E não é que o mundo mudou?

Desde a derrota dos milicianos, faz duas semanas, choro todo dia. Estou emotivo. Falo "derrota dos milicianos", e não vitória do Lula , porque é disso que se trata: do começo do fim de uma era. A "era do ódio", talvez batizasse o historiador Eric Hobsbawm. A e

Por Admin ·

E não é que o mundo mudou?

Escrevo na quarta de manhã, depois do 7 x 1 que o trumpismo tomou da democracia. Antes de sair da cama assisti à fala de vitória de James Talarico, eleito senador pelo Texas. Elon Musk , o bilionário do "heil Hitler", doou cerca de meio bilhão de dólares para a campanha republicana naquele estado. Foi o maior gasto numa campanha para o Senado em toda a história dos Estados Unidos . Em seu discurso, James Talarico citou Davi e Golias. "Vencemos o homem mais poderoso do mundo!".

É tudo isso e mais do que isso. A vitória de Lula e a lavada histórica dos democratas indicam uma mudança cultural. Uma "meia-lua inteira, sopapo na cara do fraco, estrangeiro gozador" que, por mais de uma década, decretou que a maior virtude estava na maior fortuna, no jato, no relógio –e quem não tinha era loser, perdeu, mané. Esse éthos que botou o mundo pra trabalhar no sistema Uber: o carro é seu, seu tempo é meu, os direitos trabalhistas são de ninguém. Round Six. Big Brother. Jogos Vorazes. Virem-se. Pois, viramos.

O zênite (e talvez o nadir) deste espírito (de porco) do tempo foram as bets. Cilada de ricos pra roubar dinheiro dos pobres com a promessa de que talvez, assim, quem sabe, fossem um dia ter relógios e jatos e fazer "heil, Hitler" ou suruba com prostitutas do leste europeu. Pois bem, parece que quem apostou nas bets, apostou errado. "O engano se enganou."

Voltando ao início, a vitória no Brasil não foi do Lula, com seu inegável carisma e todo o significado que ele tem para a triste história deste país. Lula estava se arrastando nos debates, gaguejando diante do encosto miliciano que o chamava de "nove dedos". A vitória foi minha, foi sua, foi da minha mãe e da minha avó, que usaram a internet com a determinação de um gamer de 12 anos. Foi da minha filha de 13, que botou adesivo do Lula no celular, do meu filho de 11, que bateu panelas com os amigos João, Aurora e Mariana na varanda do meu apartamento até ele ser invadido –sim, invadido– pela vizinha de baixo, gritando com as crianças. (Já fiz um boletim de ocorrência por invasão de domicílio. Fosse nos EUA de Trump ou num futuro Brasil dos milicianos, eu teria direito a dar-lhe um tiro. Felizmente, não posso —nem quero. Prefiro o "martelo do tribunal").

Por mais de uma década a democracia ficou nas cordas –ou nas redes? Parecia que não tinha jeito. Que os bilhões de dólares e os pecados capitais haviam dominado o mundo pra sempre. Mas eis que, diante de Golias, Davi aparece com uma funda. Ainda não sabemos exatamente o que ela funda, mas sabemos o que afunda.

"Ame seu vizinho" era o slogan escrito no púlpito de James Talarico, no discurso da vitória. Cara vizinha, se quiser aparecer em casa para um café, para pedir uma xícara de açúcar, uns ovos, e, principalmente, pedir desculpas às crianças que você insultou, será recebida não com um tiro, mas com amor. É por um mundo assim que Daniel, João, Aurora e Mariana, de 11 anos, estavam batendo panelas. Seja bem-vinda.