. Uma imagem de quem resolve, que deixa pouco espaço para a falha como traço humano e faz de muitos homens reféns da própria narrativa. Para eles, reconhecer um erro ou uma derrota passa a ser prova de fraqueza.
Freud ajuda a entender esse medo. Em "Inibição, Sintoma e Angústia", ele descreve a inibição como o ato de abrir mão de fazer algo para não entrar em contato com a angústia. No caso desses homens, a angústia de se ver menos potente, menos protagonista, menos dono da última palavra.
"Longe dos olhos, longe do coração", já diz o ditado. Ao se afastar, muitos se escondem atrás de fronteiras reais ou simbólicas para não serem vistos por quem acreditam ter decepcionado, como se cada olhar fosse um julgamento, uma condenação. A distância também serve, de forma quase infantil, para não ver as consequências dos próprios atos.
Em "Sete Princípios para o Casamento Dar Certo", Gottman, um dos grandes pesquisadores da conjugalidade, afirma que, quando o homem não se dispõe a dividir o poder com a parceira, há 81% de chance de o casamento se autodestruir. Dividir o poder significa abandonar a reafirmação da autoridade e o autoritarismo para construir relações em que marido e mulher, irmão e irmã, pai e filha possam discordar com respeito, assumir responsabilidades, reparar e encontrar juntos as mudanças de rota necessárias.
Muitos resistem a isso, e pesquisas sobre conflito conjugal confirmam o que muitas de nós já vivemos na pele: quanto mais insistimos em conversar, trazer para perto, propor mudanças, mais eles se fecham.
Ouso incluir outro movimento, a inversão. Quem sumiu se apresenta como perseguido por quem só queria entender o sumiço durante o diagnóstico da mãe, cobrar as promessas da campanha afetiva dos primeiros dias de namoro ou pedir desculpas pelas frases com que descredibilizava o mal-estar da filha.
"Sumi porque você me sufoca." "Esta relação me prende demais." "Pra que tudo isso?" "Vocês me perseguem." Ao alegar que o território relacional ficou opressor demais, pais, irmãos, maridos e namorados minam a legitimidade da queixa e deixam quem ficou sozinha com as consequências e com o risco de se responsabilizar, e ser responsabilizada, pela fuga do outro.
Para além da manipulação, há nessa fuga uma espécie de anestesia em relação aos próprios atos. Muitos desses homens nem chamam isso de fuga, e sim de espaço para pensar, porque, antes de se esquivar da culpa, nem chegam a se ver como culpados ou responsáveis.
No estudo "Por que as mulheres pedem mais desculpas que os homens", os psicólogos sociais Schumann e Ross mostraram que homens e mulheres tendem a se desculpar na mesma proporção quando reconhecem ter ofendido alguém. A diferença está na admissão —eles avaliavam as mesmas ofensas como menos graves, e essa avaliação previa tanto o julgamento de que cabia um pedido de desculpas como o gesto de pedir.
Socializados mais para agir do que para elaborar, ao fugir, preservam a própria imagem e o ideal de masculinidade que a sustenta, calcado na invulnerabilidade, na autossuficiência e no controle. Traços que facilmente se tornam justificativa para a violência emocional e psicológica que machuca quem está ao lado, e também prisões autoimpostas, que abafam a fragilidade e a humanidade dos próprios homens.
A mudança começa quando cada um assume a responsabilidade pelo que fez e pelo que sente e reconhece o que o outro está sentindo. Para eles, isso exige sair do lugar de perseguido, incompreendido, e suportar ser visto falhando por quem ama. Para você, exige parar de carregar sozinha o que é dos dois. Tentar ser o supereu de quem te machucou não leva a veredito nenhum; enquanto só uma das partes se responsabilizar pelo vínculo, a outra seguirá livre para fugir dele.