Durante séculos, os impérios precisaram embarcar plantas para explorar as suas propriedades. Os britânicos levaram espécies produtoras de quinino da América do Sul para plantações asiáticas. Em Lisboa, o Museu Nacional de História Natural e da Ciência conserva coleções botânicas, zoológicas e documentais provenientes do Brasil, reunidas em expedições científicas dos séculos 18 e 19. Entre elas encontram-se exemplares associados à célebre Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira , que percorreu a amazônia, o pantanal e outras regiões brasileiras entre 1783 e 1792, recolhendo espécies e informações para a Coroa portuguesa. A botânica era também uma forma de exercício do poder imperial.
Hoje, uma parte da riqueza biológica pode circular sob a forma de sequências digitais de DNA e RNA, armazenadas em bancos de dados internacionais como o GenBank. A partir dessas informações, laboratórios de todo o mundo identificam genes responsáveis pela produção de proteínas, estudam enzimas com aplicações industriais e desenvolvem moléculas de interesse farmacêutico, transformando dados genéticos de acesso público em invenções patenteáveis com elevado potencial comercial.
A utilização comercial dessas informações genéticas levanta uma questão jurídica e econômica ainda sem resposta clara. Quem tem direito aos benefícios econômicos da informação genética de uma espécie? O país onde ela se encontra, a comunidade que preservou o seu habitat, o cientista que decifrou o seu DNA ou a empresa que desenvolveu uma aplicação comercial? Cada um reivindica uma parcela de uma riqueza cuja origem e exploração desafiam as categorias tradicionais da propriedade.
O Brasil corre o risco de ficar à margem de uma parcela considerável do valor econômico gerado pela sua biodiversidade. Um estudo publicado em 2023 na revista científica World Patent Information revelou que 92% das inovações patenteadas envolvendo espécies da flora da mata atlântica foram desenvolvidas e depositadas no exterior, sobretudo na China, no Japão, nos Estados Unidos e na Coreia do Sul. Ao Brasil coube a extraordinária abundância da natureza. A outros países, a capacidade de a transformar em invenções, patentes e negócios.