Criou-se um temor muito grande sobre o El Niño "bomba" , que traria seca e atrasaria a chuva. O que realmente está ocorrendo por ora é um volume um pouco maior de chuva no Sul, o que dificulta o plantio em algumas áreas, mas ainda não houve os fortes efeitos anunciados.
A avaliação é de Vlamir Brandalizze, analista do setor de grãos. A chuva tem provocado interrupções, mas o plantio segue, embora as lavouras semeadas há um mês não tenham crescido o suficiente, devido ao clima frio e ao tempo muito nublado.
O plantio da soja está adiantado. Em Mato Grosso, principal produtor, ele avançou bem nos últimos dias. No Paraná, a chuva atrapalhou na semana passada, mas o produtor continua semeando nesta. Em Mato Grosso do Sul e em Goiás também houve boa evolução.
O plantio de verão do milho está na reta final, e o produtor está mais otimista. Neste ano, há um aumento de área nesta primeira safra, afirma Brandalizze. Ele vê problemas, no entanto, no feijão. O clima está muito frio no Paraná, região importante para essa cultura, e temperaturas abaixo de 15ºC provocam abortamento da flor.
"Provavelmente vamos ter uma produção baixa, uma vez que há uma situação muito parecida também no sudoeste de São Paulo, uma área tradicional nessa cultura", afirma ele.
Uma das preocupações era com o arroz, que entra em um período de entressafra com estoques baixos, devido à safra menor deste ano. O plantio do cereal está com atraso, mas o setor deverá recuperar o ritmo. A área semeada no Rio Grande do Sul é de 50%, e, em anos normais, já estaria em 70%. Chuva e tempo nublado não fazem bem para essa cultura, que gosta de "água no pé e sol na cabeça", afirma Brandalizze.
Há uma expectativa de área menor para o arroz, mas não tanto quanto se previa. Os preços reagiram neste segundo semestre, subindo de R$ 50 por saca no período de safra para até R$ 82 no Sul nas semanas anteriores. O Brasil deverá semear 1,55 milhão de hectares na safra 2026/27, com avanço de área no Tocantins, mas recuo no Rio Grande do Sul.
Tocantins, que semeou 95 mil hectares na última safra, poderá aumentar a área para 110 mil. Já no Rio Grande do Sul, o plantio recua para 850 mil hectares.
O preço do cereal está mais firme e começa a dar margem para o produtor, embora o custo de produção continue elevado. Em Mato Grosso, o sorgo , com maior resistência à seca, poderá ganhar área do arroz. A área menor e perda de produtividade, devido ao clima, deverão reduzir a safra nacional deste ano para 10,5 milhões de toneladas.
Os preços deram uma arrefecida nesta semana. A safra recorde de 2024 abasteceu bem o mercado e provocou queda no valor de negociação do cereal. A partir deste segundo semestre subiram, atingindo de R$ 81 a R$ 82 no Rio Grande do Sul, diante da perspectiva de redução no plantio.
Alguns fatores, no entanto, provocaram uma pressão de queda nas últimas semanas. O ritmo das exportações é bom, a entrada de arroz do Mercosul é menor, e as indústrias resistem em fazer estoques, à espera de definições na economia. Além disso, o varejo mantém promoções com o arroz que comprou no período de baixa, forçando uma redução da saca para de R$ 78 a R$ 79 para o produtor do Sul nesta semana.
Segundo o setor industrial, a demanda por arroz e por feijão não cresce, ainda que esses grãos sejam produtos básicos. A população está endividada , comprando menos, e parte do dinheiro da comida foi para apostas, afirma o analista.
O El Niño vai ser um problema para os produtores de arroz se provocar grandes enchentes, mas eles estão preparados para as menores, diz Brandalizze. Se não ocorrer excesso de chuva, estarão tranquilos, uma vez que as atuais encheram as lagoas. "Com isso, eles têm água para tocar a safra. Para o arroz, é mais complicado a falta dela do que o excesso", diz ele.
O mercado externo favorece as exportações brasileiras. As vendas devem atingir 2 milhões de toneladas de arroz em casca já em novembro. Os países asiáticos, grandes fornecedores do mercado internacional, têm menos produto devido a problemas climáticos, e os preços sobem por lá. Com isso, o Brasil ganha competitividade na América Central e na África, afirma Brandalizze.